A generalidade dos leitores não estará familiarizada com o trabalho de um hidrogeólogo. Quer, em breves palavras, apresentar-se e descrever qual o papel de um hidrogeólogo?

Um hidrogeólogo é um especialista com formação superior que investiga e estuda águas subterrâneas, nomeadamente, sobre a origem, a natureza e as características, a qualidade e a quantidade das mesmas. Desenvolve ainda trabalhos de prospeção e pesquisa, por forma a identificar e caracterizar os sistemas aquíferos e identificar os melhores locais para a execução de captações, bem como projetos de exploração, de gestão, de proteção e vigilância de captações e de sistemas aquíferos, de modo a garantir a exploração sustentada dos recursos hídricos subterrâneos.

Existe atualmente uma maior literacia em relação às águas e às suas diferentes qualidades. É comum escutar-se a frase “as águas não são todas iguais”. Para lá da vulgarização da expressão, há que lhe descortinar os factos. O que distingue as águas?

Penso que se quer referir às diferentes tipologias e características físico-químicas das águas, em particular das águas subterrâneas. Tal como dizia Plinio, historiador, naturalista e oficial romano, “tales sunt acquae qualis Terra per quam flunnt”, que significa algo como “tais são as águas como as terras por onde fluem”, de facto as águas subterrâneas não são todas iguais e, já no passado essa perceção era evidente. Nos dias de hoje, podemos constatar isso com alguma facilidade, basta “ler” os rótulos constantes nas águas engarrafadas [minerais naturais e de nascente], onde se expressam os parâmetros físico-químicos principais. Esses parâmetros refletem o perfil físico-químico da água, que por sua vez se associa à assinatura geoquímica da rocha, ou rochas, por onde circulou. É fácil de entender, as diferentes rochas têm composições mineralógicas diferentes, e estes minerais integram diferentes componentes químicos na sua constituição, pelo que nos processos hidrogeoquímicos de interação água-rocha, mais ou menos longos no tempo e profundos, a água vai incorporar elementos específicos dos minerais com que reage. Por exemplo, de uma forma simplista, a água subterrânea ao reagir com o mineral calcite, do calcário, vai incorporar cálcio, que é um elemento químico que faz parte da composição daquele mineral. Assim, as águas subterrâneas associadas a rochas calcárias são naturalmente cálcicas. O mesmo exercício pode ser feito para as outras rochas. Deste modo, em função das tipologias de rochas temos águas distintas, sódicas, cálcicas, magnesianas, entre outras.

Sublinha-se, por fim, que Portugal Continental oferece uma riqueza enorme e ímpar de tipologias de águas minerais naturais e de nascente, que decorre naturalmente da multiplicidade de litologias (rochas) ocorrentes no país.

Alcino
Alcino Alcino Sousa Oliveira, Hidrogeólogo da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas e docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. créditos: Divulgação

Falou há pouco do tempo em que a água permanece em contacto com a rocha. Quer pormenorizar?

Sim, o chamado tempo de residência, que se pode entender como o tempo em que a água subterrânea está em contacto com as rochas, que pode ser da ordem das centenas ou até dos milhares de anos. Este, quanto maior for, mais significativo será o processo de interação água-rocha e, portanto, maior será o enriquecimento da água em elementos químicos, do que resultará assim uma água mais mineralizada, ou com um total de sais dissolvidos superior. A própria temperatura da água na emergência é influenciada com a profundidade que esta atingiu no percurso subterrâneo que pode ser da ordem das centenas ou dos milhares de metros, onde o gradiente geotérmico mostra que a temperatura aumenta em profundidade.

Como avalia qualitativamente as águas minerais e de nascente portuguesas

Devemos orgulharmo-nos quanto à qualidade das águas minerais naturais e de nascente nacionais. A legislação que rege a qualidade destas águas é muito rigorosa, no sentido de salvaguardar a qualidade de um produto natural, único e irrepetível, e da proteção da saúde pública. As entidades envolvidas nesta salvaguarda, como os Concessionários e os Diretores Técnicos das explorações, a Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a Direção Geral da Saúde (DGS), trabalham todos os dias no sentido de colocar no mercado águas de excelente qualidade do ponto de vista físico-químico e bacteriológico, com as caraterísticas invioláveis, tal como são extraídas das captações, sem qualquer tratamento.

