Com um percurso na representação repleto de sucessos, Rita Salema vê no futuro um número infinito de oportunidades para continuar a desafiar-se. Apesar das dificuldades que as artes do espetáculo enfrentam com a pandemia, o seu otimismo e lado sonhador mantêm-se à prova de bala.

Em conversa com o Fama Ao Minuto, a artista, que é um dos rostos mais acarinhados do público português, falou-nos no papel de mãe, nos arrependimentos (ou falta deles) da profissão e o que lhe trouxe a pandemia, além da decisão de deixar de consumir carne por influência da filha.

É sonhadora?

Sou e não só sou sonhadora como tento realizar os meus sonhos. E às vezes pode demorar um bocadinho mais, mas tenho conseguido realizar todos os meus sonhos: ser atriz, ser professora, ser mãe.

Atualmente, em que fase está a Rita: atriz, mãe, professora e mulher?

Sinto-me uma privilegiada porque tenho a melhor filha do mundo, a melhor mãe, os melhores alunos, e sinto-me muito feliz. Tenho muita sorte em ter nascido nesta mulher que sou.

Claro que tem sido muito difícil - as pessoas estão fechadas, as famílias deixam de se ver -, mas eu tirei coisas muito boas

Tem uma alegria muito característica. A sua boa disposição deixa-se abalar pelo quê?

Nesta fase, preocupações com a minha mãe ou com alguém que eu ame. De resto, nada. Acho que tenho sido uma mulher de sorte. A saúde, isso sim, preocupa-me.

Já confessou publicamente que enfrentou períodos em que se sentiu “no fundo”. O que é que a pandemia pode estar a causar na saúde mental de todos nós?

Gosto sempre de ver o copo meio cheio. Claro que tem sido muito difícil - as pessoas estão fechadas, as famílias deixam de se ver -, mas eu tirei coisas muito boas. Em minha casa vive a minha mãe, a minha filha, o meu irmão e a minha sobrinha e acabamos por estar mais juntos. Fazemos jogos, vemos televisão e era até uma coisa que já se tinha perdido. Mesmo em relação às aulas de teatro, o que fizemos foi antecipar a peça de final de ano, então fazemos o ensaio de leitura online. Temo-nos até divertido imenso com esta forma de ler uma peça, não sonhávamos que online íamos ganhar outras coisas. Estes dois/três meses online têm sido muito mais produtivos.

Às vezes a vida prega-nos estas partidas para tirarmos proveito de coisas que já prevemos. Por exemplo, gosto muito de cozinhar, mas tenho tirado mais proveito disso: vou experimentando pratos e bolos.

Em que é que é especialista na cozinha?

Gosto de fazer tudo, mas gosto mais de fazer salgados e comida portuguesa. Há um ano deixei de comer carne - de vez em quando faço uma ‘asneira’ mas é de tempos em tempos -, dá-me para descobrir coisas vegetarianas e pratos de peixe. Até doces, que não era muito fã, agora tenho feito imensos.

Acho que é a única coisa que posso elogiar e que não tenho vergonha nenhuma de dizer: acho que sou a melhor mãe do mundo. A minha é a primeira e a seguir sou eu

A decisão de deixar de comer carne foi por motivos de saúde?

A minha filha é que deixou e eu acabei por me associar a esta opção de vida que me faz muito bem. Antes estava sempre engripada, doente, tenho uma coisa muito chata que é artrite reumatoide e fibromialgia, e tem-me ajudado imenso não andar a comer carne.

Tem uma filha, Francisca, de 28 anos. Como é a mãe Rita Salema?

Acho que é a única coisa que posso elogiar e que não tenho vergonha nenhuma de dizer: acho que sou a melhor mãe do mundo. A minha é a primeira e a seguir sou eu. Gosto tanto de ser mãe que tive uma pena imensa de não ter tido mais filhos. O que mais gosto nesta vida é ser mãe. A Francisca nunca me deu problemas, sempre foi uma belíssima aluna… Agora trabalha na SELFIE, da TVI, e é super aplicada, muito trabalhadora e perfecionista. Odeia errar, desde pequenina, se tirava Bom+ em vez de Excelente, chorava. É ótimo ter uma filha assim.

A relação de “melhores amigas” entre as duas transformou-se com o tempo?

