A sua empresa, ao lado do Palácio do Eliseu, onde exibia fotos que o mostravam ao lado de Fidel Castro ou Louis Aragon, assim como antigos artigos de imprensa e diversos objetos, é um testemunho da excepcional trajetória desta personagem histórica da moda francesa.

Filho de imigrantes italianos, nunca pensou na reforma e conseguiu levar a alta-costura às ruas, com o lançamento de uma linha de prêt-à-porter desde 1959.

Antes de muitos outros, abriu um "posto de venda" numa grande loja de departamento e incluiu homens nos desfiles. Além disso, adotou um sistema de licenciamento em larga escala que assegurava a presença da sua marca em todo mundo. A impressão do seu nome passou a ser vista em produtos variados, que incluíram gravatas, cigarros, perfumes, ou água mineral.

Foi o pioneiro na Ásia desde cedo, região em que teve grande notoriedade: viajou para o Japão em 1957, depois organizou desfiles a partir de 1979 na China.

Pierre Cardin
créditos: STEPHANE DE SAKUTIN / AFP

O estilista, cujos fatos sem colarinho inspiraram os que foram usados pelos Beatles, também era um homem de grande cultura e um mecenas comprometido com o teatro, a dança e a música, por intermédio do Espaço Cardin em Paris e do festival de arte lírica e do Teatro Lacoste, em Lubéron, sul de França.

Multifacetado, também embarcou na criação de móveis, assim como na indústria hoteleira e no setor de restaurantes, com a rede Maxim's.

Vestido bolha e cosmocorps

Embaixador honorário da Unesco, foi também foi o primeiro estilista académico.

No fim de novembro de 2016, na grande sala de reuniões da Academia de Belas Artes apresentou aos 94 anos um dos desfiles intermináveis aos quais estava acostumado, por ocasião dos seus 70 anos de carreira.

A vida e carreira de Pierre Cardin em datas
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Incansável, em julho de 2016, pouco antes de apresentar uma nova coleção, explicou que sempre tinha a "necessidade de se expressar".

Nascido a 2 de julho de 1922 perto de Veneza, Pierre Cardin mudou-se de Itália para França aos dois anos com os pais, que fugiram do fascismo. Depois de se estrear como aprendiz de alfaiate em Saint-Etienne e de trabalhar como contabilista para a Cruz Vermelha em Vichy durante a guerra, desembarcou em Paris em 1945.

Depois de trabalhar com Paquin e Schiaparelli, uniu-se a Christian Dior, com quem participou na revolução do "New Look", antes de criar a sua própria marca.

Pierre Cardin
créditos: AFP

Criador da estética futurista, assim como André Courrèges e Paco Rabanne, Pierre Cardin fez sucesso desde o início com o seu 'vestido bolha'. Usou materiais inovadores, cores e formas geométricas, desenhou vestidos inspirados na "op art", vestidos moldados, calças elipse, casacos coloridos e fatos masculinos com gola Mao.

Fascinado pela conquista do espaço, inspirou-se na aventura para criar trajes unissexo "cosmocorps".

Um legado essencial

O sistema de licenças, contratos que encomendavam a fabricação de produtos a uma terceira empresa em troca de royalties pelo uso do nome, rendeu-lhe uma fortuna (ele possuía quase 350, contra 900 no auge do sucesso, numa centenas de países).

A diversificação extrema teve o efeito de popularizar o seu nome, mas também de desvalorizar a marca e provocou o desprezo de alguns dos seus colegas.

Tanto que atualmente, com exceção de Jean-Paul Gaultier, que trabalhou com Cardin no início da carreira, nenhuma figura importante da moda menciona a sua contribuição, que de qualquer maneira é essencial. De facto, recebeu, por exemplo, três "Dés d'or" (Dedal de ouro), prémio da moda francesa concedido até ao início dos anos 1990.

Pierre Cardin
créditos: Mike Coppola / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

Pierre Cardin foi até ao fim um grande trabalhador que controlou a 100% os seus negócios, o único da sua geração que permaneceu independente. Em 2011, anunciou que pretendia vender o seu império por um billião de euros, mas não encontrou comprador.

Em 2019, o Brooklyn Museum de Nova Iorque organizou a sua primeira grande retrospectiva em 30 anos, uma maneira de contribuir para a revalorização da imagem do estilista.

O empresário também era alvo de controvérsias. As múltiplas obras de restauração em Lacoste provocam polémicas há vários anos entre os moradores. O mesmo aconteceu em 2012 com o seu projeto faraónico do Palais Lumière de Veneza, que nunca viu a luz do dia.

O estilista não teve filhos. "Eu era atraente, muito bonito (...) Tive muito sucesso com os homens, com as mulheres", contava Pierre Cardin, que teve como companheiro o seu assistente André Oliver e viveu uma história de amor de quatro anos com a atriz Jeanne Moreau.

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