Os acidentes não acontecem só aos outros. Uma distração, preguiça, falta de cuidado ou mera negligência podem ser suficientes para a ocorrência de um problema grave. No topo da pirâmide dos acidentados estão as crianças e os adolescentes, dois grupos de risco que, de acordo com Mário Cordeiro, médico pediatra e fundador da Associação para a Promoção da Segurança Infantil, precisam de ser educados e protegidos pelos adultos e necessitam de um «aperfeiçoamento de comportamentos».

Essa situação pressupõe «a interiorização de uma cultura de segurança», questão que deve ser pensada numa perspetiva global e social. Infelizmente, existem muitos casos de morte nas estradas, nos jardins de infância e escolas, em recintos desportivos, espaços de lazer, na praia. É esse alerta que está bem patente no livro «Crescer Seguro», publicado pela editora Glaciar, da autoria de Mário Cordeiro, um manual que explora, entre muitas outras questões, a problemática dos TFLA.

A sigla refere-se a traumatismos, ferimentos e lesões acidentais, uma das maiores causas de morte entre crianças e adolescentes em Portugal, definindo cada situação assim como as respetivas medidas de intervenção e prevenção. De seguida, a Prevenir dá-lhe a conhecer um dos TFLA mais comuns, a sufocação e a asfixia, ensinando a reagir em caso de emergência e apontando ainda estratégias de prevenção.

A fase em que eles levam tudo à boca

Levar tudo à boca é usual até aos três anos e, por vezes, até mais tarde. É a chamada fase oral. Ao sentir o objeto na boca, especialmente se for arredondado e deslizante, a tendência é para engolir, mas, dado não se tratar de um alimento, pode causar engasgamento e ir para a árvore respiratória. São muitos os objetos e alimentos que podem provocar sufocação, se uma criança pequena os meter na boca.

A lista inclui desde alimentos que sejam pequenos, arredondados e oleosos (amendoins, pistácios, avelãs, pevides, sementes de girassol e ervilhas) até outros, como uvas, cenouras cruas, passas, maçã dura e crua e, ainda, pastilhas, bocados de carne, pipocas, presunto e cubos de queijo. E ainda moedas, berlindes, missangas, pilhas, botões, comprimidos, partes de brinquedos e até, por incrível que pareça, objetos pontiagudos como alfinetes, pregos e parafusos.

Os alimentos, dado serem escorregadios ou oleosos e exigirem grande esforço de mastigação, têm mais probabilidade de resvalar para a parte posterior da boca, provocando um movimento involuntário (próprio da imaturidade da criança) de inspiração, fazendo com que o corpo estranho vá para a árvore respiratória. Os outros objetos são introduzidos por puro gozo, no contexto da fase oral do desenvolvimento infantil.

Outras vezes, o corpo estranho é engolido ou introduzido no nariz ou nos ouvidos, pela tendência que a criança tem, antes dos três, quatro anos, de experimentar o seu próprio corpo. É frequente esta situação acontecer com feijões, anéis, brincos, clipes, pregos e parafusos.

Veja na página seguinte: Os maiores perigos de sufocação

Perigo de sufocação

Quando um corpo estranho se aloja na árvore respiratória, pode reduzir ou mesmo cortar o acesso de ar aos pulmões, com asfixia. A traqueia tem uma cartilagem (a epiglote) que a protege. Funciona como uma espécie de válvula, o que orienta os alimentos para o esófago, ou o ar para a árvore respiratória. Quando se engole, a epiglote fecha o acesso à traqueia. Às vezes, com a rapidez de mastigar ou a surpresa de o corpo sentir um objeto ou um alimento a resvalar para a faringe, a criança engasga-se.

A tosse, que é um mecanismo automático, consegue, na maioria dos casos, expelir o alimento. Por vezes, o esforço é tão grande que o sangue pode sair dos capilares e a criança ficar com a cara com pintinhas avermelhadas, designadas por petéquias.

Antes dos cinco anos de idade, dada a imaturidade  de toda a musculatura da epiglote e do sistema de reação e tosse, a probabilidade de acontecer é maior. A posição de deitado, comum nos bebés, aumenta a probabilidade de sufocação, com asfixia grave, privação de oxigénio no cérebro e sequelas graves ou mesmo a morte.

