O que causa o aparecimento de úlcera de perna?

As duas patologias que causam o aparecimento de úlcera, com maior frequência, são a doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) e a doença venosa crónica (DVC). Nem sempre é totalmente clara a origem da lesão, existindo muitos doentes com várias causas associadas - são as úlceras de etiologia mista.

Em consulta, o ponto mais importante é, obviamente, esclarecer a causa da úlcera. Depois de uma avaliação clínica completa é necessário obter alguns exames complementares, dos quais um estudo Eco Doppler da circulação venosa é fundamental. Assim, poderemos ter um diagnóstico causal.

Quando a causa é venosa:

Os doentes com uma lesão ulcerada de causa venosa têm, muitas vezes, uma série de características comuns:

- Varizes volumosas que nunca trataram com a justificação de que nunca doeram;

- Edema do tornozelo e perna que não valorizam, considerando ser normal com o envelhecimento;

- Áreas de pigmentação escura na perna, normalmente junto do tornozelo, com a pele endurecida e descamativa;

- Sedentarismo e obesidade;

- História passada de trombose venosa profunda (tromboflebite);

- Úlcera indolor, sendo o aparecimento de dor muitas vezes sinal de infeção;

- Úlcera geralmente pouco profunda;

O tratamento tem vários pontos comuns a todos os casos:

- Lavagem diária da perna com água e sabão, de preferência “sabão azul e branco”, secando, depois, cuidadosamente;

- Seguir indicação médica sobre o que usar sobre a úlcera (apósito) mas proteger, cuidadosamente, toda a pele em volta da úlcera com um creme/pomada de hidratação e regeneração cutânea;

- Usar contenção elástica adequada e permanente, sendo mais prático utilizar meia elástica que ligadura. Em alguns casos é usado um sistema de compressão com ligaduras;

- Usar medicação adequada, seguindo as guidelines nacionais ou internacionais.

Importa ter em atenção  o facto de uma úlcera ter tempo de cicatrização, sendo incorreto alterar o apósito apenas e só porque a úlcera não cicatrizou rapidamente. Embora mudando o penso com regularidade, devemos manter o mesmo apósito, e esperar dez a quinze dias para ver o resultado.

Quando a causa é arterial

Nesta situação existe irrigação deficiente dos tecidos que pode levar à morte celular, com aparecimento da lesão ulcerada.

Tipicamente, os doentes são fumadores que, inicialmente, desenvolveram um quadro de dor muscular desencadeada pela marcha (claudicação intermitente), muitas vezes, erradamente, atribuída a problemas osteo-articulares e, por isso, não tratada corretamente. Este ponto é muito importante pois é absolutamente necessário avaliar bem estes doentes, na fase inicial, para ser possível evitar a progressão para estádios mais avançados da doença, que podem ter e têm consequências muito graves - como por exemplo, a perda de membro.

Após  avaliação clínica é sempre preciso efetuar um estudo Eco Doppler para identificar os locais onde existe obstrução das artérias e ter ideia do padrão de irrigação dos tecidos.

Para obter cicatrização de úlceras arteriais é, quase sempre, necessária a desobstrução arterial. Esta pode ser feita cirurgicamente, com gestos diretos sobre a artéria ocluída ou com cirurgia de bypass. A evolução tecnológica trouxe novas abordagens sendo hoje possível tratar artérias obstruídas através de cateterismo.

Quando a causa da úlcera é a doença arterial, as características são bem diferentes das venosas:

  • Geralmente muito dolorosa;
  • Úlceras profundas e, muitas vezes, com muito tecido morto que necessita ser removido;
  • Frequente existência de mais do que uma.

O tratamento é complexo, recorrendo a uma multiplicidade de fármacos, mas a abstinência tabágica é absolutamente necessária ao controlo da situação. São os doentes que não cumprem esta regra que acabam com situações de extrema gravidade, muitas vezes, mesmo, com perda do membro.

O tratamento local das úlceras arteriais deve ser feito por uma equipa experiente e sempre sob supervisão e orientação médica especializada.

A terapia compressiva com ligadura ou meia elástica é totalmente contraindicada, levando ao agravamento da situação. O penso deve ser mantido no local com técnicas que não produzam qualquer tipo de compressão.

Quatro pontos a reter

  1. A úlcera de perna é uma situação grave que necessita cuidados médicos especializados.
  2. O tratamento está diretamente relacionado com a causa, pelo que só será correto quando se souber porque apareceu.
  3. Muitas das causas de úlcera de perna são tratáveis evitando assim o seu aparecimento (por exemplo: tratar as varizes, mesmo assintomáticas, evita muitas úlceras).
  4. A obstrução das artérias está diretamente ligada ao tabagismo pelo que o ato de fumar é responsável por muitas úlceras.

Um artigo do médico João Albuquerque e Castro, coordenador de Angiologia e Cirurgia Vascular no Hospital CUF Descobertas.

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