É com hora previamente acordada e com tempo marcado, 30 minutos, que chegamos para a conversa. Nove horas e trinta minutos de uma manhã de setembro. Mentalmente, revisitamos a imagem do homem robusto, de palavra fácil, bonacheirão, perfil cavalheiresco e cultor de um estilo muito seu. Uma presença onde nunca faltam os lenços de pescoço. Estes, conta-se mais de 400, talham a imagem do nosso entrevistado.

Nos últimos dez anos, Matt Preston foi presença quase diária nas nossas casas.  Agora, o ex-apresentador do programa “MasterChef Austrália” está prestes a materializar-se perante nós. Matt entra na sala. Senhor para mais de 1,90 metros de altura. É impossível não reparar nos olhos, um azul intenso, brincalhão e mordaz. Preston atrasou-se ligeiramente. Pede desculpa pela falta de pontualidade britânica. Sim, porque, não obstante o nosso anfitrião desta manhã colar a sua imagem televisiva aos antípodas, nasceu em Inglaterra.

Não precisamos pedir o cartão de cidadão a Preston para sabermos que nasceu em 1961, estudou política e, imagine-se, fez-se promotor de bandas de punk e atreveu-se como DJ na juventude. Uma irreverência que ainda se pressente no homem que nos indica a cadeira para que nos possamos sentar. Traja um blazer azul, de generosos botões áureos, calças veranis, de largas faixas brancas e vermelhas e, naturalmente, o lenço. Há algo de marinheiro neste Preston que se presta a meia hora de conversa com o SAPO Lifestyle.

Sentamo-nos lado a lado. Preston convida-nos a provarmos os pastéis de nata que repousam num pratinho sobre a mesa. Agradecemos, mas declinamos. “Faz bem, os de Belém são melhores”, e ri.

A Portugal, o crítico gastronómico, mas também, redator escritor e apresentador, chega para promover o seu livro “Delicioso, Fácil e Rápido”. Não fez uma viagem relâmpago ao cantinho luso. Esteve de férias no Algarve e Alentejo.

Gostaria de ter visitado o Norte, mas o tempo não chega. Provou a nossa cozinha, perdeu-se pelas migas e bom peixe, degustou os vinhos lusos, aprendeu um pouco sobre a alma portuguesa.

Uma conversa com a capacidade de nos surpreender. O homem de gosto refinado, deleita-se com uma cerveja fresquinha e gosta de cozinhar aquilo que lhe dá o supermercado. Ri-se, muito, e não disfarça o gosto por uma pergunta mais apetitosa. Matt mostra-se apaixonado pela vida e boa comida. A paixão também o levou, um dia, há quase trinta anos, a cruzar o mundo. Matt chegou à Austrália após casamento com uma australiana. Depois divorciou-se. Voltou a casar. A vida dá muitas voltas. Na vida de Preston, rolou 180 graus. E pensar que o sucesso global talvez tenha começado com um lenço. Isso mesmo, um lenço. Vamos perceber porquê.

Matt Preston: “Portugal é mais do que Fado, Ronaldo e sardinhas”
Preston adora cozinhar com simplicidade. Ingredientes escolhidos na hora, sabor e textura, são marcas da sua cozinha.

Antes de chegar a Portugal disse que queria provar caldo verde e marisco. Agora que já por cá anda há mais de uma semana, o que juntou à lista?

Ainda não provei o caldo verde. Mas provei, por exemplo, migas e o vosso peixe que é fantástico.

E os vinhos portugueses? Conquistaram-no?

Sim, estive no norte alentejano e adorei. Curiosamente, na Austrália temos um clima muito semelhante com o do vosso Alentejo. Verões muito quentes, longe do mar, invernos frios. Acho incrível. Por cá mantêm a cultura das fermentações pacientes. Encontrei nos vinhos notas de frutos tropicais, por exemplo nos vinhos com a casta Sauvignon Blanc. Também já provei o vosso medronho. Delicioso. Em Beja provei um belo vinho tinto. Mas tenho apreciado muito as vossas cervejas [risos]. Sabe tão bem uma cerveja bem fresca em dias quentes como estes. Em Vitória, na Austrália, temos duas medidas para a cerveja, ou as bebemos em canecas generosas, ou no copo, como a vossa ´Imperial´.

Apaixonei-me por uma australiana. Vivemos juntos cinco anos em Londres, casámos e fomos para a Austrália.

Vamos ao passado. Como é que um britânico que estudou política, se vê na promoção de bandas musicais, trabalha como DJ, se torna uma estrela mundial da gastronomia, a partir da Austrália?

