As últimas décadas trouxeram mudanças no papel do pai. Hoje, ao ponderarem a paternidade, muitos homens pensam em afastar-se de papéis tradicionais do pai como figura distante, mais dedicado ao trabalho e não cuidador, ambicionando uma participação mais ativa nos cuidados à(s) sua(s) filha(s) e/ou ao(s) seu(s) filho(s).

Referem expetativas de usufruírem direitos que lhe assistem, passando mais tempo dedicado à vida familiar no pós-nascimento. Mas será que sabem como isso pode acontecer? Que hipóteses existem? Conhecerão eles e elas os benefícios de um envolvimento efetivo do pai? Que fatores ainda condicionam a escolha em partilhar licenças?

Sabe-se que as relações entre pai e filho/a - sejam positivas, negativas ou ausentes – podem ter impacto ao longo de toda a vida e que de um envolvimento ativo do pai nos cuidados às crianças, desde a vigilância pré-natal, advêm benefícios para o próprio, para a mulher/mãe, crianças e sociedade.

Quando um homem se permite ou lhe permitem compartilhar cuidados e a educação infantil, tende a desenvolver uma compreensão mais profunda de si, ao nível das emoções e afetos, com repercussões nas relações interpessoais; maior satisfação com a vida e melhores resultados em indicadores de saúde física e mental.

Aparentemente, homens que cuidam das filhas e/ou dos filhos desde cedo e partilham licenças parentais, tendem a manter um envolvimento em todas as fases do desenvolvimento da criança e não apenas num momento específico, como o nascimento.

Além disso, as mulheres cujos companheiros participam ativamente nos cuidados às crianças tendem a sentir maior apoio emocional, sofrendo menos stresse do que se tivessem parceiros ausentes e não envolvidos, bem como equilíbrio entre vida profissional e familiar.

Crianças com um pai envolvido na vida familiar podem apresentar melhor desenvolvimento emocional e cognitivo, ser mais seguras, empáticas e com níveis mais elevados de autoestima. Viver num paradigma em que o homem e a mulher têm participação em todos os domínios da vida familiar é estar em sintonia com princípios de igualdade de oportunidades, pelo que educar crianças neste contexto contribuirá para uma “pegada” de mudança na forma de pensar e agir, que sendo reproduzida pelos/as mesmos/as no futuro, constituirá um forte contributo para uma sociedade mais justa para todos e todas.

Ao consagrar direitos ao pai, enfatiza-se não só a importância de ambos progenitores na educação de filhos e/ou filhas, mas também a importância do trabalho dos dois na sociedade, traduzindo-se em benefícios para o bem-estar das crianças (que passam a estar mais tempo sob o cuidado do pai) e esclarecendo que a assistência aos/às filhos/as, no dia a dia e em situação de doença, é uma tarefa que compete a ambos e não apenas às mães.

Dos países que contemplam licenças para o pai, Portugal detém uma das mais progressistas

Não só no que se refere às possibilidades de partilha e duração, mas pela remuneração associada. Assim, pai e mãe têm direito a 120, 150 ou 180 dias após o nascimento, que podem ser partilhados entre os dois, e que correspondem à designada licença parental (no caso de nascimentos múltiplos, o período de licença previsto é acrescido de 30 dias por cada gémeo, além do primeiro).

Incluídas naqueles períodos de tempo, estão as denominadas licenças exclusivas de 25 dias (20 obrigatórios + 5 facultativos) para o pai e 42 dias para a mãe, sem perda de rendimento. Importa referir que a opção do casal em partilhar a licença parental, além dos benefícios já referidos para todos e todas, é vantajosa do ponto de vista da economia da família.

