Dei comigo a meditar no tempo que passamos por dia a pensar. Sem me perder muito na matemática, arrisco nuns 50% no sexo masculino e nuns modestos 110 % no sexo feminino. Os homens conseguem estar muito tempo sem pensar em nada, o que assusta o sexo oposto. Pedem-nos sinceridade e quando assumimos uma ausência total de pensamento, somos interpelados com um "não estás a pensar em nada? Como é que isso é possível? Tens de estar a pensar em alguma coisa!" acabando, indubitavelmente, num "estás diferente!". Não pensar em nada pode arranjar alguns problemas, é certo, mas dá-nos a capacidade de não pensarmos neles, resolvendo-os de imediato. Não pensar resolve mais adversidades do que pensar demasiado. Mas convenhamos que uma ausência de pensamento é sempre mais difícil do que pensar muito, porque o pensamento pode sempre ser treinado. Ter a mente momentaneamente oca, com um olhar no vazio e a respirar à custa das funções vitais é uma arte. Quase como se os maiores artistas tivessem a sorte de ser lobotomizados in útero, adquirindo a capacidade de passar pela vida levando sempre a melhor.

É uma sorte não nos apercebermos de que deixámos de pensar, de outra forma questionarmo-nos-íamos e isso reactivaria de imediato uma cascata de ideias, anulando todo o processo.

Começamos a escrever mal porque já pensamos com erros e o pensamento não fica rasurado a vermelho, como no Word

Esta falta de exercício mental, diminui a plasticidade cerebral e compromete o raciocínio. Ficamos lentos e damos cada vez mais sinais de que somos ainda mais do sexo masculino do que aparentávamos inicialmente.

Ser do género masculino é um factor de risco hereditário porque, tradicionalmente, tudo indica que já o pai era do género masculino, o avô e o bisavô idem aspas. É genético e já se nota na infância. Começamos a escrever mal porque já pensamos com erros e o pensamento não fica rasurado a vermelho, como no Word. "Desta vez, estudei muito e vou paçar à disciplina de português", dizia o Renato, de 6 anos, sabendo nós, de antemão, que o chumbo seria inevitável. O crescimento encarrega-se de agudizar o problema e de perpetuar os erros, procurando a salvação na mitologia grega, quando usamos a expressão "Hades cá vir!", numa clara alusão ao deus do mundo inferior e dos mortos, porque para lá caminhamos.

Começamos desenfreadamente a sentir pena da letra "s" e fazemos por incluí-la em todas as palavras que conseguirmos. O "prontos" entra em competição com o ponto final, substituindo-o em todas as frases. De forma egoísta, proferimos a expressão "uns quaisqueres", na eventualidade de alguém responder "Eu? Não quero nenhum, obrigado!". Tornamo-nos preguiçosos e juntamos um "já tinha ouvido" com um "já tinha visto" num simples "já tinha ouvisto".

Ter a capacidade de nos ausentarmos de ideias é uma mais-valia que não é vista como tal e que dificulta a inserção social do homem. Foi por isso que Deus nos deu a capacidade de pasmar, que é o mesmo que não pensar em nada mas com o extra de ser feito de boca aberta. É quase como um último apelo de Deus para nos limitar a ausência do mundo real, obrigando-nos a pensar quando a baba nos toca numa extremidade.

Pasmar foi uma excelente ideia que Deus teve para o homem. É que, na teoria, Deus nem sequer tem género e, talvez por isso, é que ainda vai tendo tempo de pensar nestas coisas.

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