Apaixonei-me por uma australiana. Vivemos juntos cinco anos em Londres, casámos e fomos para a Austrália. Ela era realizadora de televisão. Lá, comecei por escrever em revistas e apaixonei-me também pela Austrália. Entretanto divorciei-me, comecei a sair com uma das amigas da minha ex-mulher, com quem acabei por me casar. Estamos casados há 21 anos. Tem sido fantástico. Quando cheguei à Austrália pensava que por lá ficaria apenas um ano e, aqui estou eu, em outubro completam-se 26 anos que estou no país que me acolheu. É um país grande, cheio de espaço. Cheguei na altura certa, a Austrália nascia para a cozinha.

O Matt acabou por diversificar a sua atividade na Austrália, certo?

Escrevi durante cinco anos para a televisão australiana. Também escrevi durante dez anos para revistas, sobre receitas e inclusivamente criei receitas.

Matt Preston: “Portugal é mais do que Fado, Ronaldo e sardinhas”
Em Portugal, Preston rendeu-se às sardinhas, migas e medronho.

Matt é verdade que foram os lenços que o levaram à apresentação do “MasterChef Austrália”?

A vida dá muitas voltas. Um conhecimento comum entre a minha mãe, em Londres, e eu, na Austrália, em Sidney, acabou por me levar para a televisão.  Essa pessoa procurava alguém que prestasse consultoria para um novo programa televisivo. Chamar-se-ia “MasterChef Austrália”. O objetivo era eu aconselhar que chefes de cozinha teriam perfil para o programa. Conversámos 45 minutos sobre todos os chefes que possa imaginar. Ela acabou por me pedir para lhe enviar uma fotografia minha. Aparentemente essa fotografia convenceu os produtores. Gostaram do lenço, do rosto. Tinham, assim, um gastrónomo e dois chefes de cozinha para o programa [Gary Mehigan e George Calombaris]. Estava destinado a ser um desastre. Ia substituir o “Big Brother”.

Não se sabia como ia resultar um formato com comida cinco dias por semana, com muitos concorrentes, pessoas normais, que competiam em horário nobre.

Um desastre porquê?

Não se sabia como ia resultar um formato com comida cinco dias por semana, com muitos concorrentes, pessoas normais, que competiam em horário nobre. Para mais com três apresentadores cheiinhos [risos]. Adorávamos o que fazíamos, foi um sucesso. Era um programa muito competitivo, mas autêntico.

Na realidade as pessoas perceberam que aquilo não cheirava a esturro ou que era uma ´treta`. Quebramos estereótipos. Era genuíno, preocupávamo-nos com as pessoas, com a comida e que melhorassem as suas competências. Tornou-se um fenómeno de televisão. No segundo ano de exibição, o programa aumentou em mais de um milhão a audiência. Nesse mesmo segundo ano, 67% dos australianos acompanhavam o programa. Aparecíamos na primeira página dos jornais. As crianças começaram a ver-nos e a cozinhar.

Matt Preston: “Portugal é mais do que Fado, Ronaldo e sardinhas”
Matt Preston teve uma juventude animada em Londres. Depois, apaixonou-se por uma australiana e a sua vida migrou para os antípodas.

E sentiam esse carinho por parte do público?

Sim, começámos a receber cartas de muitas origens que elogiavam a forma como nos comportávamos no programa. Chegavam cartas da Índia, de Hong Kong, Bulgária, Portugal, Brasil, Canadá, Holanda, Bélgica, África do Sul. Todos adoravam o programa. Aqui em Portugal tem sido uma loucura, até mesmo com turistas estrangeiros que estão por cá. Veem-me e querem fotografar-se comigo.

E, repare, o que fazíamos no programa? Falávamos de comida. Porquê o interesse? Porque tem muito significado cultural. Por exemplo, na Austrália, com tantos imigrantes e substratos culturais diferentes, acaba por ser um elemento de ligação.

Aqui em Portugal tem sido uma loucura, até mesmo com turistas estrangeiros que estão por cá. Veem-me e querem fotografar-se comigo.

Em Portugal vem apresentar o seu novo livro “Delicioso, Fácil e Rápido”. É assim que cozinha na sua casa?

Sim. Todos os meus livros se fazem com ingredientes que se encontram no supermercado. Gosto de cozinha elaborada, mas em casa gosto de simplicidade. Chego ao supermercado, há isto e aquilo e é com isso que cozinho.