Vai-se transformando. Fui mãe solteira - não que seja uma coisa complicada porque só há uma cabeça a mandar - e nunca tratei a Francisca como uma bebé. Ela odiava ser tratada como bebé, cresceu muito rapidamente. A relação foi crescendo e evoluindo, fui acompanhando esse processo sempre como mãe, como amiga. Tentei dar-lhe tudo o que ela queria sem mimá-la demais. Não fiz um grande esforço porque ela foi uma filha muito fácil. Se lhe dissesse: ‘A mãe agora está com problemas financeiros e não te pode comprar tudo, quando a mãe disser não, só pode dizer uma vez senão a mãe também vai ficar triste’. Acho que disse isto uma vez na vida. Foi muito fácil ter esta filha.

Voltou a reencontrar a sua ‘filha de acolhimento’, que viveu consigo durante um ano?

Não foi bem de acolhimento. Essa menina pequenina veio para cá para estudar e acabou por ficar comigo porque as pessoas com quem estava eram mais velhas. Como a Francisca era pequenina, ficou um ano comigo, quando voltou para os pais nunca mais soube dela. Ela era linda de morrer. Adorava voltar a vê-la.

Neste momento, não me posso queixar, tenho conseguido dar aulas, mas sinto uma angústia de pensar de quantos colegas meus não estão a fazer novelas e, de facto, a televisão não pode dar trabalho a todos os atores

Cinema, teatro, televisão… Este caminho na representação foi o que sonhou?

Sim, foi. Quando decidi ser atriz, fiz sempre por metas. Primeiro fui para o teatro e consegui trabalhar com um dos maiores mestres que nós temos que é o João Mota. Era muito miúda quando comecei a ter formação, tinha sete anos, e depois aos 17 anos fiz a formação profissional. Depois tive o sonho de fazer novelas e o Nicolau [Breyner] convidou-me. Tive o sonho de fazer outros espetáculos e fui fazendo. Tive o sonho de trabalhar com o Diogo Infante e cada vez tenho trabalhado mais - não só trabalho com ele como o tenho como amigo. Acho que Deus me tem dado tudo o que eu quero. Sou muito grata.

Já acompanhou várias fases do panorama artístico em Portugal. Que fase é esta que enfrentamos agora?

É uma péssima fase, acho que nunca tivemos uma fase tão má. Uma coisa é quando não somos chamados, mas aí o ator consegue lutar e vai por outros caminhos como eu tenho feito ao dar aulas. Neste momento, não me posso queixar, tenho conseguido dar aulas, mas sinto uma angústia de pensar de quantos colegas meus não estão a fazer novelas e, de facto, a televisão não pode dar trabalho a todos os atores. Como é que eles fazem? Os teatros estão fechados, a maioria das escolas de teatro também. Os músicos a mesma coisa, o bailado… É uma angústia que me tem acompanhado. Está muito assustador.

Ainda não se conseguiu perceber que a Cultura é fundamental. Nesta fase grave que estamos a viver, quem nos tem feito companhia são os atores, os bailarinos, os músicos

Como olha para a escolha de jovens atores que são populares nas redes sociais?

Tenho uma maneira de ver as coisas diferente, mas não estou à frente de nenhuma televisão, posso estar completamente errada. Posso falar do meu percurso e dos miúdos que trabalham comigo. Dou formação e faço espetáculos, os meus alunos não estão na fase de ter seguidores, todos os alunos podem ser muito talentosos… mas a formação não é só ler textos, passa por exercícios, improviso, que os fazem ganhar ferramentas.

Quando um ator tem formação, tem oportunidade de chegar ao que o encenador quer. Podemos encontrar miúdos com muito talento e sem formação, mas isso não impede que eles devam ter essa formação. Temos isso na Globo, os miúdos que eles agarram com sete anos, mas não deixam de fazer formação e tornam-se grandes atores no futuro. Acho maravilhoso que se façam castings com miúdos sem formação, não tenho nada contra isso, mas acho que eles devem ser agarrados e ter formação. Mesmo um ator com formação, nós falhamos, em novela às vezes não há muito tempo. Mas há uma coisa que acho que falta em Portugal e tenho pena, que é agarrar em miúdos com formação e fazerem mais castings com eles.

Quando falam dos atores pequeninos brasileiros e americanos, nós também temos. Nos Estados Unidos, eles têm teatro nas escolas como as nossas escolas de teatro e não como as escolas do ensino oficial. Aulas de teatro não é fazer uma peça, é trabalhar a voz, o corpo, a dicção, a memória, a criatividade… Só isso dá ferramentas para fazer uma peça final ou uma novela.

