Descobriu que tinha hepatite C em 2001 e desde aí que a sua vida mudou radicalmente para melhor. Aos jovens deixa um alerta: estar na moda não é experimentar tudo, há que saber dizer “Não”. O consumo de substâncias nocivas leva ao pagamento de uma fatura demasiado elevada.

Quando é que descobriu que tinha hepatite C?

Em 2001. Tive graves problemas de saúde, fui ao médico e um dos principais problemas detetados foi a hepatite C. Aos 12 anos lembro-me que tive hepatite, mas não sei bem qual. Não sei como contraí a doença. Pode ter sido por causa dos abusos com droga injetável e álcool ou se calhar foi uma reativação do vírus que tive aos 12 anos.

Esta doença é silenciosa, talvez quem esteja mais próximo de nós possa reparar que os nossos olhos estão mais amarelos e que andamos mais cansados, mas nas fases iniciais é tudo muito assintomático e silencioso.

Podia falar-nos um pouco desses tempos em que abusava do álcool e das drogas… 

Abusei muito. Foi a fase do sexo, droga e rock n’ rol. Aproveitei bem este lema e acabei por pagar a fatura da pior maneira. Não sinto rancor com o meu passado. Vivi o que vivi. Claro que temos de assumir as consequências dos nossos atos, assumir as responsabilidades.

Mas consegui virar a página, apesar dos momentos bastante difíceis por que passei. O segredo está na nossa própria vontade e no apoio de quem está à nossa volta. Temos de lutar, apesar de ser difícil, mas também ter o apoio da família e dos amigos. E isso nunca me faltou. Todos foram espetaculares. E, claro, a paixão pelos Xutos & Pontapés também me ajudou a dar um passo em frente e a deixar uma vida cheia de vícios.

Como foi a experiência de deixar as drogas e o álcool, já que teve complicações muito graves, como uma hemorragia interna, um tumor que o obrigou a um transplante…

Foi complicado, mas como referi, a nossa mente e o apoio de quem nos rodeia são essenciais na recuperação. Desde que dei entrada no hospital, em 2001, deixei o álcool e as drogas. Agarrei-me à vida. Além disso tive um acompanhamento espetacular por parte do meu médico assistente, o Dr. Miguel Raimundo do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

O facto de ter tido hepatite ainda lhe provoca problemas no dia-a-dia? 

Não. Faço uma vida normal e … sem abusos. Fui muito bem acompanhado no hospital. Primeiro fiz tratamento com interferon, o que é muito duro. Felizmente hoje em dia há outras alternativas, embora não sejam sempre utilizadas por serem mais dispendiosas. O transplante também ajudou. De qualquer forma, mesmo antes de receber um novo fígado, já não tinha carga viral.

Que cuidados tem atualmente? 

Hoje em dia não faço qualquer tratamento. Só mudei a minha vida. Fugi dos vícios que muito mal me fizeram.

O Zé Pedro tem apostado em dar o seu testemunho…

Sim. Acredito que é mais fácil passar uma mensagem quando se ouve a história real de quem já viveu o problema. Espero que as pessoas olhem para o meu caso e, principalmente, os mais novos, aprendam que não se deve experimentar tudo nesta vida. Não existe algum mal em beber, mas o consumo exagerado e constante de álcool só prejudica o fígado.

Não sou radical e acho normal que se “apanhe uma besana” pelo menos uma vez na vida. Quanto à droga, o melhor é fugir. Atualmente há drogas cada vez mais sintéticas, que são preparadas para atacar o cérebro e provocar facilmente a dependência. O que pode acontecer? Destruir a vida, destruir todos aqueles sonhos que nos faziam caminhar e ser felizes. A fatura a pagar pode ser demasiado elevada.

Além disso é preciso fazer o rastreio. Basta ir ao médico de família e fazer uma análise. E este conselho não é apenas para quem abusou de drogas e álcool.

Como é que os jovens podem dizer não à tentação? 

Os jovens devem ter uma personalidade cada vez mais forte para dizer não às tentações e não se deixarem levar pelo princípio de que se tem de experimentar tudo na vida. Isso não é verdade. Há que saber selecionar os amigos e as atividades que nos fazem bem.

Quais são os principais problemas que se enfrentam quando se tem esta doença?

Além do sofrimento que acarreta a doença e o tratamento, é a discriminação contra os portadores do vírus e o silêncio em que se vive enquanto se trata a doença. As pessoas têm medo de perder o emprego, os amigos, os familiares. A hepatite C não se transmite por se estar ao pé da pessoa. Devemos ajudá-la.

Como está a sua saúde neste momento?

Muito bem. Trabalho sem problemas, casei... (risos). Sou muito feliz! E é importante dar o meu testemunho, para evitar que se entre por caminhos menos saudáveis e, ao mesmo tempo, para dar força a quem faz o tratamento e até a quem faz um transplante. Ao fim de um mês de ter sido transplantado estava no palco…

Biografia

José Pedro Amaro dos Santos Reis nasceu a 13 de setembro de 1956, em Lisboa.

Zé Pedro fundou os Xutos ao colocar um anúncio no jornal: "Baterista e baixista precisam-se para grupo punk" e é conhecido pela sua enorme alegria em cima do palco e fora dele. Apesar de ser o guitarrista ritmo da banda, ele é considerado um ícone para o rock português e é compositor de alguns clássicos dos Xutos como "Submissão" (onde participa como vocalista) e "Não Sou o Único".

Em meados dos anos 90, durante uma pausa dos Xutos, participou em conjunto com o colega de banda, Kalú, na banda de Jorge Palma, Palma’s Gang. Em 2004, teve uma participação especial no filme Sorte Nula, de Fernando Fragata, tendo interpretado um recluso evadido. Foi a sua banda, Xutos & Pontapés, que fez a banda sonora desse mesmo filme.

Em 2007, uma das suas irmãs, Helena Reis lançou um livro com o nome "Não Sou o Único" que conta toda a vida do guitarrista. A 19 de Janeiro de 2013, casou com Cristina Avides Moreira.

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