A proteção dos aquíferos, ou dos sistemas aquíferos, é matéria de extrema importância, não só no que se refere à qualidade e características físico-químicas únicas de cada água, mas também da quantidade, que no conjunto são articuladas de modo a manter a relevância e a sustentabilidade do recurso, sendo da nossa responsabilidade transmiti-lo aos nossos descendentes, tal como nos foi oferecido pela natureza. Nesta matéria, a constituição de Perímetros de Proteção às captações e aquíferos, em conformidade com o regime jurídico relativo aos Recursos Geológicos, Lei nº 54/2015, 22 de junho, constitui uma ferramenta de Gestão/Ordenamento do território dentro dos quais se interditam ou condicionam instalações e atividades antrópicas suscetíveis de poluírem ou constituírem dano para as águas subterrâneas, em concreto para as águas minerais naturais e para as águas de nascente. Acresce, também, que as áreas afetas aos perímetros de proteção são frequentemente sujeitas a rondas de vigilância por parte dos concessionários das explorações, de modo a identificar situações que possam ser potencialmente danosas para o recurso, no sentido de ativarem os mecanismos necessários à sua mitigação ou eliminação.

Sabia que há uma associação direta entre o consumo de água e a saúde cardiovascular? A nutricionista Elsa Feliciano explica-nos os porquês
Sabia que há uma associação direta entre o consumo de água e a saúde cardiovascular? A nutricionista Elsa Feliciano explica-nos os porquês
Ver artigo

Quer explicar aos leitores a diferença entre uma água mineral natural gasocarbónica e uma água gaseificada? Há vantagens no consumo da primeira face à segunda?

Ambas as águas contêm na sua composição gás, nomeadamente dióxido de carbono (CO2), tal qual como acontece nos refrigerantes gaseificados. A diferença está no facto de que, no caso das águas gasocarbónicas, o CO2 é de origem natural, isto é, já faz parte da composição natural da água mineral natural, por isso a água explorada na captação já contém esse gás. No caso da água gaseificada, esse gás não faz parte da composição natural da água explorada na captação, sendo artificial e injetado na água no momento do engarrafamento.

No que se refere à segunda questão, se as vantagens/desvantagens no consumo se identificam com o ponto de vista de saúde, não sinto ter a propriedade adequada e necessária em medicina, e em particular na área de hidrologia médica para responder. Julgo aqui haver também uma questão de preferência por parte do consumidor, salientando que a diversidade hidroquímica no nosso território permite oferecer uma maior variedade de águas minerais naturais gaseificadas, algumas com larga tradição, do que águas minerais naturais gasocarbónicas.

Foi e é responsável por vários projetos técnico-científicos no domínio das águas subterrâneas, em particular projetos de prospeção, pesquisa e exploração de águas minerais e de nascente. Presumo que se trate de uma atividade aliciante, a de encontrar novas fontes de água para consumo. O que de mais marcante lhe trouxe esta atividade?

Sinto-me um privilegiado nesta matéria e na ligação simbiótica cultivada entre a Academia e área empresarial/organismos públicos. Confesso, tenho a sorte, como académico, de investigar nesta área tão nobre e num país tão rico e fantástico em águas minerais e de nascente e de colocar os resultados dessa investigação ao serviço não só da docência, mas também ao serviço da comunidade, empresas e organismos públicos e do desenvolvimento económico do país. Por outro lado, as muitas experiências e conhecimentos adquiridos e conquistados, decorrentes da atividade externa à Universidade, têm sido extremamente úteis trazê-los para a formação e preparação dos alunos do ensino superior e formação avançada para realidades que dificilmente se conseguiriam em ambiente puramente académico.

