Com 1,77 metros de altura, olhos verdes, lábios carnudos, pele clara, cabelos castanhos e sem maquilhagem, a modelo é antes de tudo uma rapariga bonita e tímida, que diz não ter sentido na pele as dificuldades que a maioriadas transexuais enfrenta. O seu sonho é desfilar para grandes nomes da moda italiana, como Armani.

Após ser a primeira transgénero a ser capa da revista de moda Vogue, Valentina está satisfeita com a homenagem feita na edição francesa da famosa publicação.

"Sim, estou orgulhosa. Acho que este é um momento importante, a moda é um instrumento onde as coisas podemfluir livremente. Neste momento (a questão dos transexuais) está a ser debatida, falada, para que no futuro as pessoas possam viver sem preconceitos", explica a modelo de 22 anos.

Valentina iniciou a sua carreira no Brasil há quase quatro anos,onde chegou a ser embaixadora da L'Oreal e figura de destaque da Semana de Moda de São Paulo, em outubro de 2016, após desfilar para marcas como Água de Coco e Vitorino Campos.

"Quero continuar a lutar por um mundo melhor", diz a jovem, de forma suave, apesar de falar sobre um assunto tão delicado e doloroso como a transexualidade e a luta que está a travar para que o tema seja encarado como algo normal.

"Não vejo isto como um defeito, como uma anomalia", explicou Valentina, que durante toda a entrevista evitou usar os termos transgénero, transexual e a sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais).

Um segredo: a mudança de sexo

"Cada um é como cada qual, o João é o João, a Maria é a Maria, a Valentina é a Valentina", diz, de forma divertida, embora não queira revelar o seu segredo. "Não falo sobre isso", respondeu assertivamente ao ser questionada sobre a cirurgia de mudança de sexo.

Sobre a crescente visibilidade da transexualidade, Valentina assegura que "não quer rotular ou dar títulos".

"Matriculei-me na faculdade de Arquitetura em Fortaleza, depois passei para a de Moda, por isso sempre quis visitar Itália. Estou encantada", conta durante a entrevista realizada num parque no centro de Milão, cidade que visita pela primeira vez.

Filha de um casal jovem - "o meu pai tem 45 anos e minha mãe, 42" - Valentina cresceu numa pequena localidade do Ceará, onde garante que não se sentiu discriminada e contou com o respeito e o apoio dos pais.

"Desde criança que sempre me senti uma menina", afirma.

"Eu cresci no interior do nordeste, no Ceará, fui protegida naquele lugar pequeno, onde todas as pessoas me conheciam e me respeitavam. No início da minha carreira aconteceram algumas coisas. Também vi coisas, (ouvi) comentários feios", afirma, recordando a altura em que perdeu um dis seus primeiros contratos publicitários por ser transexual.

"Era uma marca mais conservadora. Decidiram que eu não era uma boa imagem para a marca", explica. "Senti-me mal, queria deixar aquele trabalho. Mas aquilo não me demoveu", acrescentou.

Valentina, que não usa o nome de batismo, juntamente com Lea T, filha do ex-jogador Toninho Cerezo e porta-voz da diversidade de género, racial e orientação sexual nas Olimpíadas do Rio-2016, faz parte do primeiro grupo de modelos brasileiras que lutam abertamente contra o preconceito e a violência contra os transexuais.

"O conselho que tenho para dar é que eles (os transexuais) têm de acreditar neles mesmos, mesmo nas alturas mais difíceis. Nada pode demovê-los", diz a modelo que tem 35 mil seguidores no Instagram.

"Muitas vezes não existem oportunidades para estas pessoas, as portas fecham-se quando a notícia lhes chega aos ouvidos. Acho que isso tem que acabar. É importante que em qualquer trabalho sejamos valorizados pelo nosso profissionalismo, pelo nosso talento", sustenta.

Valentina Sampaio e a diretora da Vogue francesa, Emmanuelle Alt, estão convencidas de que a batalha só vai acabar quando não for necessário explicar as razões pelas quais as pessoas escolhem trabalhar com transexuais.

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