Quando me sento, fico com a clara ideia de que há inúmeras coisas que podem advir daí, do acto simples de sentar. No senso comum impera a ideia de que levantar é que envolve esforço. Uma ideia correcta, quanto a mim. Todos aqueles ATP’s aliados a uma contracção muscular vigorosa, só de pensar, cansam-me. Sentar é confortável e é esse conforto que procura quem escreve, quem pensa, quem adormece pensando. Poucos são os que criam de pé, sem em altura nenhuma do processo reunir as ideias, sentando-se.

Quando estou em pé durante muito tempo e sou abordado por alguém – exactamente a meio do processo em que as minhas pernas, acéfalas até então, ganham a vontade própria de uma criança ingénua e teimam em envergonhar-me – os primeiros cinco minutos são do interlocutor. Oiço tudo até ao ínfimo pormenor. Empenho-me, caramba. Juro que me empenho. Em todos os detalhes, até. Talvez por saber o que aí vem. Aos cinco minutos e um milésimo de segundo (milésimo, note-se!), penso em tudo para lá do pólo oposto à conversa, enquanto o meu cérebro entra, confortavelmente, em modo automático. “Sim”, “pois”, “claro” , “está bem”, apoderam-se do meu discurso e prorrogam a conversa durante mais dez morosos minutos. Enquanto isso estou, aparentemente de forma inconsciente, a analisar tudo o que se passa à minha volta. Mas no fim lembro-me de tudo.

Uma senhora de chapéu roxo e saia verde? No inverno? Uma criança com um carro dos bombeiros, em marcha de urgência pelas paredes do hospital, quando subitamente voa como um avião apressado. Também eu já fui assim. Sorrio.

– Estás a rir-te de quê? – pergunta o interlocutor em sobressalto.

– Nada. Acho que tens razão no que dizes. – Como se isso fizesse sequer sentido. Mas passou.

Um homem com a barba mal feita e com um tique no olho direito. Parecia que tentava conquistar toda a gente com quem se cruzava. Inclusivé a senhora de chapéu roxo e saia verde. Era engraçado se acabassem juntos, pensei eu. Sorrio.

– Estás a rir-te de quê?

– Disso.

– Realmente é uma situação caricata.

Mergulho novamente no mar das sensações que me rodeia e absorvo tudo. Penso em motas e em carros. Penso na minha namorada. Penso em tudo que tenha a capacidade de me tirar dali. Seja em velocidade, seja com um olhar.

– Ficamos assim, então? – remata o João depois dos meus 35 “sins”, 44 “claros” e 38 “está bem”. Que eu tenha contado. Se ele tivesse estado com mais atenção à conversa, cada um tinha três dígitos.

– Olha João, se calhar é melhor falarmos depois. Com mais calma. Almoçamos amanhã?

– Se calhar tens razão. Fica assim combinado. – responde, aconchegado, o João.

Almoçar é uma das inúmeras coisas que faço quando me sento. Poucos são os que criam de pé, sem em altura nenhuma do processo reunir as ideias, sentando-se. O João, se lesse este texto, perceberia o que quero dizer. É que sentar é confortável. E é esse conforto que procura quem escreve. Quem pensa. Quem adormece pensando.

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