Repare, há dois tipos de livros de cozinha, os que são para cuidar, bonitos; e aqueles que vivem na cozinha, que usamos, que marcamos, tomamos notas, vivem connosco. A minha avó deixou-me um livro com notas. Por exemplo, escrevia, “bom, mas não num dia quente” [risos].

Para este novo livro foi a minha filha de 11 anos que escolheu o título porque associou o nome à minha cozinha. Fez-se luz. Pensei, é um bom título. Não lhe paguei ainda os créditos [risos]. Na prática é um livro muito acessível. Pensemos numa das receitas. Cozinhamos um frango panado num molho de chili doce. Não o fritamos, antes assamo-lo. Fica cheio de sabor e textura. Perfeito para os dias quentes.

Em todo o livro procuro transmitir o máximo sabor, com o mínimo trabalho. Não é preciso dominar técnicas complicadas. No fundo, estou a levar sabor e diferença à cozinha do dia a dia.

Matt Preston: “Portugal é mais do que Fado, Ronaldo e sardinhas”
Um dia procuravam um novo apresentador para um programa inovador na televisão australiana. Chamava-se "MasterChef Austrália". Matt foi um dos escolhidos.

Matt, a cozinha que os chefes apresentam é para ficar nos restaurantes ou podemos reproduzi-la em nossas casas?

A maioria das receitas dos chefes apresentadas nos livros de cozinha não são para serem reproduzidas em casa. Os cozinheiros fazem livros para outros cozinheiros. Desconfio de receitas que dizem “comece a preparar com três dias de antecedência”. Nunca será possível a uma só pessoa fazer algumas receitas destes chefes. O programa onde fui jurado trouxe esse lado humano, de cozinha feita por pessoas comuns.

Há um movimento na Austrália desde o “MasterChef”. As pessoas apreciam passar o domingo a cozinhar, a fazer, por exemplo um Croquembouche [ou croque-en-bouche, sobremesa francesa composta por massa choux empilhada, formando um cone de profiteroles].

É claro que é agradável ver como os chefes criam alguns pratos. Aliás, muitos chefes não criam os pratos, recriam aquilo que, anteriormente, um outro chefe de cozinha lhes pediu para produzirem. Aprendi muitas técnicas com os chefes de cozinha. Agora, há chefes de cozinha geniais. O Jamie [Oliver] é um chefe de cozinha genial. O Gordon Ramsey é brilhante. Heston [Blumenthal] faz um puré de batata delicioso. Coze as batatas e amorna o leite com a casca destas. É de génio.

Gosta mais de cozinhar para terceiros ou de comer o que lhe cozinham?

Gosto das duas versões. Em Portugal, tenho-me sentido frustrado, porque não tenho uma cozinha. Quero comprar coisas e ir para a cozinha. Fazer saladas, usar o vosso azeite, as ervas aromáticas, os figos maravilhosos. No fundo, gosto de ser espicaçado para ideias novas e criar receitas originais. Vocês têm um prato incrível, a cataplana. E o peixe assado, hum, fica delicioso, ali mesmo, ao lado da pessoa que está na grelha. Tu dizes, “quero-o assim”, e o peixe chega-te assim à mesa.

Em Portugal, tenho-me sentido frustrado, porque não tenho uma cozinha. Quero comprar coisas e ir para a cozinha. Fazer saladas, usar o vosso azeite, as ervas aromáticas, os figos maravilhosos.

É um homem da escrita gastronómica. Quais os segredos para tornar a escrita nesta área apetitosa?

Quando comecei o melhor conselho que recebi foi, “se quando estiveres a escrever não salivares, tens de começar tudo de novo”. O segundo conselho foi lembrar-me que estou a escrever para terceiros, não para alimentar o meu ego. Terceiro, há ter sentido de humor e estar muito atento aos pormenores. Tão simples como ver se uma cebola está bem cozinhada.

O que está o Matt a fazer, agora que terminou a sua participação a par de Gary Mehigan e George Calombaris no “MasterChef”?

Estou a terminar um livro que sairá na Austrália em novembro e em Portugal no próximo ano. O “MasterChef” ocupava-me nove meses por ano. Agora escrevo, viajo, fui a Londres, vou estar na África do Sul num enorme festival de gastronomia.

Quando voltar à Austrália o que vai dizer aos seus compatriotas sobre Portugal?

Que Portugal é mais do que Fado, Ronaldo e sardinhas. Se disser a alguém que tem um prato excelente, vão dizer-lhe, “hum, é bom, mas há melhor no Douro, no Alentejo e no Algarve”. O vosso povo é fantástico e muito bem-educado. Fazem-me lembrar as pessoas de Melbourne.

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