retrato de natal
créditos: Miguel Ribeiro Fernandes

Como era o Natal da infância?

Eunice Muñoz – Era a grande festa da família. Éramos muito unidos e vivemos durante anos todos juntos. É uma data que me traz sempre boas lembranças, sorrisos e ternura. Gente meiga, que amava a vida, todos eles. Foram bons exemplos que tive.

Ruy de Carvalho – Sou filho de um casal de viúvos. Tinha irmãos dos dois lados, eu era o pequeno que apareceu. Só passei um Natal com eles, fui para África com o meu pai em comissão de serviço e aí tínhamos um Natal triste, sem família. Quando voltámos, reuníamo-nos de novo neste dia.  Casei-me e a minha mulher – que é do Funchal – adorava esta época festiva. Fazia a sua lapa (petisco madeirense) e tínhamos um Natal muito feliz.

Qual a melhor recordação que vos vem à memória?

R.C. – Há momentos bonitos na minha vida. Uns em que há uma felicidade enorme no nosso trabalho e outros em que vivemos essa felicidade com a família. Pertencemos a famílias bonitas. A nossa outra parte é muito saudável. Somos dois cidadãos normais, muito ao lado das pessoas. Com uma qualidade: temos jeito para representar. Ela até já tem talento.

E.M. – Ele tem um certo jeito, faz o possível, coitado. (risos)

R.C. – O talento é uma coisa que se constrói com a vida. Há momentos em que desesperamos, andamos à procura e esses são os tempos tormentosos que temos. É quando se quer encontrar uma personagem e ela não vem. Um dia dá-se o clique e ela aparece.

Uma personagem que os tenha marcado…

R.C. – O momento mais belo da minha carreira chama-se “Render dos Heróis”, de José Cardoso Pires. Fazia de cego e representava o povo português. É cego quando quer, e vê quando lhe apetece. Essa personagem marcou-me muito.

E.M. – Há vários papéis pelos quais me apaixonei: “Mãe Coragem”, “Zerlina”, a protagonista de “O Caminho para Meca”, encenada por João Lourenço.

A Eunice assumiu que transporta as agruras da vida para o palco...

E.M. – Sim, sim. Temos que usar tudo o que nos rodeia.

R.C. – Somos observadores da vida e de comportamentos vários. O Iago de Otelo, por exemplo, era um cínico simpático, um amor, mas um fi lho da mãe. Temos que observar tudo: a forma como as pessoas interagem no elétrico, no autocarro, como pegam no garfo, como mexem no dinheiro. Tudo é trabalho.

O Ruy disse que gostaria de ser jovem como Peter Pan. Há em ambos uma juventude inata. Ser jovem é um modo de vida?

R.C. – Temos de ser jovens até morrer. Tenho 18 anos por dentro e 90 por fora. Mas ter 18 por dentro é o que me anima para trabalhar. E como tenho 18, posso entrar em qualquer parte, sou adulto.

Até pode ir ao casino…

R.C. – Ao casino não vou. Tenho pena de gastar o dinheiro no jogo. Prefiro gastá-lo num bom livro, num passeio pelo mundo, num cruzeiro, ou a conhecer o nosso país que é tão bonito. Está todo queimado neste momento, mas mesmo assim é tragicamente bonito.

A Eunice também não se sente com 89 anos. Qual é o segredo?

E.M. – É a minha natureza. É não ter coisas negativas dentro de mim. Não ter raiva de ninguém. Fico muito contente com o sucesso dos meus colegas na televisão ou quando vou vê-los ao teatro. Vou muito ao teatro ver os jovens. Tenho grandes satisfações a ver os progressos que eles fazem. Há muita gente nova com bastante qualidade. É uma alegria e uma esperança.

Continuar em palco pode ser considerado uma espécie de elixir da juventude?

R.C. – É o nosso recreio espiritual. A nossa profissão tem um bocadinho de sacerdócio e de professor. Representamos fi guras, boas ou más. Ou assim-assim. Mostramos às pessoas como reagem as personagens. A tal procura que fazemos na vida, está aí.

É um privilégio fazer o que se gosta…

R.C. – Claro que sim. A cultura é a grande riqueza de um povo, e fazer parte dela honra-nos muito. Parece que há um acordar dos portugueses para os novos artistas que vão aparecendo e escolhem ser atores de teatro, o que não é fácil. Vamos sendo acreditados como pessoas, isso deixa-me feliz. Antigamente julgavam que éramos apenas boémios, não estudávamos e só fazíamos poucas-vergonhas. É mentira, não temos tempo para isso.

E.M. – Há aquela história que conta o João Perry... Um homem dizia, em tom de crítica: vocês quando saem do teatro vão para aqui, para ali, vão cear. Ele respondeu: quando sai do emprego vai-se deitar? E o tal homem respondeu: claro que não. Então connosco acontece o mesmo. (risos).

Têm horários diferentes... 

E.M. – É muito raro jantarmos. Temos que comer coisas leves. Para podermos respirar à vontade, temos de nos sentir leves.

Qual o segredo para se sentirem felizes?

E.M. – Penso que tem a ver com o facto de não querer mal a ninguém, não fazer mal às pessoas. Sinto que não prejudiquei ninguém.

R.C. – Sabermos que contribuímos para a felicidade do nosso povo. Tenho andado com as pessoas que têm sofrido nos fogos. Tenho ido acarinhá-las e dar-lhes a minha amizade.

Já que me veem na televisão e no teatro, tenho a obrigação de lhes ir agradecer.

E.M. – O Ruy teve este gesto tão bonito agora por causa dos incêndios.

Que cuidados especiais têm convosco?

E.M. – Tenho cuidado com a alimentação, sem fazer esforço nenhum, porque dada a minha idade não como muito. Bebo o meu vinho tinto sempre às refeições, isso não dispenso. Já agora, passo a publicidade à Amareleja, tenho bebido o vinho da minha terra.

R.C. – Tem uma boa pinga, tem. Eu bebo água, não me dou com o vinho. Mas não faço nada de especial. Chego aos 90 anos não vou deixar de comer o que gosto. Também não vou abusar da comida. Hoje almocei uma sopa e fruta. Só. Agora vou jantar caril.

E desporto?

R.C. – Não tem ideia do esforço físico que um ator faz. Imagine o que é fazer uma "Mãe Coragem", uma "Zerlina", a ginástica que obriga a fazer.

E.M. – Já fi z ginástica com um personal trainer. Fiz até há pouco tempo. Agora a minha preocupação é andar. Faço pelo menos um quilómetro por dia.

R.C. – E anda, anda bem. Tem muito prazer em andar. É bonito vê-la andar por aqui. Vai mais para o lado de terra do que para o lado do mar. Eu faço muitos quilómetros, mas mais de automóvel. Mas também ando, sei que é preciso andar porque precisamos de nos mexer.

E.M. – Para mim é mais fácil andar, porque deixei de conduzir. E ele como continua a conduzir, a tentação é maior.

Texto de Maria João Veloso

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