Inês Meneses tem há 17 anos um dos programas de entrevistas mais conceituados da rádio nacional - o 'Fala com Ela', da Antena 1. Porém, desta vez, foi a radialista quem, generosamente, aceitou colocar-se no papel de entrevistada para uma agradável conversa com o Notícias ao Minuto.

'O Coração Ainda Bate', nome do seu novo livro, é o ponto de partida para uma viagem que passa pela infância, o início da paixão pela rádio, a história de amor com Tozé Brito e até pela marcante entrevista a Paula Rego.

Com a mesma linguagem íntima e certeira que usa nos seus textos, Inês Meneses reponde às nossas questões e fala-nos de tudo o que (ainda) faz o seu coração bater.

Decidi que as primeiras 40 crónicas fariam sentido em livro [...] e pronto… O coração está a bater

'O Coração Ainda Bate' dá nome às crónicas semanais no jornal Público, a um podcast e agora também ao seu novo livro. Porque é que a Inês escolheu dar este nome ao projeto?

O nome nasce de um filme que vi há muitos anos, 'De Tanto Bater o Meu Coração Parou', e fiquei sempre com esse título na cabeça. Comecei a escrever estas crónicas para o jornal Público já em cenário de pandemia, nesse mesmo período aconteceram várias mortes e desgostos, dei por mim a pensar: apesar de tudo, o coração ainda bate. O coração bate sempre no meio de tudo o que vivemos e com tudo o que temos para enfrentar. É uma ideia quase otimista de dizer ainda estamos aqui, o coração ainda bate. E porque o coração é uma palavra tão simples e tão forte. Para mim encaixa tudo e gosto quando há algo que se cria e tudo encaixa, foi o que aconteceu neste caso. Comecei a escrever as crónicas em dezembro do ano passado e, de repente, tudo encaixava.

Decidi que as primeiras 40 crónicas fariam sentido em livro para quem não ouve o podcast ou não tem acesso ao Público, e pronto… O coração está a bater.

A ideia de fazer o podcast surgiu assim que começou a escrever as primeiras crónicas?

Surgiu porque para mim fazia sentido dar voz à escrita. Parece uma coisa narcisista, mas não é. Quando escrevo está sempre lá a minha voz, é como se escrevesse para contar de viva voz e, portanto, comecei logo a gravar a crónica. E tem bastante impacto, porque é uma coisa que aproxima mais as pessoas. Foi algo que surgiu logo de início.

Que textos são estes que fazem o coração bater e que agora estão também em livro?

São sempre coisas que vivi, que observei, coisas que me causaram mais dor do que alegria. Acho que é mais fácil escrever sobre coisas tristes do que felizes, as felizes estão cá bem resolvidas. É como as canções de amor, as que têm maior impacto são as que contam uma história triste, sabe-se lá porquê… Se calhar a nossa natureza é masoquista. É mais fácil relatar uma coisa potencialmente triste do que uma feliz.

Mergulho muito na infância, começo com as histórias passadas no sítio onde cresci, as coisas da infância que foram tão marcantes e que nós só nos apercebemos mais tarde se quisermos fazer esse exercício. A maior parte de nós, a não ser que tenhamos passado por algo traumático, não pensamos muito na infância. Um dia, na terapia, aprendi que as coisas da infância explicavam muito mais do que pensamos ou queremos pensar. Neste processo da escrita deu-se esse feliz reencontro com a miúda que fui. Há muitas crónicas da infância, tem sido uma experiência catártica porque não é pensada. O livro fala muito da infância, da adolescência e depois há crónicas que resultam também da observação.

Notícias ao Minuto

Capa do livro 'O Coração Ainda Bate'© DR

As pessoas escrevem-me muito a dizer que podiam ter sido elas a escrever estas crónicas. Há um fenómeno de identificação

A pandemia ganha importância neste projeto por ter servido de inspiração ou por ter-lhe dado o tempo necessário para o fazer acontecer?

A pandemia fixou-me a mim e a muitos de nós em casa e também me fez pensar de outra forma, especialmente durante os dois confinamentos, cada saída à rua era revestida de uma carga diferente das anteriores. Há uma crónica que fala, por exemplo, de uma coisa tão simples como isto: um casaco que estava numa montra e tinha sido deixado antes do confinamento, era quase uma representação do que estávamos a viver, e durante semanas a fio lá estava o casaco. Pensava, feliz o dia em que eu passar e aquele casaco já não estiver na montra, é sinal que alguém o mudou com a esperança de voltarmos à vida normal. Pequenos detalhes fazem grandes histórias e é o meu olhar que está aqui em cada uma delas.

