Os tumores da tiroide, benignos e malignos, traduzem-se, na generalidade dos casos, por um nódulo localizado no interior desta glândula. 

Trata-se de uma lesão, por norma esférica ou elítica, que se destaca do tecido envolvente. Embora possamos suspeitar da sua existência pela observação ou palpação do pescoço, o seu diagnóstico definitivo carece sempre da realização de um exame de imagem, geralmente a ecografia.

Prevalência dos nódulos da tiroide

A prevalência dos nódulos da tiroide (frequência com que são encontrados na população) varia muito com o método de avaliação.  Quando recorremos à palpação conseguimos identificar nódulos em cerca de 4% a 7% das pessoas mas, quando o método de avaliação é a ecografia da tiroide, conseguimos identificar nódulos numa percentagem muito maior da população.

No entanto, a grande maioria destas lesões,  identificadas apenas por ecografia, são de pequena dimensão e de escassa importância clínica. Por este motivo, a realização de rastreios, com recurso a este método de imagem,  é desaconselhada. Também podemos relacionar a prevalência de nódulos da tiroide com outros fatores. Por exemplo, a probabilidade de identificar um nódulo é maior nas mulheres e aumenta com a idade. Recorrendo à ecografia é possível identificar nódulos em mais de 50% das mulheres após a menopausa.

A probabilidade de um nódulo ser maligno é relativamente baixa. Calcula-se que o risco de uma pessoa com tiroide nodular, situação designada tecnicamente por bócio nodular, ter um carcinoma (tumor maligno) da tiroide é de cerca de 5%.

Sinais a estão atento

A maioria dos nódulos da tiroide, mesmo os malignos, são assintomáticos. No entanto, existem alguns aspetos que, quando presentes, aumentam a probabilidade de estarmos perante uma lesão maligna. Saliento o crescimento progressivo, o surgimento de rouquidão, de falta de ar ou de dificuldade em deglutir, a pertença a uma família com vários casos de carcinoma da tiroide e o facto de ter havido exposição a radiações na infância.

Como é feito o diagnóstico?

A identificação de um nódulo da tiroide deve motivar sempre a procura de um médico. Os especialistas mais vocacionados para a abordagem diagnóstica e planeamento terapêutico destas situações são os endocrinologistas que, idealmente, devem estar inseridos em Unidades Multidisciplinares, de forma a oferecer uma resposta global e integrada para todas as situações. Mesmo no contexto da pandemia de COVID-19, é importante não adiar a consulta médica e a realização de exames. A generalidade das instituições de saúde já estão a retomar a actividade clínica programa e estão organizadas de forma a garantirem a segurança a todas as pessoas que a elas acorram.

A identificação dos nódulos que são malignos, constitui uma das prioridades da avaliação clínica de uma pessoa com doença nodular da tiroide. Com este objetivo, o exame médico com maior acuidade diagnóstica é a citologia aspirativa com agulha fina (CAAF). Trata-se de um exame muito simples, muito seguro e praticamente indolor. Permite, através de uma simples punção no pescoço, quase sempre realizada com controlo de imagem por  ecografia, a recolha de algumas células do nódulo para análise. No entanto, nem todas as pessoas com nódulos da tiroide têm indicação para a realização deste exame, que  só deve ser efetuado quando o risco de malignidade ou de lesão clinicamente relevante é considerado  significativo. Para a avaliação deste risco recorre-se à história clínica e observação médica rigorosas, à realização de exames laboratoriais e, de forma determinante, ao estudo do pescoço com recurso à ecografia, que idealmente deve ser realizado por um médico com experiência em doenças da tiroide.

Tratamento e vigilância

A indicação para a realização de cirurgia da tiroide, no contexto de bócio nodular é, em grande medida, determinada pelo resultado da CAAF. Quando o resultado é maligno a cirurgia é, em regra, o primeiro procedimento terapêutico. A sua extensão depende, em grande medida, do volume do nódulo, do tipo de tumor maligno e do estadiamento da  doença. Até há alguns anos,  todas as pessoas com carcinoma da tiroide eram submetidas a tiroidectomia total, ou seja, à remoção total da glândula tiroideia. O carcinoma da tiroide é, no entanto, uma doença que, na grande maioria dos casos, apresenta um excelente prognóstico. Por este motivo, atualmente é aceite que, nos casos considerados de menor  risco, só seja removida a metade da tiroide que contém o carcinoma, ou seja que só seja realizada uma hemitiroidectomia.

Quando o resultado da  CAAF é benigno, a maioria dos casos é elegível para vigilância. No entanto, pode colocar-se indicação cirúrgica quando a tiroide é muito volumosa, condicionando sintomas como pressão cervical, dificuldade em respirar ou deformação evidente do pescoço, com claro impacto estético.

A CAAF, como todos os exames, tem limitações. É possível que, mesmo tendo-se obtido material celular em quantidade e qualidade suficientes, este não permita afirmar  com segurança se o nódulo é benigno ou maligno. Dizemos, nestes casos, que a CAAF foi indeterminada. Neste contexto, quando, após uma avaliação global,  o risco de malignidade é considerado inaceitavelmente alto, pode colocar-se  indicação para cirurgia.

A cirurgia da tiroide, quando realizada por um cirurgião experiente nesta patologia, tem uma baixa probabilidade de complicações e, geralmente, não deixa sequelas significativas. Como as hormonas produzidas pela tiroide são essenciais à vida, a remoção da totalidade da glândula obriga a que seja feita terapêutica de substituição, com levotiroxina, para sempre.

Um artigo do médico endocrinologista António Garrão, Coordenador do Serviço de Endocrinologia do Hospital CUF Infante Santo.

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