Muitos autistas lutam com dificuldades associadas à condição clínica, vendo a diferença como uma experiência solitária de não pertença, e alguns desejam por uma cura.

Mas é o autismo uma perturbação? Uma definição do termo perturbação é falta de ordem ou padrão inteligível. Outros definem perturbação como aleatoriedade. E nenhuma destas parece ser apropriada para descrever o autismo. A definição médica para o termo perturbação é distinta da definição para doença. O primeiro é usado quando uma perturbação pode ser atribuída a um mecanismo causal especifico e que é disfuncional. Em contraste, o termo perturbação é usado quando o mecanismo causal é desconhecido.

As Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) são um conjunto de diversas variáveis neurodesenvolvimentais que são caracterizadas mais commumente por uma dificuldade na interacção social, comunicação e dificuldades comportamentais. É um espectro que se manifesta num variado conjunto de apresentações, e é descrito na comunidade autista e por alguns clínicos e investigadores como uma condição ao invés de uma perturbação.

A sua prevalência é de 1-1,5% da população (1 em cada 68 crianças nos EUA), e tem sido principalmente considerada como mais frequentemente presente em rapazes do que em raparigas. Não obstante a controvérsia relativamente ao tema, é defendido por alguns um enviesamento no diagnóstico em favor dos rapazes e no caso das raparigas parecer existir uma maior capacidade de camuflagem, para alem de certos comportamentos típicos conseguirem ser suprimidos com o principal objectivo de se integrarem e conseguirem evitar o estigma social.

No dia 18 de junho é celebrado o dia do orgulho Autista. De uma forma global celebra-se a neurodiversidade. A simbologia nesta iniciativa prende-se com o encorajamento da celebração das diferenças dos autistas ao invés do reforço da perceção estereotipada do autismo como uma doença. Este dia pretende sensibilizar a sociedade para as próprias experiências das pessoas autistas, e procura incentivar a vida inclusiva do autista de uma forma abrangente, e com o objectivo de reconhecer o alcançar dos objectivos das pessoas autistas.

A sociedade ainda parece distante da compreensão e aceitação das diferenças. É necessário um passo em frente relativamente à capacitação das pessoas autistas para liderarem as suas vidas de uma forma plena e sem discriminação, permitindo-lhe participar e contribuir em todos os aspectos da sociedade.

O conceito de neurodiversidade é recente mas pode tornar-se fundamental para ajudar a reflectir muitas das questões levantadas. Inúmeras pessoas na comunidade autista adoptam o enquadramento da neurodiversidade, cunhando o termo neurotipico para descrever a maioria do funcionamento cerebral das pessoas sem um diagnóstico de autismo. Este movimento, tal como Steve Silberman procurou sublinhar encoraja ao reconhecimento do autismo como um exemplo de diversidade no conjunto de todos os tipos de funcionamento cerebral, onde nenhum deles é considerado normal mas onde todos são simplesmente diferentes.

Mas a neurodiversidade também é considerado como um conceito bastante compatível com a luta pelos direitos civis das minorias e na necessidade da sua aceitação com respeito e dignidade e de não ser patologizado.

Uma sociedade que aceita a neurodiversidade requer cooperação e input de um conjunto de pessoas, incluindo pessoas autistas, neurologistas e profissionais da área da saúde mental, pais, professores, investigadores e empregadores. A sociedade necessita de abraçar a neurodiversidade de forma a aceitar a diferença, a variabilidade e reduzir o estigma.

Pedro Rodrigues - Psicólogo clínico, PIN Progresso Infantil

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