Há livros assim. Que nos conquistam à primeira leitura. Em que nos basta ler a contra-capa ou passar os olhos pela introdução para percebermos que temos nas mãos algo raro.

Para sabermos nesse instante que o iremos ler de uma ponta a outra.

«Espíritos Curiosos, como uma criança se torna cientista» é um livro assim, nascido a partir de uma ideia tão simples quanto brilhante. Pedir a vinte e sete cientistas que escrevam um ensaio sobre a sua infância. Sobre os momentos, as pessoas, os contextos e até os seus deslizes de percurso que contribuíram para o despertar da sua vocação.

Organizado por John Brockman, fundador de uma agência literária e de software, «Espíritos Curiosos, como uma criança se torna cientista» (Editora Gradiva) reúne ensaios de vinte e sete dos mais brilhantes cientistas mundiais sobre a sua história pessoal.

Brockman lançou uma série de questões aos protagonistas desta obra, «encaminhando-os» para o(s) episódio(s) da sua infância que terão influenciado a sua opção profissional, o papel da família e mentores e até os erros que cometeram ao longo do caminho.

Estes foram os pontos de partida para um trabalho coordenado por John Brockman. O resultado é uma coletânea de textos singulares, em que mentes brilhantes revelam fragmentos da sua personalidade e das suas histórias pessoais. Vai perceber melhor do que falamos depois de ler a súmula de alguns episódios relatados por quatro protagonistas deste livro inspirador. Imperdível.

Daniel C. Dennett (director do Centro de Estudos Cognitivos da Tuffs University)

O seu pai foi agente secreto durante a segunda Guerra Mundial, em Beirute. Desses tempos recorda ter tido uma gazela como animal de estimação, uma ama que o incentivava a desenhar e um motorista que o ajudava a construir objectos de carpintaria e a lançar papagaios. Depois da morte do pai (tinha cinco anos) regressou aos Estados Unidos da América, onde a mãe voltou a ser professora de inglês.

Numa casa repleta de livros, passava o tempo a desenhar e a reconstruir coisas em metal e madeira. Foi escuteiro, adorava esculpir, tornou-se assinante da Scientific American aos doze anos e aos treze apaixonou-se por jazz. «Não era criança quando me apaixonei pela ciência. Apenas me sentia uma», escreve.

Judith Rich Harris (escritora e psicóloga do desenvolvimento)

Lembra-se de ser uma menina teimosa e activa, baixinha e com óculos, posta de lado pelos seus pares numa escola em Nova Iorque, o que a motivou a virar-se para a leitura. O que a fez ser cientista?

Os pais não foram. Os professores também não. Mas acredita que existirão factores genéticos que podem explicar a sua vocação.

Assim como está convicta de que o facto de «ter nascido com uma predisposição para gostar de ler e de torcer o nariz perante a autoridade» terá sido determinante», sublinha. «Curiosamente, as fases em que foi mais criativa aconteceram quando estava sozinha em casa e por isso não hesita em afirmar que «em última análise foi a solidão que me permitiu tornar-me eu própria», acrescenta ainda.

Mary Catherine Bateson (presidente do Institute for Intercultural Studies)

Ser filha única, ainda por cima de dois cientistas, teve para Mary Catherine Bateson as suas vantagens, nomeadamente passar muitas horas a ouvir diálogos ricos em observações e teorias e ser encorajada a lançar dúvidas, sempre que estas surgiam.

Do pai, um proeminente geneticista, recebeu cartas abundantes com diagramas sobre patas de escaravelhos ou ninhos de bolhas construídas por peixes. Os seus encontros eram autênticas «visitas de estudo de história natural», em que era desafiada com problemas matemáticos ou recolhia factos sobre ecologia e biologia. Com a mãe aprendeu a ser observadora, participante, a estar atenta às diferenças culturais e a relacionar-se com os outros.

Murray Gell-Mann (físico vencedor de um Prémio Nobel da Física)

Foi o seu irmão Ben, nove anos mais velho, que o ensinou a ler aos três anos, com a ajuda de caixas de cereais. Estavam ambos três anos adiantados em relação aos colegas da mesma idade e faziam tudo juntos.

Visitavam museus, brincavam, adoravam observar pássaros, borboletas, mamíferos e plantas. A verdade é que Murray Gell-Mann preferia arqueologia, linguística ou história natural. A física não estava nos seus planos iniciais. Terá sido uma solução de compromisso que assumiu com o pai, um homem também apaixonado pela matemática e pela astronomia e um grande admirador de Einstein, com quem Murray se cruzou no Institute for Advanced Study, mas a quem dirigiu um simples «boa tarde».

Sherry Turkle (fundadora e diretora da Iniciativa sobre Tecnologia e EU do MIT)

Tinha dez anos e uma certeza, retirada de um livro que lera intitulado «Como escolher a profissão certa para si».

«Para se ser bom num trabalho tem de se gostar da substância desse trabalho», recorda Sherry Turkle, fundadora e diretora da Iniciativa sobre Tecnologia e EU do MIT.

Até aos cinco anos viveu com a mãe, uma tia e os avós num apartamento com um único quarto e foi aí que descobriu o maior dos tesouros, um armário na cozinha recheado recordações espalhadas por apontamentos, fotografias e cadernos.

Vezes sem conta, entre os seis e catorze anos, explorou cada caixa, onde viria também a descobrir a sua vocação. «Foi aí que decidi que ia resolver mistérios, que usaria os objetos como pistas para o cerne do problema (...)», refere ainda.

V.S. Ramachandran (diretor do Centro do Cérebro e da Cognição)

Foi aos onze anos que recebeu das mãos do pai um microscópio de investigação e foi também aos onze anos que o descobriu o seu interesse pela ciência. Nessa altura, era uma «criança um pouco solitária, socialmente desajeitada» que encontrava na sua predilecção pela natureza uma espécie de refúgio, onde se sentia alguém especial e a salvo da monotonia a que as outras pessoas estavam sujeitas.

A relação com os seus pais foi determinante para sua vocação. Estimulavam a sua curiosidade e incutiram-lhe a ideia paradoxal «que era o melhor de todos (…) e que nunca era suficientemente bom para eles».

Texto: Nazaré Tocha

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