Com a sala de aula montada na sala de estar, a professora Rita Pinheiro, de 49 anos, prepara-se para a poucos minutos iniciar uma aula de ciências da natureza com os alunos do 6.º ano da Escola Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia.

O computador está aberto, o ‘link’ de acesso à sessão disponível, a câmara operacional e o microfone ajustado para dar inicio à aula que tem como tema o sistema respiratório.

O primeiro dia de ensino à distância de Rita Pinheiro iniciou-se às 08:00, desde então, já lecionou duas aulas e todas “têm corrido bem”, assegura à Lusa, lembrando que a experiência do ano passado permitiu aos alunos “adaptarem-se facilmente” às novas circunstâncias.

Apesar de “alguns constrangimentos”, na turma do 6.ºB da escola Dr. Costa Matos todos têm acesso à internet e aos equipamentos tecnológicos que lhes permitem ver e escutar a professora e os colegas.

A situação “não é de todo a ideal”, afirma a professora, que além de ciências da natureza leciona matemática.

“É muito difícil lecionar matemática à distância, então a parte da geometria é muito complicada. Manusear o transferidor e o compasso é muito complicado”, afirmou.

Para explicar estas e outras matérias, Rita Pinheiro recorre a vídeos ilustrativos, escreve num pequeno quadro que guarda junto à mesa da sala de estar ou usa a mesa digital.

No entanto, o processo de aprendizagem “é mais lento” e requer dos professores um “trabalho extra-aulas” para contrabalançar a falta do ensino presencial.

“O ano passado tivemos um trabalho louco. Passamos muitas horas, muitas vezes sem refeições, a corrigir trabalhos, perceber onde erram e quais são as dúvidas”, recorda.

E como se detetam dúvidas através de um computador? “Pela cara dos estudantes”, assegura a professora, ainda que à distância tudo seja “mais complicado”.

À medida que a professora vai descrevendo as estratégias adquiridas ao longo do ano passado, no computador começam a entrar os alunos.

Os risos, as mochilas a pousar nas secretárias, o arrastar das cadeiras e das mesas são agora substituídos por pequenos ‘bips’.

“Que saudades de vos ver sem máscara”, diz de imediato a professora, enquanto do outro lado se vão ouvindo os bons dias.

“Quem é que está aí com a cabecinha que não se vê?”, questiona Rita Pinheiro enquanto faz a chamada, um ritual que rouba mais de cinco minutos aos 50 de aula, 20 dos quais dedicados a trabalho autónomo.

Ainda sem dar inicio ao sistema respiratório, Rita Pinheiro lembra os alunos que as suas intervenções ficam gravadas, numa tentativa de pôr fim a uma brincadeira sobre a alteração de uma tela de visualização.

“Eles têm muita necessidade de conversar”, refere a professora, acrescentando que entre as matérias lecionadas o ano passado havia tempo para mostrar os animais de estimação, esclarecer dúvidas sobre a pandemia e até cantar os parabéns.

 “Agora as coisas não são tão desconhecidas, o ano passado eles mostraram-se mais ansiosos”, refere.

À semelhança da sala de estar de Rita, também os quartos dos seus dois filhos, de 16 e 21 anos, se transformaram numa sala de aula: uma de gestão e outra de ciências socioeconómicas.

Por estes dias, vão estar os três ‘online’ e, apesar dos jovens já terem um “certo grau de autonomia”, a professora e mãe não hesita em dar uma espreitadela aos quartos na hora do intervalo.

“É complicado. Os meus filhos já são crescidos e isso facilita, já tem um certo grau de autonomia, mas no intervalo vou lá espreitar e ver o que se está a passar”, afirma.

“São preocupações que todos os pais têm”, assegura Rita Pinheiro, lembrando, no entanto, que as aprendizagens não ficam “completamente consolidadas” por muito que tanto pais, como professores se esforcem.

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