Qual tem sido o feedback de quem a lê e ouve?

As pessoas identificam-se muito, tenho tido um feedback muito positivo de identificação. É uma linguagem que fala de pequenos episódios que relataram momentos mais tristes e com as quais as pessoas se identificam imenso. Essa linguagem, chamemos-lhe da dor, é uma linguagem universal. As pessoas escrevem-me muito a dizer que podiam ter sido elas a escrever estas crónicas. Há um fenómeno de identificação e isso deixa-me muito feliz, porque quando escrevemos é para os outros. A escrita é uma forma muito direta de chegar ao coração das pessoas.

Foi na infância, que agora recorda nas suas crónicas, que descobriu a paixão pela rádio?

Foi na adolescência, com 16 anos. Estava longe de pensar que iria parar à rádio, mas o meu irmão, que é jornalista, um dia virou-se para mim e disse: acho que tens uma boa voz e devias experimentar a rádio. Na altura, ele estava numa rádio local, uma rádio pirata, e eu nem hesitei sequer… Fui logo para o microfone, sem ensaios, sem nada, fazer noticiários. E nunca mais parei, até hoje.

No fim da entrevista, fui com a Paula Rego buscar a minha filha ao infantário

São a rádio e a escrita que fazem o seu coração bater?

Muito. Gosto imenso de trabalhar, de me manter ativa e estar sempre a pensar em coisas novas para fazer. Isso faz o meu coração bater, a rádio, chegar às pessoas, a escrita... Mas depois é a minha família que faz o meu coração bater mais.

A Inês tem há mais de 15 anos o programa de entrevistas 'Fala com Ela', agora na Antena 1. Depois de tanto tempo no ar, ainda consegue surpreender-se com os seus convidados?

Todas as semanas, porque as pessoas são sempre muito surpreendentes. Nós, às vezes, achamos que as pessoas não têm história nenhuma para contar e isso é muito injusto. Na verdade, fascino-me sempre a cada semana com pequenos pormenores, uma expressão, há sempre qualquer coisa que me fica e faz toda a diferença e que me faz sentir que ganhei o dia e fiquei mais rica como pessoa. De convidados mais inesperados saem as conversas mais surpreendentes. As pessoas quando partem com vontade de partilhar faz toda a diferença. Eu parto para cada entrevista, todas as semanas, com o mesmo entusiasmo de há 17 anos. Para mim é sempre o mesmo entusiasmo, nunca se esgota.

Calculo que sejam 17 anos de muitas histórias...

Muitas, sim.

Qual é para si a história mais marcante que já viveu no 'Fala com Ela'?

Costumo dar o exemplo da Paula Rego porque, primeiro, não é uma pessoa que dê muitas entrevistas e também pela relevância dela culturalmente. Já foi há muitos anos e eu não estava nada à espera de a entrevistar, foi-me proposto e ela exigiu conhecer-me primeiro para saber se valia a pena dar a entrevista ou não. Houve uma série de detalhes que fizeram dessa entrevista um encontro especial. Foi no primeiro dia de infantário da minha filha, o primeiro dia em que me separei dela, lembro-me porque foram duas coisas juntas muito fortes. No fim da entrevista, fui com a Paula Rego buscá-la ao infantário e foi muito surpreendente ver a reação da minha filha. Ela não sabia, evidentemente, quem era, mas a Paula Rego tem aqueles olhos muito expressivos. A minha filha entrou no carro, viu-a e fez um ar quase de espanto. Depois foi muito engraçado porque o infantário era ali junto à Galeria 111, que representa a Paula Rego... Mais uma vez tudo se encaixou. As duas fazem anos no mesmo dia, a Paula Rego e a minha filha, e a minha filha tem um talento incrível para o desenho. Foi um encontro muito especial, aliás, está na minha parede ainda hoje uma fotografia que tirámos à Paula Rego nesse dia quando a fomos levar a casa. Mais tarde entrevistei o filho da Paula Rego, o Nick Willing, que realizou um documentário sobre a mãe, e pude contar-lhe esta história.

