Num país “campeão do recurso aos serviços de urgência”, médicos dirigentes de hospitais do SNS estiveram hoje na Convenção Nacional da Saúde a debater medidas para “um serviço de urgência mais eficiente”, havendo quem defenda mesmo que os utentes paguem pelos serviços quando os usam de modo indevido.

O diretor de cuidados intensivos e emergência do Centro Hospitalar do Porto defende a equipas fixas nas urgências e a criação da especialidade de medicina de urgência/emergência.

António Marques considera que é importante que os “médicos vistam a camisola” pelo seu serviço de urgência, defendendo equipas dedicadas ou fixas, dando “sustentabilidade e diferenciação a essas equipas”.

“Essa especialização implica uma especialidade em medicina de urgência e emergência”, que Portugal ainda não tem, sendo dos poucos países da Europa sem esta especialidade.

O diretor de anestesiologia e emergência do Centro Hospitalar do Porto acredita que a especialidade será uma mais valia para “zelar pelo bom funcionamento do serviço de urgência”.

Também o diretor do serviço de urgência do Hospital de Braga, Jorge Teixeira, entende como essencial a criação da especialidade em medicina de urgência e emergência em Portugal, destacando que é estranho que Portugal seja um país campeão do recurso às urgências, mas é um dos quatro países europeus sem esta especialidade médica.

O hospital de Braga já tem um modelo implementado de equipas fixas ou dedicadas às urgências, com 34 profissionais, sendo quase metade dos que seriam necessários, segundo Jorge Teixeira.

Para os vários especialistas, é ainda fundamental a reorientação dos doentes que não são verdadeiramente emergentes para outros serviços, como os cuidados de saúde primários.

No Hospital Santa Maria Maior, em Barcelos, já se utiliza na urgência um sistema onde é explicado aos doentes pouco ou nada urgentes que podem e devem ser vistos noutro nível de cuidados, como os centros de saúde.

“Já tivemos 900 doentes a quem foi explicado, na triagem, que o sítio para estar não é aquele. Ninguém os atira fora e ninguém os obriga a ir embora. Mas asseguramos que os cuidados de saúde primários os atende no próprio dia”, explicou Rui Guimarães, diretor do Hospital de Barcelos, também no debate da Convenção Nacional da Saúde.

Para este médico, “as pessoas abusam da urgência” e acabam mesmo por ser “pouco solidários” ao não desistirem de estar num serviço do qual não precisam e onde “há pessoas que são realmente casos urgentes”.

“Estas pessoas acabam por se enganar a si próprias, porque pensam que a urgência é o melhor sítio para resolver o problema, quando não é”, argumentou.

Também os profissionais de saúde têm uma responsabilidade na dimensão que ganhou o serviço de urgência, considerou Rui Guimarães, lembrando que a maioria dos profissionais “ganha mal” e habituou-se a “fazer das horas extra” o complemento da sua remuneração.

Os especialistas que debateram o serviço de urgência hoje na Convenção da Saúde concordaram ainda que a cobertura total de médicos de família não é suficiente para evitar o recurso desnecessário ao serviço de urgência.

O diretor do serviço de urgência do Hospital de Braga referiu, por exemplo, que Braga tem “100% de cobertura de médicos de família” e tem uma forte pressão sobre as urgências.

Numa tentativa de resumo, António Marques, dirigente do Centro Hospitalar Universitário do Porto, disse que é essencial “centrar o sistema de saúde nos cuidados de saúde primários e não nos hospitais”.

Além disso, é favorável a que se condicione “o uso indevido” às urgências, considerando mesmo que quem usa mal os serviços deve pagar por eles.

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