O que fazer em caso de sufocação

Se a criança está sufocada mas consegue tossir, respirar e falar, mesmo que mal, isso quer dizer que as vias aéreas não estão totalmente interrompidas e deve acalmá-la e tentar que  tussa. Não se deve tentar retirar o eventual objeto com os dedos, porque se pode provocar uma reação de inspiração que leva o objeto mais ao fundo da árvore respiratória, a menos que se o faça com muito cuidado e vagarosamente. Se a criança conseguir expelir o objeto, respirará bem, mas pode ficar muito assustada e chorar convulsivamente. Ela e os pais mas, nessa altura, só faz bem.

Os cuidados que deve ter com a comida

Evite que ele sufoque com os alimentos:

1. Nunca dê de comer a um bebé (ou a uma criança) deitado, mesmo que seja um biberão ou até uma colher de xarope.

2. Não deixe as crianças a comer sozinhas antes dos quatro anos.

3. Corte bem os alimentos, tendo em conta, não apenas a idade da criança, mas a sua capacidade de os mastigar e engolir.

4. Tenha muito cuidado com os fios da comida, designadamente os que estão presentes no presunto, fiambre, espargos ou outros vegetais com fibras.

5. Ensine o seu filho a pôr pouca comida de cada vez na colher ou garfo.

6. Encoraje-o a mastigar muitas vezes e devagar.

7. Não force a criança a comer.

8. Não dê comida ou bebidas a crianças que estão a correr, a brincar, a rir ou a chorar.

9. Nunca dê alimentos no automóvel em andamento.

Veja na página seguinte: O que fazer se a criança estiver a sufocar?

O que fazer se a criança estiver a sufocar?

São várias as estratégias que pode adotar:

- Plano A: Cinco pancadas

Se a criança tem menos de cinco anos e está engasgada mas respira, coloque-a ao colo, com a face para baixo, para que a cabeça fique mais abaixo do que o tronco. Nas crianças mais velhas, a posição mais aconselhável é sentada ou deitada.

Como se faz

1. Dê cinco pancadas secas entre as omoplatas, com a parte lateral da sua mão (com o devido cuidado, claro. Mais importante do que a força é a secura da palmada).

2. Remova o conteúdo da boca da criança.

3. Se a criança está consciente mas não consegue respirar ou só respira através de surtos agónicos, não consegue falar ou produzir sons, ou está a ficar azulada, ou parece abraçar o ar, com movimentos aleatórios, ou parece querer agarrar na garganta, deve chamar imediatamente o 112 e fazer a manobra de Heimlich.

- Plano B: Manobra de Heimlich (na imagem abaixo)

Consiste num golpe de ar forçado, de baixo para cima, através da traqueia, por contração do diafragma, para deslocar o corpo estranho, enviando-o para cima, eventualmente saindo até pela boca (cuspido). Há que ter cuidado para fazer a manobra sem demasiada força e no local exato, para não lesar as costelas ou os órgãos internos.

Como se faz

1. Quem faz a manobra coloca-se por detrás da criança. A criança pode estar de pé ou sentada.

2. O adulto fecha a mão, tipo murro, com o polegar dirigido para o abdómen da criança, entre a caixa torácica e acima da cintura. A outra mão rodeia a cintura da criança.

3. Inicia então uma série de seis a dez movimentos bruscos (mas não violentos) para dentro e para cima, de forma a que o objeto saia, se necessário. Repete-se, pois, com a falta de oxigénio, os músculos demoram mais a reagir.

4. Se a criança estiver inconsciente, terá de ser deitada, o queixo posto para a frente e o punho colocado ao nível do umbigo.

O perigo dos objetos pequenos

Veja na página seguinte: Os sinais de alarme que podem indiciar uma emergência

Os sinais de alarme que podem indiciar uma emergência

Se, mesmo parecendo melhorar, a criança continua com alguns destes sintomas, deve ser imediatamente observada por um médico:

- Dificuldade em respirar, chorar e falar

- Tosse súbita, irritativa, com grande esforço

- Sibilância (pieira) ou respiração muito ruidosa

- Dificuldade em engolir

- Salivar intensamente

- Perda de consciência

Quando ligar para o 112?

Se a criança não respira e está inconsciente, deve chamar imediatamente o 112. Se estiver consciente mas não consegue respirar ou só respira através de surtos agónicos, não consegue falar ou produzir sons, ou está a ficar azulada, ou parece abraçar o ar, com movimentos aleatórios, ou parece querer agarrar na garganta é também preciso ligar para o número de emergência nacional.

Texto: Carlos Eugénio Augusto (adaptado por a partir do livro «Crescer Seguro» de Mário Cordeiro, publicado pela editora Glaciar) com revisão científica de Mário Cordeiro (médico pediatra)

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