Frescura, energia, química e boa disposição é o que promete, de segunda-feira a sexta-feira, entre as 07h00 e as 10h00, o novo projeto matinal da Rádio Renascença, estreado há pouco mais de uma semana. Ana Galvão, Carla Rocha e Joana Marques apresentam "As três da manhã". No âmbito do Dia Mundial da Rádio, que hoje se assinala, fomos perceber, entre risos e (muitas) gargalhadas, como funciona este formato pioneiro em Portugal.

O programa arrancou no dia 4 de fevereiro. Que balanço é que já conseguem fazer destas primeiras emissões?

Ana Galvão: Somando tudo, acho que fazemos um balanço positivo. O entrosamento entre nós as três está melhor. Isto é como as pessoas que acabam de ficar amigas e que, aos poucos, vão apanhando os tiques de cada uma. Já vou percebendo, quando a Carla olha para mim de determinada forma, se é para me calar ou se é para falar.

Como em todos os programas, há sempre aquele balanço para as primeiras avaliações. "Nós tínhamos pensado nisto mas, se calhar, não resulta ou vamos implementar aquilo porque se calhar resulta melhor"… Estas coisas também se vão fazendo nestas primeiras semanas. Vamos afinando pormenores…

Porquê três mulheres e porquê vocês as três?

Ana Galvão: A Carla e eu já estávamos aqui na Renascença. Ela chegou antes de mim e fazia as manhãs, brilhantemente. E eu fazia as tardes. Fizemos, também, algumas coisas juntas nos últimos meses. Fizemos algumas emissões em conjunto durante o fim de semana e o Pedro Leal [diretor-geral de produção da rádio] pensou "Por que não juntar a Carla e a Ana e fazer um programa?".

Ele é, também, muito fã da Joana Marques e pensou "Por que não trazê-la também?". Pensou que seria realmente único ter um programa na rádio nacional conduzido apenas por mulheres. Podiam não ser apenas mulheres, podiam ser homens… Isto tem a ver, não com sermos mulheres, mas apenas pessoas que trabalham na rádio, que adoram a rádio e não tem, de todo, uma conotação feminista.

Carla Rocha: Até porque a Ana tem uma costela muito masculina…

Joana Marques: Uma, não… Várias! Passa a emissão toda a dar-me cotoveladas. Estou aqui com o braço todo negro…

Ana Galvão: E, quando deixar de fazer o bigode, vão ver como é que é… Não é uma coisa sexista, de todo! Mas não deixa de ser especial e único. Os programas de rádio são sempre homens e uma mulher que apenas ri ou um homem e uma mulher e, às vezes, parece que tudo é permitido aos homens. Dizem tudo em rádio e as pessoas acham graça. Acho que é-se muito mais censurado quando é uma mulher a dizer.

Joana Marques: Mas não é só em Portugal! Lembro-me que, quando há uns anos, numa outra rádio, fizemos uma emissão, num modelo holandês, em direto por uma série de horas durante três dias, os holandeses que vieram cá implementar aquilo ficaram muito espantados porque nós éramos duas mulheres e um homem.

Na Holanda, eram só homens a fazê-lo. Achámos aquilo estranhíssimo, ainda para mais vindo de um país como a Holanda, que nós achamos progressista. Se calhar Portugal, neste caso, pode ser um exemplo para o resto da Europa.

Carla Rocha: Esta questão do género não se coloca. O mundo está a mudar. Há uns anos, tive um programa com o José Coimbra onde havia uma rúbrica que se chamava "Guerra dos sexos". Agora, olho para trás e, nos dias de hoje, já não fazia tanto sentido ou mesmo nenhum um programa onde mulheres debatiam assuntos e faziam perguntas aos homens sobre o universo feminino e vice-versa. Hoje, tudo já se esbate muito…

Ana Galvão: Nem falamos forçosamente de questões de mulheres só porque estamos três mulheres em estúdio.

Joana Marques: Falamos é de questões das nossas vidas e, por acaso, somos mulheres e pode acontecer que, às vezes, se ponha uma questão que outras mães também tenham, por exemplo, mas que outros pais também terão.

O que é que cada uma das três traz ao programa?

Carla Rocha: Eu trago a responsabilidade, o rigor, a disciplina…

Ana Galvão: O respeito pelos tempos…

Joana Marques: A Carla é uma espécie de professora. A turma não pode ser deixada sozinha. Quando a professora, entra fica tudo em sentido. Isto implica muita organização, há muita coisa durante três horas. Nada pode falhar!

Tem que ser tudo muito organizado e, se nos deixassem às duas [Ana Galvão e Joana Marques], era perigoso porque facilmente nos descontrolaríamos nos tempos. A Carla parece uma controladora aérea e, nesse aspeto, traz um lado muito mais organizado do que nós.

Ana Galvão: Se não fosse a Carla, não dava tempo para nada…

Carla Rocha: Se não fosse eu, acho que este programa só tinha a Ana e a Joana a conversar durante 59 minutos e 30 segundos em cada hora mas eu também sou muito aparvalhada…

Ana Galvão: Do ponto de vista do esquema de emissão, é claro que tem que haver, como em todos os programas, uma pessoa que controla os tempos, que sabe a que horas entram as notícias… Temos muita coisa e é incrível porque, dentro da participação super ativa connosco e em tudo o que estamos a dizer, a Carla está, ao mesmo tempo, a controlar tudo aquilo que tem que acontecer para que tudo caiba no programa.