Dados divulgados pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), evidenciam a crescente percentagem de homens que partilharam a licença parental de 120 ou 150 dias. Contudo, embora esta percentagem tenha evoluído de 0,4 em 2005 para 30,2 em 2016, ainda está aquém do que poderia ser. Porquê? Na minha opinião, existem dois fatores, entre outros, que parecem prementes revelar e intervir: receios do homem-pai e questões laborais.

paternidade
créditos: Freepik/bristekjegor

Alguns homens não se consideram capazes de cuidar da(s) filha(s) e/ou do(s) filho(s) e entendem ser a mãe ou outra figura feminina as pessoas mais preparadas e em melhores condições para cuidar das crianças, pelo que nem colocam a hipótese de partilhar licenças. Outros acabam por revelar que durante a sua licença chegaram a recorrer à própria mãe ou sogra, porque não se sentiam confortáveis para cuidar da criança. Esta insegurança pode advir de situações em que foram afastados ou criticados pela sua prestação. Mas se não tiverem as mesmas oportunidades da mulher, como se vão sentir seguros para cuidar?

Questões laborais parecem também ser motivo para alguns homens não gozarem os dias facultativos de licença de paternidade, bem como abdicarem da partilha de licença parental. Esta situação pode ter justificação em atitudes resistentes, por parte de algumas entidades patronais, a uma masculinidade cuidadora. Qualquer pessoa pode encontrar online reclamações de homens que denunciam alegadas tentativas de os demover do uso de licenças relacionadas com a paternidade, tais como alteração de horários, suspensão de atividades nos locais habituais, bem como comentários menos simpáticos de colegas de trabalho.

Embora existam leis que procuram acompanhar as transformações contemporâneas na paternidade, persistem fatores que ainda condicionam os direitos do pai

Neste contexto, e ciente de que o cuidar não tem de estar adstrito unicamente à mulher, defendo a promoção de uma paternidade ativa e corresponsável, assim como reconheço, no setor da saúde, uma área-chave para fomentar/ incentivar atitudes favoráveis à possibilidade de homens e mulheres viverem em pleno as suas experiências de paternidade e maternidade:

- na perceção dos sentimentos ao longo da gravidez e expetativas sobre a vida já com a criança;

- no desenvolvimento de competências de cuidar (dar banho, vestir, compreender o choro e como atuar perante situações inesperadas, entre outros);

- no planeamento da chegada da criança (desde o quarto à escolha de roupa);

- na organização do conteúdo da mala para a maternidade;

- na participação e preparação para o trabalho de parto (plano de parto);

- num papel ativo do homem no processo de amamentação (facilitar a técnica, ou cuidar da criança para a mãe poder descansar, por exemplo);

- na interajuda entre o casal, incentivando e reforçando a forma de cuidar do/a outro/a…

Estes e muitos outros aspetos aproximam o homem da esfera de cuidar, alicerçando as suas motivações para usufruir de licenças ou lutar para que elas aconteçam, em benefício do próprio, família e sociedade.

Termino com a adaptação de um pequeno poema, que me acompanhou em tantos dias da mãe, introduzindo a palavra pai em consideração ao meu e ao que - junto com a minha mãe – representam naquilo que sou,

“Com três letrinhas apenas,
se escrevem as palavras Pai e Mãe.
Sendo elas tão pequenas,
São das maiores que o mundo tem!”

Bárbara Sousa, uma das profissionais das Conversas com Barriguinhas a partilhar conhecimento nas sessões online gratuitas para futuras mães e Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, com mestrado no âmbito da promoção do envolvimento dos homens nos cuidados e promoção da paternidade ativa.

Se quiser explorar mais este tema da "Paternidade ativa", a Conversas com Barriguinhas vai organizar algumas sessões online gratuitas. No dia 17 de março, esta quarta-feira, vai estar a Dr.ª Carolina Vale Quaresma, Terapeuta Familiar, a explicar como “Tudo Começa na gravidez” e o autor do blogue “A Pitada do Pai”, Rui Marques, para relembrar que o “O Pai também Cozinha!”.

No dia 24 de março, vai estar presente o Enfermeiro Bruno Reis, Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia, com o tema “Não abdique de ser pai… talvez a melhor magia que a vida lhe dá!”.

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