HealthNews (HN) – O que é que se pretende com o Fórum Saúde Global – O Impacto na Saúde Pública? Quais são os principais objetivos?

Filomena Pereira (FP) – Um dos objetivos é chamar a atenção para as alterações climáticas e o que elas podem provocar a nível da saúde, nomeadamente a nível da saúde dos humanos, saúde dos animais e, também, a nível do ambiente – ou seja, o que podem fazer a nível daquilo que hoje em dia chamamos one health, que é a interação entre todas estas situações. Esse é o objetivo principal. O segundo objetivo é informar profissionais de saúde sobre a probabilidade de as doenças transmitidas por vetores, com as alterações climáticas, atingirem os nossos países, e o problema que eles são nos países tropicais, que são nomeadamente países de baixo e médio rendimento. Por outro lado, discutir, eventualmente, o que é que nós podemos fazer e o que é que estamos a fazer neste momento para prevenir tudo isto.

HN – Este é um tema cada vez mais debatido, até porque enfrentámos recentemente a pandemia Covid-19. Foi fácil escolher os temas? São os temas centrais de momento?

FP – Nós, realmente, teremos sempre imensa coisa para falar, mas convém ir falando aos poucos. Nesta conferência, queremos primeiro chamar a atenção, embora saibamos que as instituições já têm isso em mente e já está nas suas agendas; discutir isto tudo um pouco e chamar também para a discussão pessoas que eventualmente possam não estar tão atentas e que são necessárias no combate que vai ser preciso para impedir ou, pelo menos, tentar prevenir que haja tantos problemas associados a doenças com as alterações climáticas. Nomeou muito bem a covid-19. Nós não estávamos de todo preparados. Estas situações provavelmente não vão ser todas evitáveis, mas, se nos prepararmos, podemos reduzir o seu impacto.

HN – Qual é o papel do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa no trabalho que deve ser feito em Portugal?

FP – A missão do Instituto, desde sempre, é fazer formação, investigação e trabalho na comunidade, de cooperação. Trabalho esse que é essencialmente com os países tropicais, nomeadamente de língua portuguesa. Neste sentido, todas estas doenças que são frequentes nestes países são missão do Instituto: fazer investigação nas mesmas, formar recursos humanos para que as possam combater e prestar um serviço à comunidade. Por outro lado, ao fazermos isto e ao contribuirmos com a experiência que já temos deste trabalho todo com estes países, podermos, eventualmente, ajudar no continente europeu, mais particularmente em Portugal, a diminuir o impacto colaborando com as autoridades numa área em que temos imensa expertise, enquanto na Europa não se trabalha, normalmente, com todos estes tipos de infeções. Posso dizer-lhe, por exemplo, que estivemos na Guiné, num projeto que não só tentou ajudar a implementar um plano para os recursos humanos, mas também custos de saúde pública, custos de administração hospitalar, para estes países poderem na rotina diária reduzir o impacto de doenças e, em epidemias, reduzirmos todos os malefícios que essas infeções ou doenças possam causar.

HN – Quais são os grandes desafios que temos que enfrentar a curto-médio prazo?

FP – Um dos grandes desafios são, sem dúvida, as alterações climáticas, que vão ter repercussões a todo o nível: a nível da água, a nível sanitário, a nível das chuvas torrenciais que depois provocam problemas sanitários, provocam doenças, provocam infeções, a nível de pandemias como a covid-19 que se vão refletir na diminuição do trabalho das pessoas, em efeitos psicológicos, etc. Portanto, neste momento, as alterações climáticas, que podem provocar todas estas coisas, devem ser uma prioridade a nível mundial. E por isso estamos a falar delas. Não é só por causarem mais infeções; são todos os outros problemas que vêm atrás, como já se viu na covid, e que poderá acontecer com outras infeções.

A desflorestação, que causa tantas alterações climáticas, é uma das coisas que, eventualmente, temos que começar a pensar como é que podemos diminuir, porque os efeitos são extremamente perniciosos para a saúde das populações.

HN/RA

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