A pandemia de coronavírus, chegada à Europa no início do ano, veio ocupar abruptamente o centro das nossas vidas. E, depois de um doloroso período de adaptação, temos vindo a perceber gradualmente a extensão dos danos, para além dos efeitos diretos da mortalidade e das possíveis sequelas tardias nas pessoas infetadas: o terrível impacto económico, com ondas de choque sociais, o efeito na educação, e o grande impacto na saúde, não só a nível psíquico, mas também nas outras doenças, devido à cortina de fumo que a pandemia abateu sobre nós.

O facto de a nossa atenção estar tão centrada na pandemia não nos deve impedir de estar atentos a manifestações de outras doenças que podem ocorrer entretanto. Ou seja, não devemos estar apenas preocupados com os sintomas da infeção, nem devemos estar distraídos de outros sintomas pela ansiedade que ela nos provoca.

Embora se trate de doenças raras (menos que 10% de todos os cancros) a incidência das doenças malignas do sangue (linfoma, mieloma, algumas leucemias) tem vindo a aumentar nos últimos anos, em grande parte devido ao aumento da longevidade da população.

Nestas doenças, as células têm a capacidade de se multiplicar muito rapidamente e ganhar ao mesmo tempo a capacidade de escapar à nossa vigilância imunitária. Quanto maior o volume tumoral, habitualmente maior a probabilidade de se desenvolver resistência aos tratamentos. São situações em que o tratamento quase nunca é cirúrgico, e estes aspetos são muito relevantes.

Claro que em tumores operáveis a questão se põe do mesmo modo. E o atraso do diagnóstico pode impossibilitar a cirurgia e reduzir a possibilidade de cura da doença.

O diagnóstico em fases iniciais pode portanto fazer mesmo a diferença entre a vida e a morte em muitos casos.

Infelizmente, as doenças quando surgem não batem à nossa porta com um cartão de visita com o seu nome...pelo contrário, manifestam-se com um conjunto de sinais e sintomas que têm de ser avaliados pelo médico, levando ao correto diagnóstico e tratamento.

A que sintomas devemos estar atentos?

Muitas doenças malignas do sangue têm sintomatologia a que chamamos “inespecífica”. Pode ser cansaço, dores nos ossos ou articulações, falta de apetite, febre baixa mas persistente, suores.

Estas queixas podem passar despercebidas quando estamos focados nos números diários da pandemia, e na logística diária de lidar com ela. Ou quando só valorizamos as dores de cabeça, a falta de cheiro ou sabor ou a tosse. Mas até esses podem ser sintomas de outras doenças!

Há queixas mais evidentes e que chamam mais a atenção, como o aparecimento de nódulos ou gânglios, falta de ar, emagrecimento marcado, alterações da pele ou hemorragias.

Em qualquer um destes casos é fundamental consultar o médico - seja por teleconsulta ou consulta. E se a única solução for recorrer a uma urgência, ela deve ser procurada. Importa saber que as unidades de saúde aplicam protocolos e circuitos de segurança pelo que a procura de resposta clínica não deve ser adiada por receio de contágio.

Infelizmente, temos visto recentemente muitos casos de pessoas com doenças de sangue (linfoma, mieloma, leucemias) em estado avançado, com queixas de vários meses a que não dão atenção porque a prioridade única é evitar e despistar a infeção SARS-COV.

Mesmo em confinamento reflita e tenha atenção aos sinais do nosso corpo. Provavelmente estará tudo bem. Mas se não estiver, há que procurar ajuda. Rapidamente.

Um artigo da médica Manuela Bernardo, hematologista no Hospital CUF Tejo e Coordenadora de Hematologia Clínica na CUF Oncologia.

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