Os 'Morangos Com Açúcar' é das experiências por que tenho mais ternura

A Cultura era já um dos setores menos apoiados pelo Estado, como imagina que serão os próximos anos para a classe artística?

Deve ser a única situação em que não vejo o copo meio cheio, vejo o copo mais vazio. Os governos têm mudado e acho que isto não tem a ver com partidos. Ainda não se conseguiu perceber que a Cultura é fundamental. Nesta fase grave que estamos a viver, quem nos tem feito companhia são os atores, os bailarinos, os músicos. É a Cultura que nos faz companhia e sem ela este mundo é uma tristeza. Por isso, acho urgente que comecem a dar valor e importância à Cultura.

Terminou recentemente uma digressão especial com Diogo Infante e Patrícia Tavares. Foram partilhados vários momentos divertidos de bastidores. Ao longo do seu percurso fez grandes amigos?

Sim, muitos. Como profissional, comecei com 16/17 anos, tenho feito muitos amigos no Teatro. Vivemos muito intensamente quando estamos a trabalhar. Temos dois meses de ensaios intensivos com as mesmas pessoas, vamos para o palco todas as noites, fazemos digressões de um ano, viajamos… Só consigo fazer teatro com pessoas que amo muito.

O ator é um ser muito sensível e a maior parte dos atores é muito insegura. Há um medo enorme de errar, eu sou [insegura]. Aprendi muito com o Ruy de Carvalho e com a Eunice Muñoz, eles continuam a dizer que aprendem todos os dias e que têm sempre medo do dia da estreia. E é verdade, eu percebo. Cada ano que passa e cada espetáculo que vem, é uma responsabilidade. Estou numa fase em que sei que ainda vou errar muito.

Qual foi o papel mais controverso que fez?

Foi mais em teatro, já fiz de prostituta... Mas em televisão - até foi dos papéis mais pequenos que fiz -, foi numa novela com o Tozé Martinho, em que era amante dele. Uma amante que lhe queria roubar o dinheiro todo. Todos os papéis foram desafios grandes, talvez o único que não tenha sido foi o último que fiz em novela porque foi quase uma figuração especial. Não tinha grande margem de manobra, não tinha muita história.

Os 'Morangos Com Açúcar' é das experiências por que tenho mais ternura. Ainda há pouco tempo acho que passaram outra vez e há muitos miúdos pequeninos que me identificam como a professora Constança.

Não amo apresentar. Acho que tive esses três presentes, mas temos apresentadores maravilhosos

O que é que ainda não fez que gostava de fazer num futuro próximo?

Acho que já fiz um bocadinho de tudo. A nível de desafio, talvez mais teatro. Eu, o Diogo Infante, a Maria Henrique e a Patrícia Tavares estávamos para fazer uma peça que era 'As Criadas', que já foi adiada por duas vezes por causa da Covid. É uma peça que quero muito, mas de que tenho muito medo.

Gostava de apresentar um programa, por exemplo?

Já apresentei vários. Fiz o 'Tudo às Escuras', que era um programa inglês. Diverti-me imenso na altura, mas, quando ia gravar o último episódio, um senhor muito querido disse: 'Rita, não me leve a mal, ontem vi o seu programa, tenho acompanhado o seu percurso em teatro, e olhe acho que não tem necessidade nenhuma de fazer aquele programa. Não gostei nada'. Deu-me imensa vontade de chorar. Tive reunião nesse dia, para fazer mais 13 episódios, e por causa do que o senhor me disse não aceitei fazer.

Depois apresentei as 'Mulheres de A a Zé' e fiz as manhãs da TVI, fui substituir a Sofia Alves. Fui como convidada e o José Eduardo Moniz pediu-me para apresentar nesse dia, lembro-me que fiquei em pânico. Fiquei três meses a apresentar até vir o Manuel Luís Goucha.

Não amo apresentar. Acho que tive esses três presentes, mas temos apresentadores maravilhosos.

Quando olha para o futuro, o que vê?

Vejo coisas boas. Espero ser avó e espero continuar a fazer Teatro. Cada vez mais as pessoas vão ao Teatro. Quero acreditar que o Teatro terá um bom futuro - não com o apoio do Estado, mas com o apoio do público.

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