Há quem aparente desafiar as leis da física quando, de forma prática, nada faça de sobrenatural resignando-se à normalidade que habita o mundo. Esse sempre foi o cerne do ilusionismo, com o objectivo bem vincado de entreter o público, iludindo-o de que algo de transcendente aconteceu. Durante alguns minutos, somos coniventes com a farsa e tornamo-nos parte activa do engano. Escolhemos uma carta, vemos o naipe, rubricamos outra e vemo-nos inseridos naquilo que seremos enganados no fim. É um desafio aos sentidos do qual saímos sempre a perder.

Portugal tem um dos melhores ilusionistas do mundo e o Estado não se cansa de mostrar que é aficionado da manigância, mesmo não sendo um especialista na arte performativa. No fundo, a postura da nação acaba por ser quase um paralelismo à vida sexual do meu avô: lá por ter deixado de tourear, não quer dizer que não se mantenha um apaixonado pela arte.

Se julgavam que a ilusão já estava a ser difícil de compreender, a Ministra da Cultura ainda sublinhou que existe a informação de obras por localizar desde os anos 90

O país está a dar os primeiros passos na magia e ninguém tem feito muito caso disso. A Ministra da Cultura concluiu, esta semana, que existem 94 obras de arte do Estado português desaparecidas. Sem querer, o Estado entrou no ilusionismo e já está a brincar na piscina dos grandes, com um truque de fazer corar o David Copperfield. Quanto maior e mais complicado o número, maior será o espanto e a ilusão do público e o Estado empenhou-se em levar à letra esta premissa.

Eu vou repetir, para os mais distraídos: desapareceram 94 obras de arte do Estado português. Só estou a reforçar a ideia, tal e qual faria um bom Luís de Matos, “tem a certeza que é mesmo esta carta que quer?”.

Ao que parece, o relatório da Direcção-Geral do Património Cultural vai ser remetido à Procuradoria-Geral da República para se “desenvolverem as diligências”. No fundo, isto é aquela expressão equivalente a um “quando eu estalar os dedos, a sua carta vai aparecer aqui em cima do baralho”. Ou achavam que era só um palavreado caro de quem tenta ganhar tempo e não faz ideia nenhuma do que aconteceu, muito menos de como resolver o berbicacho?

Todo e qualquer bom truque, tem uma reviravolta a meio. Se julgavam que a ilusão já estava a ser difícil de compreender, a Ministra da Cultura ainda sublinhou que existe a informação de obras por localizar desde os anos 90. Agora sim, sinto que desafiaram as leis da física. Que culpa tenho eu de ser um adepto fervoroso de truques de magia como o de Tancos? É que não é propriamente o desaparecimento que me atrai, mas sim toda a encenação até ao aparecimento. Fascina-me, o que é que querem? E este fascínio já não é de agora. Tenho informações por parte dos meus pais que desde os anos 90 que casos como este me seduzem.

Não sei como é que vão tentar reaver as obras de arte, mas não podia estar mais curioso. Não sei se vão passar a mão por cima de um quadro d’ “O Menino da Lágrima” e fazem aparecer uma obra de Júlio Pomar, não sei. Sei é que está tudo focado em encontrar quando, até o pior aldrabão, sabe que o mais difícil é esconder.

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