Nos próximos 25 anos, vão, segundo um painel de especialistas, ocorrer «enormes mudanças» numa área central da nossa vida, a saúde. A educação, o ambiente, a economia, a qualidade dos serviços de saúde e as competências dos seus profissionais vão transformar- se e exigir que governo e sociedade civil trabalhem em equipa. A antevisão é do projeto «Health in Portugal: a Challenge for the Future?» que, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, mobilizou um conjunto excecional de personalidades nacionais e estrangeiras.

A ideia é contribuir «para a elaboração de um relatório sobre a arquitetura dos cuidados de saúde», explica Artur Santos Silva, presidente da instituição, entidade responsável pela iniciativa, no relatório «Um Futuro para a Saúde – Todos temos um papel a desempenhar ». Foi pedido que se encontrasse uma nova perspetiva para a saúde e se explicasse o que significaria na prática e o que teria de ser feito para que fosse concretizada.

O resultado, conta Nigel Crisp, presidente da comissão, é uma «visão simples, caracterizada pelo empoderamento dos cidadãos, pela participação ativa da sociedade e por uma procura contínua de qualidade, apelando a um novo pacto para a Saúde». Nele, políticos, cidadãos, enfermeiros, médicos, gestores (todos nós) são convidados a participar.

Só assim se poderá reduzir a prevalência de doenças crónicas e comprovar-se que maior qualidade e acesso às descobertas da ciência são sinónimo de melhoria dos serviços e redução da despesa. No texto adaptado que se segue, Lynne Archibald, membro de um dos grupos de trabalho do projeto, descreve um sistema de saúde exemplar. Obrigatório ler, para percebermos o que deve mudar, o que devemos esperar e como podemos contribuir.

Eu e o meu sistema de saúde ideal

«No meu sistema de saúde ideal, serei saudável desde o meu nascimento, seguro e tranquilo, até à minha morte com dignidade no final da vida e rodeado pela minha família. Terei muito poucos motivos para interagir diretamente com o próprio sistema de uma forma física, para além das medidas preventivas, como as vacinas ou os rastreios, e as doenças agudas intercorrentes, tais como as doenças inevitáveis ou os acidentes», refere o documento.

«Quando tiver de recorrer a um centro de saúde para cuidados de saúde proativos ou a um hospital para um tratamento urgente ou por razões de saúde graves, o meu problema será aí resolvido de forma profissional e humana, tão rapidamente quanto possível», pode ler-se ainda.

Segurança e ensino

«Os meus pais terão conhecimentos e recursos para me alimentar de forma saudável e eu terei acesso a parques infantis e a locais de recreio ao ar livre. A segurança será uma prioridade na minha escola e a minha segurança e saúde, em geral, estarão protegidas pelos requisitos legais em vigor, tais como as barreiras circundando os lagos, as cadeiras regulamentares para crianças nos automóveis, os capacetes para as actividades desportivas e a proibição de fumar em locais públicos», acreditam os especialistas.

«Quando for para a escola, a cantina servirá refeições saudáveis e a junk food não fará parte da minha vida. A minha escola terá um psicólogo que estará atento às crianças em risco e fará a coordenação com os serviços sociais e com o meu supervisor de saúde e, em casos extremos, com a polícia», defendem ainda os especialistas.

«O curriculum de todos os níveis escolares, do 1º ao 12º ano, incluirá matérias de saúde em todos os períodos e a maioria das escolas terá oradores convidados de organizações não-governamentais (ONG) para falar sobre diversas questões. O programa de educação física incluirá jogos de equipa regulares, mas estarão previstas atividades individuais», acredita a pool de profissionais do setor.

Veja na página seguinte: A figura do supervisor de saúde

A minha saúde

«Os meus pais levar-me-ão regularmente a consultar o meu supervisor de saúde (um especialista pediátrico até aos 18 anos) e, se necessário, o meu supervisor estabelecerá contacto com o médico de família dos meus pais. Receberei todas as vacinas na altura disponíveis. Os meus pais receberão mensagens a recordar-lhes as datas das minhas consultas», idealizam os autores do documento.

«Terei um registo de saúde na internet ao qual os meus pais terão acesso e eu também, quando for suficientemente crescido. Receberão e-mails com informação especialmente dedicada a mim, adaptada à minha classe etária e ao meu género e receberei diretamente, através do telemóvel, informações pertinentes e sobre os interesses específicos de saúde que eu tenha. Quando tiverem dúvidas, podem encontrar a maior parte da informação na internet, como também eu poderei», referem.

Quando for grande

«Como adulto, continuarei a receber lembretes úteis e novas informações por SMS e o meu registo na internet será transferido para o meu novo supervisor de saúde de adulto. No trabalho, receberei um bónus por não utilizar os meus dias de licença por doença. Irei de bicicleta para o trabalho a não ser que esteja mau tempo», idealizam os autores do documento.