À “fábrica natureza” segue-se a “fábrica humana”. Ou seja, a mão humana tem de cuidar do recurso desde a captação até ao consumo. Como é garantida essa qualidade e integralidade do recurso?

Refere bem “fábrica natureza”, pois que uma água, quer seja mineral natural, quer seja de nascente, não é igual à água “primitiva”, originalmente infiltrada como água meteórica na zona de recarga do circuito subterrâneo, ao longo do qual e por processos hidrobiogeoquímicos, num contexto geológico específico, se vai transformando, mineralizando, até emergir na zona de descarga daquele circuito, ou ser captada nessa mesma zona. Ou seja, a água resultante, principalmente a mineral natural, é assim de facto um produto natural, único e irrepetível, específico da região onde ocorre e, como tal, muito valioso. A “fábrica humana” tem a obrigação e o dever de o saber captar de modo a não adulterar as suas propriedades e características e de o colocar ao serviço do consumidor, íntegro e tão natural como oferecido pela natureza.

Sobe a temperatura, impõe-se o consumo de água. Mas, o que ganha o nosso corpo com o precioso líquido? Retenha 8 pontos
Sobe a temperatura, impõe-se o consumo de água. Mas, o que ganha o nosso corpo com o precioso líquido? Retenha 8 pontos
Ver artigo

O cuidado da proteção do recurso não se inicia ao nível da captação, como vimos anteriormente, a tarefa é muito mais abrangente e exigente. A proteção do recurso inicia-se desde a zona de recarga do sistema hidromineral, integrada no respetivo perímetro de proteção, até ao consumidor. A montante da captação, temos toda a dinâmica referente aos perímetros de proteção, como já referido. As captações são um elemento fundamental na exploração, cuja construção tem de obedecer a critérios muito rigorosos, não só na concessão da captação, mas também no que se refere aos materiais utilizados, aos sistemas de extração, de monitorização, de isolamentos, entre outros, aspetos técnicos. Não obstante os elementos referidos, aqui e anteriormente, para a garantia da qualidade e integridade do recurso cita-se ainda a adoção de programas anuais de controlo analítico físico-químico e bacteriológico sistemáticos e periódicos definidos pela DGEG ao nível das captações e do produto engarrafado e também dos programas complementares da mesma natureza, adotados pelos concessionários, bem como o adequado acondicionamento, armazenamento e transporte das embalagens de água.

Presentemente, ganhou protagonismo a figura do water sommelier. Considera pertinente a existência de um corpo de profissionais especialistas em água como forma de educar os públicos?

Entendo ser fundamental, cada vez mais, dar relevância à questão da “nobreza” e importância das nossas águas minerais naturais e de nascente, da diversidade que as mesmas constituem ao nível do nosso território e da riqueza que as mesmas comportam não só do ponto de vista de impacto financeiro, mas também social. Sublinha-se, a propósito, as mesmas representaram em 2022 (período de COVID-19) vendas no valor de 357,3 milhões de euros e empregos diretos de 1344 colaboradores.

A figura do water sommelier entendo ser importante para a projeção e valorização deste recurso natural, para que a população em geral “aprenda” sobre esta matéria a apreciar uma água e sentir que as nuances de sabor, leveza, suavidade, entre outros, estão intimamente relacionadas com a composição química da água, cujos componentes principais e quantidades se podem identificar no rótulo da garrafa. Aquela figura terá uma tarefa pedagógica importante no sentido de despertar consciências para elevar a nobreza e o culto destas águas na alimentação e na sua utilização diária, como algo que se pode diversificar. Nesta matéria, nas minhas atividades de docência, em áreas relacionadas com águas subterrâneas, faço provas de águas com os alunos e os resultados são, positivamente, surpreendentes.

As águas minerais e de nascente têm vantagens para a saúde? Ou seja, há vantagem no seu consumo face ao consumo de água da torneira? Temos assistido a fortes campanhas de divulgação da água da torneira.

