Tenho consciência de que cada um dos meus filhos pode precisar mais de mim. Quando chegam todos da escola, cheios de novidades para partilhar, e eu tenho de organizar a ordem com que falam para que consiga ouvir todos. Quando me estão a confidenciar alguma coisa importante e uma queda ou um choro alheios interrompem o desabafo. Quando querem a minha atenção num momento em particular, tendo de me dividir com outras três alminhas que reclamam pelo mesmo. Nestes momentos, eu não lhes chego.

Não me penalizo por isso. Dou o máximo e o melhor que consigo, acreditando que, mesmo não sendo omnipresente, consegui desenvolver uma capacidade de escuta ativa exacerbada, com uma técnica capaz de desconstruir o mais hábil e experiente profissional de contact centre. Também descobri, finalmente, o verdadeiro conceito do multitasking, que me faz capaz de tratar a ferida no joelho de um, enquanto dou conselhos amorosos a outra, observo um terceiro a aventurar-se na escalada do beliche e ainda respondo ao quarto filho o que vai ser o jantar. Não que isto corra sempre bem, mas vai servindo para o efeito.

É raro conseguir ter tempo com um só filho de cada vez. Lá consigo, raramente, arrastar um deles até ao hipermercado, lá se dá o milagre de só um querer ir fazer jogging comigo no final do dia, lá acontece um deles apanhar-me na casa de banho e aproveitar esse momento para me ter na totalidade. Porque, de resto, somos como aqueles irmãos siameses que não se consegue mesmo separar – não por opção, mas por obrigação, que não sou propriamente dotada de uma estrutura familiar alargada que me fique com ‘alguns’ filhos para eu cuidar dos outros.

Há dias em que consigo questionar tudo aquilo que a neurologia explica. Em que quase que consigo provar in vitro que, afinal, o nosso cérebro tem a capacidade de concentração em diversos pontos simultâneos e distintos. Em que contesto a teoria de que o nosso poder de concentração obriga a um foco único e não disperso. No fundo, os “pais de muitos” quase que podem transformar-se num verdadeiro caso de estudo para revolucionar todas as teorias do funcionamento cerebral.

Mas, infelizmente, o nosso corpo é limitado. Demasiado limitado até, para quando é preciso atender a necessidades específicas. Há uns meses, vivi uma semana em que senti que estava no meu limite físico. Estava lotada de trabalho, tinha um dos gémeos com necessidades educativas que tinha de assegurar diariamente em casa, o outro estava doente, a mais velha precisava de ajuda para acabar um trabalho e a do meio estava numa fase de necessitar de atenção adicional. Foram dias simplesmente (nada) fantásticos em que senti que eu, definitivamente, estava no limiar de não “chegar para todos”.

Não lhes chego, efetivamente. Mas vivo na esperança de lhes ser, pelo menos, suficiente. Até porque eu sou apenas uma, enquanto eles são quatro.

[Mas, como diz uma amiga minha, há que ser positivo. Afinal, eles podiam ser oito!]

Alda Benamor

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