A aiurveda, uma das formas mais antigas de medicina holística, baseada na crença de que o corpo, a mente e o espírito devem ser mantidos em equilíbrio para uma saúde ótima, indica quais os ingredientes de que não deve prescindir. Manter a sua digestão a funcionar, dizer não a refeições processadas e preferir comida natural e caseira, de acordo com a sua constituição pessoal, tendo em conta as mudanças no ambiente à sua volta, muitas vezes é só o que precisa para encontrar o seu equilíbrio. O que já não é pouco!

Segundo a filosofia aiurveda, a digestão é mais importante que a nutrição e a recomendação é que os alimentos mantenham o equilíbrio constante dos doshas no corpo, sendo vistos como medicamentos. Numa culinária aiurvédica, o fundamental é uma cozinha simples e eficaz, acrescentando determinados temperos, apelidados de antídotos.

Além disso, as dietas são sempre modificadas de acordo com as estações do ano, o clima do dia e o momento da refeição. A Associação Portuguesa de Ayurveda salienta ainda que «o principal objetivo do aiurveda é aumentar o fogo digestivo ou seja a digestibilidade de cada pessoa», sendo necessário muitas vezes uma análise.

Torne as suas refeições mais felizes

A forma como comemos tem efeito na forma como nos sentimos. Assim, na dieta aiurvédica uma refeição feliz será colorida, fácil de digerir, preparada com amor e atenção. Terá o efeito de o fazer sentir mais leve, com mais energia e feliz. Em conversa com a Saber Viver, Wayne Featherstone, chef e autor do livro «Happy, Hyper or Heavy? Which Food Makes You Happy», assume que o seu interesse em aiurveda começou em 1995.

Surgiu quando entrou em contacto com a organização humanitária internacional Art of Living, que tem como missão contribuir mundialmente para uma sociedade livre de stresse e violência. «Ao longo dos anos aprendi que o que comemos tem um enorme impacto nos nossos níveis de stresse e no nosso bem-estar. O meu primeiro encontro com aiurveda foi quando tive uma consulta com um dos médicos de aiurveda da AOL», revela.

«Era uma médica de terceira geração vaidya (médico aiurvédico) e foi muito certeira no seu diagnóstico e muito clara do que devia fazer para voltar ao meu equilíbrio natural. Catorze meses de sensações abrasadoras em todo o meu corpo, foram erradicadas em três meses. Um tratamento com base na raiz e não no sintoma, impressionou-me. Isto e o facto de ter gostado tanto de comida vegetariana fez-me mudar de um chef normal, para me especializar em aiurvédica», prossegue.

A verdade é que depois de ter completado a sua formação em gastronomia ocidental tradicional e de ter trabalhado como chef na Holanda e França, Wayne Featherstone desenvolveu uma paixão pela culinária aiurveda e, desde então, estudou na Índia, no Canadá e na Holanda, tendo ainda viajado pela Europa e Caraíbas, onde tem dado formação de culinária aiurveda e palestras desde 2006. Para o chef, «a aiurveda mostra-nos como criar um estilo de vida equilibrado. Ajuda-nos a compreender a relação com o ambiente em que vivemos», diz.

«O princípio básico de que o mundo consiste nos cinco elementos, assim como nós e a comida que ingerimos, oferece uma ideia clara de como cozinhar de uma forma aiurvédica. É uma abordagem holística que observa o nosso ser e funcionamento como um todo. A nível mental, físico e emocional, dentro do contexto do ambiente (quente, húmido, seco, as estações, emprego, situação doméstica, etc.), a comida que escolhemos pode corresponder à nossa constituição pessoal ou não, mas se não corresponder cria desequilíbrios. A Aiurveda ajuda a evitar que isto aconteça», diz.

Os cinco elementos a ter em conta

Tudo é criado com espaço, ar, fogo, água e terra. A partir do momento que tiver conhecimento das proporções naturais na sua constituição pessoal, então começará a compreender quais os alimentos que o ajudam a atingir um maior equilíbrio. Seguindo as explicações do chef Wayne Featherstone, «talvez se veja como uma pessoa mais destemida, apaixonada, com uma personalidade forte, empreendedora e esperta».

«Para equilibrar o elemento mais visível que é o fogo, precisa de frio. Sombra ou uma brisa refrescante. Quando se trata de comida, alimentos como coentros, coco ou gelado podem ser benéficos. Especiarias como sementes de mostarda, gengibre e malaguetas aumentarão o fogo, criando desequilíbrio no sistema. Ou é mais do tipo aéreo? Muda de emprego, de interesses, de relações ou de local com frequência?», questiona.

«Todas estas características estão ligadas ao elemento do ar e, para equilibrar estas propriedades, deveria pensar em comida oleosa, quente, suave. Poderia ser uma sopa com ghee ou uma massagem ao corpo com óleo. E, depois, existe a energia mais calma, estável. Não se deixa perturbar, nem se zanga com facilidade. O discurso é sempre calmo e às vezes até com uma voz um pouco monótona. A utilização de especiarias, ambientes e atividade estimulantes são positivas para um equilíbrio», diz ainda.