As aspirações idealistas não se ficam, contudo, por aqui. «A minha empresa terá aulas de yoga antes e depois do trabalho e na vizinhança haverá muitos restaurantes com alimentos saudáveis e frescos ao almoço. Em todos os estabelecimentos de restauração haverá na ementa informação disponível sobre cada prato», pode ler-se ainda.

As minhas dúvidas

«Quando se puser uma questão específica sobre a minha saúde, enviarei uma mensagem para o telemóvel do meu supervisor de saúde (ou então um e-mail, no caso de ser algo que necessite de uma explicação mais extensa) e terei a resposta no mesmo dia. Poderão pedir-me que envie mais informações para diagnóstico através do meu telemóvel. Dar-me-ão então uma resposta que resolva o problema ou marcarão uma consulta com o supervisor ou com alguém mais capaz de resolver o meu problema no prazo de uma semana», lê-se ainda.

O centro de saúde

«No caso de uma marcação, chegarei a horas ao centro de saúde financiado e gerido pelo Estado, que terá parque automóvel, transportes públicos e acessos para cadeiras de rodas. Este espaço, situado na minha zona de residência, encarregar-se-á de todos os atos ambulatórios, incluindo vacinas, rastreios, cuidados pré-natais e exames de diagnóstico, incluindo os exames imagiológicos», enumeram os autores do relatório.

Na visão destes especialistas, o centro de saúde empregará toda uma série de profissionais de cuidados de saúde, incluindo profissionais da área de enfermagem, parteiras, optometristas, psicólogos, nutricionistas, técnicos de laboratório, dentistas, oftalmologistas, pediatras, ginecologistas, médicos de família e de clínica geral. «Tratar-me-ão com respeito e sensibilidade. Sempre cheios de sorrisos», sublinham.

«Uma das razões porque sorrirão é porque serão bem pagos e muito respeitados. O centro servirá suficientes doentes para se tornar financeiramente viável, mas não mais do que isso, de forma a que se possam desenvolver relações pessoais. O centro não será luxuoso mas terá recursos suficientes para garantir que os doentes sejam bem tratados. Arranjar um emprego nos centros de saúde será difícil, devido aos salários elevados, ao excelente ambiente de trabalho e às relações que mantém com os doentes», lê-se ainda.

Veja na página seguinte: Como o voluntariado pode mudar a nossa saúde

Voluntariado

«Participarei na direção deste serviço como representante não profissional voluntário. A direção reunirá uma vez por trimestre e tomará decisões sobre as questões referentes a problemas locais, recursos humanos e orçamentos. Também participarei como voluntário uma vez por mês no programa de idosos, que estabelece contactos entre voluntários e utentes idosos do centro com problemas de mobilidade», defendem os autores do texto.

«Este programa será gerido em conjunto com uma ONG nacional. O centro abrirá cedo duas manhãs por semana e ficará aberto até tarde duas noites por semana, para encorajar a utilização dos serviços preventivos, especialmente dos serviços de planeamento familiar, por parte dos adultos trabalhadores. Os jovens a partir dos 12 anos poderão vir sozinhos se assim o quiserem», defendem os especialistas.

Serviços articulados

«No caso de uma emergência, contactarei o meu supervisor de saúde por telemóvel para que saiba o que está a acontecer e onde me dirijo para ajuda de emergência. Quando chegar ao hospital, este estabelecimento terá acesso aos meus registos de saúde e ao meu supervisor de saúde. Terei de esperar, pois situações de risco de vida terão sempre prioridade», descrevem.

«Se o meu problema puder ser resolvido no momento (pontos, gesso), esperarei ter alta nesse dia e terei em seguida uma consulta de cuidados de saúde que será logo marcada com o meu supervisor no centro de saúde. Se necessitar de uma cirurgia de emergência, é natural que seja internado», contempla ainda o relatório.

Eu e o meu supervisor de saúde

«Dados os hábitos de saúde da minha mãe enquanto estava grávida de mim e o meu estilo de vida saudável desde muito nova, espero não ter nunca uma doença crónica ou uma doença grave. Se isso acontecer, gostaria de ser um parceiro ativo no meu próprio tratamento e fazê-lo tanto quanto possível como doente externo, realizando a base do meu tratamento através da autogestão dos cuidados de saúde», defendem os autores do documento.

«O meu supervisor de saúde deverá ser um especialista na minha doença e assim, embora eu permaneça ligado ao meu centro de saúde, a maior parte da minha interação será através do meu coordenador de doença crónica/doença grave», pode ainda ler-se.

Mais eficiência

«À semelhança de uma visita ao balcão Carteira Perdida da Loja do Cidadão, ninguém quer ter necessidade de cuidados de saúde, mas darei valor a este excelente serviço quando precisar dele! De uma forma geral, o sistema de cuidados de saúde funcionará como pano de fundo da nossa vida, e apenas recorrerei a ele quando verdadeiramente for necessário e, então, a experiência será agradável e eficiente», acredita a pool de especialistas.

Texto: Catarina Caldeira Baguinho e Nazaré Tocha

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