“Até ao 3.º ciclo, fala-se muito pouco sobre o oceano”, disse à agência Lusa Natália Almeida, professora de Ciências Naturais, durante uma ação de limpeza de praia, em Algés, que organizou para os alunos dos 5.º e 6.º anos de escolaridade.

A atividade, que se repetiu por outras escolas do país, foi organizada no âmbito de um projeto do programa Eco-Escolas, uma das várias iniciativas através das quais os professores levam o mar para dentro da sala.

Foi para preencher essa lacuna que a Fundação Oceano Azul criou em 2019 o programa 'Educar para uma Geração Azul', um projeto-piloto, com o apoio da Direção-Geral da Educação, que está a ser desenvolvido em mais de 200 escolas do país.

“Temos aqui uma oportunidade de tornar os cidadãos portugueses os mais informados e mais conscientes sobre a importância que o oceano tem para a sustentabilidade do planeta e para a nossa própria sustentabilidade”, explicou Rita Borges, responsável pelo programa.

Através de ações de formação e da disponibilização de um manual de apoio, o programa pretende ajudar os professores a integrarem a literacia do oceano nas aulas e a criarem um currículo mais azul. Mas, para já, a iniciativa é dirigida apenas aos primeiros anos de escolaridade.

“No 1.º ciclo existem algumas referências ao oceano, mas não são muito explicitas. Há uma necessidade de tornar mais explícita essa referência ao azul no currículo, até para que os professores se sintam confortáveis a abordar os temas no seu dia-a-dia”, sustentou.

Entre os temas que o projeto pretende que os mais novos comecem já a aprender, Rita Borges refere os ecossistemas marinhos, as ameaças que os oceanos enfrentam, as áreas marinhas protegidas e o papel dos oceanos nas alterações climáticas e a importância da economia azul.

A Escola Azul é outra das várias iniciativas que promovem a literacia do oceano, apostando na aproximação das escolas à comunidade e a outras associações e organizações não-governamentais.

“Criámos este conceito de Escola Azul, no fundo, com o objetivo de arranjar um chapéu em que todos possamos trabalhar para uma mesma estratégia, criando uma comunidade de educação marinha que permite às escolas terem apoio para desenvolver os seus projetos”, explicou Raquel Costa, coordenadora daquele programa educativo do Ministério da Economia e do Mar.

Apesar de não ter um enfoque tão particular sobre os currículos, o envolvimento dos professores no programa também lhes permite mostrar como podem integrar o oceano nas suas disciplinas, seja ciências, matemática ou línguas.

“Os professores vão percebendo que o mar pode ser uma espécie de cenário para darem a matéria. A fotossíntese pode ser dada com referência a plantas ou ao fitoplâncton, e quando se fala de trigonometria a rota dos navios no Atlântico pode ser utilizada como exemplo”, ilustrou.

Assim, e apoiada na ação de organizações ambientalistas, a mudança vai acontecendo nas escolas, mas a velocidades muito diferentes entre o litoral e o interior

A esmagadora maioria dos estabelecimentos de ensino que aderiu à Escola Azul, por exemplo, localiza-se em concelhos junto ao litoral e no projeto “Brigada #AMARoMar”, da Eco-Escolas, só duas das 151 estão no interior.

No programa “Educar para uma Geração Azul”, a Fundação selecionou seis concelhos de Portugal continental para a primeira fase do projeto e só uma está longe do mar.

“Com a extensão da plataforma continental seremos um dos países com maior dimensão marítima no mundo e a nossa população não está próxima do mar? Tem de estar”, sublinhou Raquel Costa, defendendo uma política educativa que aproxime todas as escolas do oceano.

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