“Setenta por cento das nossas utentes são imigrantes, uma grande fatia destas estão em situação irregular no país, e é muito difícil terem acesso a cuidados básicos de saúde regulares, até porque têm de pagar todos os atos médicos, que são bastante caros”, disse à agência Lusa a diretora técnica da ‘Ergue-te’, Marta Neves.

Para superar estas dificuldades, a equipa tem estabelecido protocolos de parceria com centros de saúde e o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e “a integração tem estado a decorrer com bastante sucesso”.

“O que acontece é que há imensos atos médicos que não conseguimos fazer e não conseguimos encontrar financiamento”, disse Marta Neves, dando como exemplo as análises clínicas e as próteses dentárias.

“Por umas simples análises têm de pagar entre 150 a 200 euros, uma vez por ano”, elucidou.

Mas são exames muito importantes, tendo em conta o risco muito elevado de saúde e de saúde pública desta população: há situações de “VIH, de infeções sexualmente transmissíveis (IST), pneumonia e tuberculose, que temos tido vários casos”.

Há também muitas mulheres com problemas de saúde oral. Para atender a estes casos, a ‘Ergue-te’ estabeleceu parcerias com clínicas e o Bloco de Celas de Medicina Dentária.

“Os tratamentos estão a ser feitos, mas depois não temos possibilidade de comparticipar as próteses dentárias”, lamentou.

Para conseguir o financiamento para as análises clínicas e as próteses dentárias, a equipa da Fundação Madre Sacramento das Irmãs Adoradoras candidatou-se ao prémio BPI Solidário e foi distinguida.

“É fantástico porque são cerca de 31 mil euros, divididos por três anos, e vai ao encontro desta necessidade muito concreta”, disse Marta Neves.

A responsável sublinhou que o projeto tem um protocolo de colaboração com a Segurança Social, que financia 60% das atividades, sendo as restantes apoiadas pelos prémios, que a equipa vai arredondando.

“Por mais que haja criatividade, parceiros, vontades e sinergias na comunidade, há situações muito concretas” às quais a equipa não consegue fazer face.

Por ano, a equipa acompanha cerca de 300 pessoas. “Se for possível apoiar 30 mulheres com análises clínicas e dez com próteses dentárias, já e muito bom”.

“Temos de ir com calma, porque há muitas desistências”, as pessoas circulam muito e “há muitas situações associadas ao tráfico” de seres humanos, explicou Marta Neves.

A ideia é começar com um projeto-piloto junto destas mulheres e posteriormente alargá-lo a toda a população que a equipa acompanha no distrito de Coimbra.

A ‘Ergue-te’ foi criada em dezembro de 2009, com a missão de promover a dignificação e a inserção social e laboral da mulher em contexto de prostituição, promovendo um novo projeto de vida.

Falando sobre o projeto, Marta Neves disse que “são mais as histórias difíceis do que as histórias de sucesso”.

“As situações mais complicadas são as mortes”, disse a psicóloga, contando que “várias pessoas” que acompanhou “muito proximamente, faleceram em situações horrorosas”.

É “muito complicado” lidar com estas situações. Por isso, “entendemos isto não como um trabalho, mas como uma missão de vida”.

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'Ergue-te' ajuda mulheres a saírem da prostituição

Ajudar mulheres a saírem da prostituição é a missão da Fundação Madre Sacramento das irmãs Adoradoras, que vai ao seu encontro nas ruas, matas e nos bares onde se prostituem, em Coimbra, e as convida a mudar de vida.

Para promover esse encontro, a fundação criou, em dezembro de 2009, a equipa de intervenção social 'Ergue-te', que já contactou 1.500 mulheres em contexto de prostituição, na região de Coimbra, e conseguiu que 15 alterassem o seu percurso de vida.

“Entendemos que uma pessoa que está em contexto de prostituição não o faz por opção, e que esta atividade não promove a dignidade pessoal” e, por isso, “propomos em alternativa o abandono do contexto e a integração no mercado laboral”, disse à agência Lusa a diretora técnica do projeto, Marta Neves.

Com o apoio de uma unidade móvel, a equipa desloca-se todas as semanas aos locais conotados com a prática de prostituição.

“Vamos às ruas, às matas, às estradas nacionais, aos bares de alterne, aos apartamentos, às pensões divulgar os nossos serviços, conhecer as pessoas e procurar estabelecer uma relação de confiança”, contou Marta Neves, que falava à Lusa, a propósito da atribuição do prémio BPI Solidário ao projeto.

Nesse encontro, “oferecemos um chá, uns bolinhos, conversamos e procuramos que as pessoas venham ao nosso gabinete”, onde é prestado apoio de saúde, social, psicológico e jurídico, e são delineados planos de acompanhamento para as utentes.

A equipa é sempre “muito bem recebida” e um terço das mulheres acaba por procurar o gabinete de atendimento social, localizado na avenida Fernão Magalhães, em Coimbra.

“Das 1.500 que contactámos, 500 vieram abrir processo”, disse Marta Neves, considerando este número “fantástico, tendo em conta o preconceito social e os estereótipos” que existem sobre estas mulheres.

Segundo a psicóloga, há “dois grandes motivos” que impedem que mais mulheres recorram ao serviço.

Um deles deve-se ao facto de muitas mulheres serem estrangeiras e estarem associadas a proxenetas ou a redes que não lhe dão “liberdade de movimentos”.

O segundo motivo prende-se com as dificuldades económicas: “A maior parte das portuguesas que apoiamos são casos sociais, prostituem-se maioritariamente nas ruas e nas matas, têm muito pouco rendimento e deslocarem-se a Coimbra implica pagar um autocarro ou um comboio e acabam por não vir”, explicou a responsável.

Desde o início do projeto, 15 mulheres conseguiram mudar de vida, mas, entretanto, houve duas que regrediram, “uma situação que infelizmente às vezes acontece”.

“O contexto de vida de prostituição é muito negativo e é vivido com muita angústia e sofrimento”, mas é uma vida que as mulheres conhecem e a que acabam por voltar, quando a rede social falha e precisam de obter dinheiro.

Apesar dos casos de sucesso ainda serem poucos, a equipa, formada por uma psicóloga, uma assistente social, voluntários e as irmãs Adoradoras, considera que tem sido um movimento bastante bom”.

“É um trabalho muito grande, quer nosso, quer delas”, disse Marta Neves.

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