Sim, as crianças de 2 e 3 anos têm frequentemente mudanças de humor - tão, mas tão intensas - que são difíceis de compreender. No entanto, são uma pista importante para compreendermos que as crianças desta idade estão a processar todo o tipo de informação a uma velocidade incomparável, sem disporem de mecanismos evoluídos de regulação das suas ações, sentimentos, impulsos e controlo corporal.

Parece-nos claro que aos 2 anos surge a noção de individualidade. Esta nova aquisição traduz-se de forma espetacular com a utilização do pronome EU. Quando uma criança é capaz de dizer EU pela primeira vez, então é claríssimo que se vê como um ser independente, com capacidade e direito de testar todos os limites que os adultos lhe impõem. Com a grande dificuldade de, justamente por ser tão pequena, não ter qualquer noção do perigo nem qualquer capacidade de negociação.

E aí surgem as birras. E as birras vão ser tanto maiores quanto maior a sensação de autonomia da criança e necessidade de expressão da vontade do EU. Se isso colide com os pais, claro que sim!

Agora pensem comigo: uma criança de dois anos percepciona as emoções a um nível básico – ao nível do sistema límbico –, logo o desacordo, a frustração, a luta, o choro, a agitação física são sintomas de um sistema límbico a funcionar perfeitamente, mas sem o efeito modelador do córtex cerebral, mais evoluído, mais cognitivo, com noção das expectativas sociais. O nosso sistema límbico diz-nos para dar um sopapo no idiota que está na fila para abastecer o carro sem máscara. Mas o nosso córtex frontal recomenda-nos cautela e diz-nos que a agressão dificilmente trará respostas.

Mas este processo não existe num cérebro jovem. Vai daí o que é que acontece? O sopapo, pois claro! Sopapos na mãe, no pai, palmadas, o clássico “a mãe é má”, o choro em estereofonia no corredor dos brinquedos do supermercado. Tudo em bom!

Claro que devemos ensinar, de forma concisa, apropriada para a idade e sistemática que "bater não!". E os miúdos sabem bem analisar a coerência. Se o avô se ri quando eu lhe dou uma chapada, mas a minha mãe faz cara de má, o que é que isto significa?

Por isso é que as birras são tão difíceis, porque há dias em que nos sentimos fortes e não cedemos, enfrentando a birra e ganhando a batalha. Mas há dias em que cedemos. Porque estamos exaustos, porque não nos sentimos preparados para negociar, porque queremos que se calem. E aí sim, perdendo uma pequena batalha, ameaçamos todo o decurso da guerra.

Por isso, frequentemente digo aos pais para escolherem cirurgicamente as batalhas que querem travar. Se põe em causa a saúde, a vida, a integridade dos outros, então não há realmente uma escolha. O não é não e é absoluto. Agora, se o menino quer o copo amarelo e nós não estamos a ver onde é que ele está… Será que queremos mesmo comprar uma guerra insignificante que nos drena energia? Porque não comprar meia dúzia de copos amarelos e isto deixar de ser um problema?

Por outro lado, uma criança em birra, é uma criança isolada. Nada vai sair dali, se não a consolarmos, se não a ajudarmos a regular-se, se não tentarmos estabelecer algum tipo de relação com ela, se não tentarmos, no fim, só no fim, quando a birra tiver passado, explicar de forma apropriada o nosso ponto de vista.

Claro que há crianças mais fáceis de regular que outras: umas é só distraí-las, que elas, feitas borboletas fofinhas, cegas de curiosidade, se esquecem do motivo da birra. Mas depois temos os pequenos tourinhos, aqueles que gostam de cavar trincheira e partir para a batalha. Esses, sim, são frequentemente o maior desafio. Quando penso nos meus filhos neste momento, penso na enorme frase: “ama-me quando menos eu mereço, porque é quando mais preciso”. E para mim, funciona. Funciona porque acredito que a expressão daquele tornado de choro, frustração e agressividade, nada mais é do que uma criança pequena que não se sabe regular. Se lhe ralhar, se lhe gritar, se o castigar, se lhe bater, só vou ensiná-lo a não lidar com a frustração. Porque em vez de desmontar o tornado, vai escalar para um furacão de zanga. E a zanga não dá espaço para aprender.

A regra dos três Rs para lidar com as birras é absolutamente eficaz: regular, relacionar e racionalizar. Está tudo certo! Mas mais importante do que isso é a consistência. Limites perfeitamente identificados, claros e imutáveis. Os limites claros são, ao contrario do que muitas famílias pensam, uma enorme fonte de segurança para as crianças. Deixá-los explorar o espaço à sua vontade dentro de limites claros é uma mais-valia para aumentar a autonomia e regular o auto-controlo.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

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