Na minha opinião, é uma divulgação cujo propósito é completamente errado, o alcance será outro. São duas realidades distintas, não comparáveis. Se, por um lado, democratizar a disponibilização de água potável para consumo humano em cada habitação é algo fundamental numa sociedade desenvolvida e a bem da saúde pública, por outro lado, a água domiciliada jamais poderá substituir as águas minerais e de nascente como água bebível, pelo menos. Estas últimas, como anteriormente referi, são águas naturais, purificadas pela natureza, isentas, de um modo geral, de agentes patogénicos, de composição físico-química estável na origem, apenas com ligeiras oscilações naturais, engarrafadas tal como são exploradas, não sendo sujeitas a qualquer tipo de tratamento químico. São assim um produto natural que é colocado diretamente na mão do consumidor, o que é de louvar. Acresce, a própria componente microbiológica que é mantida nestas águas livres de tratamentos em algumas situações tem efeitos benéficos para a saúde. Embora esta seja uma área do fórum medicinal, da qual não sou especialista, o facto é que alguns estudos apontam para esses efeitos benéficos em várias patologias. Os efeitos benéficos para a saúde são demonstrados no âmbito do termalismo, onde algumas águas minerais naturais são utilizadas, sendo as suas virtudes “milagrosas” conhecidas e registadas desde a antiguidade. Dito isto, é fácil tirar elações para a saúde, ao consumi-la.

No caso da água da torneira, trata-se de uma água tratada, corrigida para afinar a sua potabilidade, cuja composição original, físico-química e bacteriológica, pode ser muito variável ao longo do ano. Trata-se assim de um produto final não natural, modificado devido à introdução de produtos químicos corretivos de aspetos físico-químicos, de soluções cloradas, ou outros mecanismos, para eliminar microrganismos patogénicos. Por outro lado, a bibliografia de especialidade refere que a necessária desinfeção das águas para produção de água de consumo humano, no sentido de reduzir o risco de infeções, pode, em certas circunstâncias, desenvolver subprodutos que não abonam a favor da saúde humana.

O setor está a desenvolver medidas para reduzir o impacto ambiental? Quais?

A exploração racional destes recursos por parte do setor, numa matriz de sustentabilidade, de modo a garantir a renovação natural dos mesmos, tem subjacente um cenário livre de impactos ambientais. É por esta razão que, sem entrar em detalhes técnicos e científicos, os estudos hidrogeológicos se fazem, atualizando-se sistematicamente, com a aplicação de novas metodologias, técnicas e investigação inovadora, no sentido de aprimorar o conhecimento do funcionamento dos sistemas hidrogeológicos. Naturalmente, a “ferramenta” Perímetros de Proteção a captações e aquíferos e a gestão rigorosa e adequada dos mesmos funciona como um excelente instrumento, garantia da qualidade e da quantidade do recurso, mantendo os padrões naturais que o caracterizam, portanto, preventivo de impactos ambientais nefastos, como anteriormente referidos. Nesta matéria, cumulativamente, destacam-se ainda os programas de controlo analítico físico-químico e bacteriológico, periódico e sistemático, bem como o rigoroso controlo de caudais explorados, pressões, níveis hidrodinâmicos e hidrostáticos ao nível das captações, entre outros, que, cuidadosamente se analisam e interpretam. Nesta matéria, é importante sublinhar que é o setor que muitas vezes alerta para situações preocupantes de práticas antrópicas sistemáticas e desadequadas que colocam em risco o recurso, sob pena de o “perder” irremediavelmente, e com todas as consequências que daí advêm.

Neste cenário, entendo que num sistema hidrogeológico em exploração o exemplo dos elementos referidos, entre outros, adotados pelo setor, são favoráveis à preservação dos recursos hidrominerais e de água de nascente. O que me preocupa é a existência destes recursos com potencial para exploração, os quais, pelo facto de não se configurarem num quadro de proteção legal podem vir a reduzir-se à condição de inexploráveis por via de contaminações ou perturbações induzidas no equilíbrio natural dos sistemas aquíferos.

Imagem de abertura do artigo cedida por Freepik.