É uma história cheia de ramificações, que marcou muito o 'Fala com Ela', porque também fez com que o programa chegasse a mais gente. As pessoas foram ouvir aquele programa porque estava lá a Paula Rego, isso levou a que muitos começassem a ouvir e acho que, hoje em dia, as pessoas ouvem os convidados mais e menos conhecidos.

Não faço um programa de uma hora para engraxar, faço porque quero

Há algum convidado que a tenha deixado particularmente desiludida por não ter corrido como esperado?

Há muitos anos que não. No início, talvez, também eu não estivesse tão preparada como isso. Os anos ensinaram-me que tem de haver uma empatia de parte a parte, há pessoas que repito muitas vezes porque são pessoas que me dão sempre conversas. Nos últimos largos anos ninguém me desiludiu, porque não só eu me empenhei, como a própria pessoa sabe ao que vem.

Numa altura em que a oferta de programas é cada vez maior, o que torna o 'Fala com Ela' tão único para que continue a resultar depois de todos estes anos?

De facto, hoje em dia, há imensos programas, imensos podcasts. Quando o programa começou não havia e, no entanto, ele continua a ser muito ouvido, muito mais agora do que era no início. Acho que é a verdade do momento que o torna mais especial, a entrega, ambas as pessoas quererem entregar-se. Eu que quero absorver tudo daquele momento e as pessoas que cá vêm também querem dar de si, cria-se uma partilha verdadeira. Não faço um programa de uma hora para engraxar, faço porque quero, porque há vontade. Nem ninguém vem fazer um frete, nem eu estou a fazer um frete.

O casamento com Tozé Brito? Como é uma historia feliz, não me vejo a escrever sobre, mas ela tem contornos muito especiais

Recentemente, em novembro de 2021, estreou-se como produtora executiva de um álbum que calculo seja muito especial - 'Tozé Brito (de) Novo'. Esta foi uma 'aventura' diferente para si?

É diferente e não é. Não é muito diferente porque sempre estive ligada à música na rádio. Estando agora casada com o Tozé Brito, queria muito que as canções dele chegassem a outros públicos. Queria que as canções dele chegassem ao público que não o conhecia tão bem ou então que não associava o nome dele àquelas canções, como autor. Então comecei a organizar um tributo, escolher canções, escolher os intérpretes e, no fundo, depois foi convidar o Benjamim e o João Correia, que foram os produtores musicais, e mergulharmos profundamente neste álbum.

Limitei-me a ter a ideia, a querer fazer esta homenagem ao Tozé Brito para os 70 anos dele e pronto, o disco deu-se.

E correu como esperado?

Acho que sim, eu fiquei muito satisfeita, mas só o público pode responder a isso.

Haverá brevemente outros projetos relacionados com este disco?

Para já acho que ainda é muito cedo, ainda estamos a absorver este projeto. Mas quem sabe um volume dois, ou três, ou uma coisa diferente ligada à música. Sempre trabalhei na rádio muito apaixonada pelas canções e pela música em geral. O importante é não pararmos, seja a escrever ou a fazer rádio. O importante é estarmos ativos e fazermos coisas que gostamos.

A sua história de amor com o Tozé Brito [com quem casou em novembro do ano passado] poderá no futuro servir-lhe de inspiração para as crónicas de 'O Coração Ainda Bate' ou, quem sabe, para um próximo livro?

Não, porque, como eu disse no início, gosto muito mais de escrever sobre coisas menos felizes.

Nesse caso, esperemos então que não lhe sirva de inspiração.

Sim [risos]. Como é uma história feliz, não me vejo a escrever sobre, mas ela tem contornos muito especiais, o facto de nos termos conhecido no Festival da Canção, de ter sido o ano do Salvador Sobral, a única vez em que ganhámos a Eurovisão, o Tozé estar muito ligado ao Festival da Canção, ter ido à Eurovisão algumas vezes.

E também o facto de a Inês ser fã do Tozé Brito há muitos anos...

Sim, sim, claro. É uma história com muitas nuances interessantes, mas não para a escrita. Esta escrita é outra, acho, é uma escrita do detalhe que depois não parecendo pode dar uma grande história. Agora, eu própria fico à espera de me dedicar a uma grande história que seja um romance, esse deve ser o próximo passo. Embora continue a escrever estas crónicas todas as semanas, quero muito escrever um romance.

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