O equilíbrio é (mesmo) tudo

A partir do momento que consegue perceber qual a sua constituição pessoal e se é mais vata, kapha ou pitta, o ideal é procurar uma alimentação que seja compatível consigo. Segundo Wayne Featherstone, «se teve predominância de fogo, então deverá ingerir comida com qualidades refrescantes. Demasiado calor provocará desequilíbrios, tais como irritabilidade, vermelhidão na pele, sensações de ardor».

«Demasiado ar pode resultar num fluxo contínuo de pensamentos, mãos frias, obstipação ou ansiedade. Demasiada estabilidade e a energia lenta de Kapha pode resultar em teimosia e um sentimento de imobilidade», acrescenta ainda. O que, sem dúvida, mostra a importância de nos alimentarmos de acordo com o nosso organismo.

5 alimentos que deve ter na despensa

1. Curcuma

Possui propriedades antibacterianas. Oferece uma cor festiva a pratos, como arroz. Tem sido usado na medicina chinesa desde sempre para reduzir a inflamação e a dor.  O seu ingrediente ativo principal é a curcumina, que está entre as ervas mais estudadas atualmente, devido às suas propriedades anti-inflamatórias e anticancerígenas. Pode acrescentar curcuma em chás, em molhos, polvilhar nas sopas ou em água. Juntando ao chá ou leite pode sempre adoçar com mel.

2. Gengibre

Oferece calor ao corpo e é bom a fazer frente a constipações, melhora o fogo digestivo e acrescenta um forte sabor aos cozinhados. É sempre melhor escolher gengibre fresco. Ao ter uma ação de calor o gengibre ajuda a melhorar a circulação, digestão e melhora a assimilação de nutrientes. Pode fazer um simples chá, fervendo a água, colocando rodelas de gengibre fresco e deixando ferver por 10 minutos. Escorra e beba.

3. Ghee

Também conhecido como manteiga clarificada, o ghee é a gordura derivada do leite após total remoção da água e das suas partes sólidas e tem muitos benefícios, não contendo sal, nem lactose. É positiva para equilibrar vata, mas kapha deve utilizar com moderação. Pode ser utilizada como substituto da manteiga e dos óleos, pois pode ser aquecida a temperaturas sem alterar as suas propriedades. Pode ainda aromatizar o ghee acrescentando especiarias como cominhos, cardamomo ou gengibre.

4. Pimenta preta

Uma especiaria quente, indicada para pessoas de natureza kapha e para queimar toxinas, sendo uma especiaria que estimula o agni (fogo digestivo) e o metabolismo. É um poderoso antioxidante, com propriedades antibacterianas que contém nutrientes como manganésio, potássio, vitamina C e K. Pode ajudar ainda na circulação sanguínea e no combate à exaustão. A piperina é o alcalóide principal da pimenta preta. Tem mostrado aumentar substancialmente a biodisponibilidade dos nutrientes em alimentos e suplementos.

5. Massala

De acordo com a dieta aiuvérdica, um dos segredos para inibir o apetite é juntar os sabores doce, salgado, amargo, ácido, adstringente e picante numa única refeição. Em conjunto, ajudam a digestão e a queima de gorduras. Uma forma de garantir a presença de todos estes sabores é a massala, um conjunto de especiarias, podendo temperar sopas, legumes e até iogurte.

Algumas substituições que pode fazer

A nutrição aiurvédica, baseada numa ciência indiana de mais de 5.000 anos, equilibra o corpo com a alimentação. Modifique a sua alimentação segundo a aiurveda fazendo algumas substituições:

- Farinha branca refinada

Substitua-a por farinha integral, pão sem açúcar e óleo.

- Bebidas geladas

Substitua-as por bebidas de temperatura ambiente ou mornas para ajudar o corpo a poupar a energia que despenderia para se reaquecer.

- Gelatina comum

Em vez de usar a comum, feita a partir de produtos de origem animal, substitua-a por gelatina feita com agar-agar, que é rica em sais minerais e vitaminas.

- Manteiga e margarina

Substitua por ghee, manteiga clarificada indiana, para reforçar o sistema imunológico e melhorar o metabolismo.

- Temperos processados

Substitua-os por masalas (misturas de especiarias) e especiarias naturais, que estimulam a digestão.

- Carne vermelha

Substitua-a por peixes, que facilitam a digestão.

- Açúcar refinado

Substitua-o por açúcar mascavado ou mel silvestre.

Relógio biológico versus doshas

A partir do momento em que o nosso relógio biológico é regulado pelos doshas é importante reter que a altura de atividade máxima do kapha é durante a manhã cedo e a noite cedo (entre as 6h00 e as 10h00 e entre as 18h00 e as 22h00). O período pitta surge durante o meio da manhã e o início da tarde e o meio da noite (entre as 10h00 e as 14h00 e das 22h00 às 2h00). As horas vata correspondem à madrugada e o anoitecer (entree as 2h00 e as 6h00 e entre as 14h00 e as 18h00).

Texto: Ana Ferreira

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