Carla Rocha: Mas, para além deste papel, sou mãe de família, tenho dois filhos, viajo muito, tenho outras ocupações fora da rádio e acabo por ser aquela pessoa que prova que o dia se consegue esticar…

Joana Marques: E sempre com boa cara, isso é que é impressionante!

Carla Rocha: A Joana traz esta personagem que ela já criou, de ser extremamente desagradável…

Ana Galvão: Apenas numa semana, ela já arranjou problemas com os enfermeiros, com o Miguel Sousa Tavares, com a Rita Pereira… Mas ela mete-se muito connosco enquanto estamos no ar. Está sempre a pôr-nos à prova!

Joana Marques: Eu vim para destabilizar um bocadinho. Sabia que elas iam fazer um programa bastante digno e vim estragar um pouco. Falta o papel da Ana Galvão, que estamos todas a tentar perceber qual é… A Ana traz-nos o lado meio doido que tem, seja em estúdio, seja fora dele.

Com a revolução tecnológica dos dias de hoje, como é que veem o futuro da rádio?

Ana Galvão: Eu vejo muito bem. Acho que a rádio está com uma força tremenda. Acho que é mais ameaçador para a televisão. A rádio tem tudo o que a televisão apresenta, de uma maneira diferente obviamente. Ainda muito instituída. Acho que não temos assim tanto a perder. Hoje em dia, o que acho é que se exigem menos programas padronizados e menos rádio padronizada.

Exige-se mais que se criem personalidades em rádio, o que vai fazer com que o público se una emocionalmente àquele apresentador e tenha mais vontade de o ouvir. Acho que se tem que trabalhar mais isso mas, trabalhando isso, não vejo nenhum perigo para a rádio.

É um daqueles meios que podem acompanhar-nos a fazer tudo. A conduzir, a fazer as tarefas de casa, na bomba de gasolina… Em qualquer sítio, podemos ligar o rádio e isso dá-nos sempre um momento de existência na vida das pessoas.

Carla Rocha: A rádio tem-se reinventado ao longo do tempo. Eu comecei a fazer rádio com 15 anos, faço rádio há 30 anos e, se disser que já me disseram uma dezenas de vezes que a rádio ia acabar, não estou a exagerar. A rádio está sempre para acabar mas nunca acaba e ainda sai melhor. Da minha experiência do passado, a rádio é um meio fantástico, com muita criatividade.

Joana Marques: Consegue usar bem todos os outros meios que tem à disposição. Acho que até teve mais facilidade em adaptar-se à internet do que, se calhar, a televisão, que é uma máquina mais pesada.

Eu anseio com o dia em que a rádio importa da televisão aquela capacidade de puxar atrás. Às vezes, dou por mim no carro a tentar fazer isso. Talvez seja possível em breve. Não deve ser uma tecnologia assim tão complicada. Uma espécie de box para ter no carro…

Ana Galvão: É que a televisão nunca poderá ser rádio, porque há momentos parados, há só imagem. Se não vires a televisão, não percebes o que se está a passar, mas a rádio pode sempre ter imagem e ser imagem e ser televisão e isso é uma super mais-valia.

Esta evolução, que vai no sentido oposto ao que muitos vaticinaram noutras épocas, vem contradizer completamente aquela máxima que os Buggles cantaram em 1979, há precisamente 40 anos, quando lançaram a canção "Video killed the radio star"…

Carla Rocha: Isso já passou… Isso foi uma das falsas vezes em que disseram que a rádio ia acabar porque a televisão passaria a ocupar o seu lugar. O mundo muda e o que ontem foi verdade amanhã já está completamente fora da realidade…

O que é que costumam fazer a seguir ao programa?

Ana Galvão: Elas as duas trabalham muito mais do que eu a seguir ao programa.

Joana Marques: É verdade, é bom que isso fique registado! De uma maneira geral, trabalhamos mais e somos mais profissionais… Depende dos dias da semana! Eu até sou organizada, não tanto como a Carla, mas consigo organizar bem o tempo fora do programa.

O mais normal é seguir daqui para Queluz, onde escrevemos o programa do Ricardo Araújo Pereira, onde também sou guionista, e passar as tardes lá. Divido o meu tempo pelas manhãs na Renascença e as tardes em Queluz e algumas passagens por outros sítios para a gravação, na SIC, do programa "Irritações". As minhas tardes são todas diferentes mas quase sempre a trabalhar. Infelizmente, gostava de poder dormir a sesta.

Ana Galvão: Quando ela diz trabalhar, é irritar alguém!

Carla Rocha: Eu tenho uma empresa. Para além da rádio, fundei uma academia de comunicação chamada Academia Fale Menos Comunique Mais e, quando acabo o meu dia na rádio, vou para a empresa ou tenho clientes que querem comunicar melhor. Portanto, tenho o dia todo ocupado…

Ana Galvão: Eu, depois disto, vou para a praia. Vou passear o meu cão. E, depois, telefono-vos para saber como está a correr o vosso dia de trabalho.

Ouvem sempre rádio?

Joana Marques: Sim, sempre. Muitos podcasts! O meu marido queixa-se. Diz que ando sempre com uma voz atrás pela casa porque oiço-os no telemóvel e, então, ando sempre com podcasts [ficheiros com conteúdo semelhante ao de um programa de rádio, que podem ser descarregados da internet e lidos em diferentes dispositivos] atrás de mim pelas várias divisões, porque a rádio tem esta coisa de poder acompanhar todas as tarefas.

No carro, oiço sempre. Em casa, ouvia muito, mas mudei um bocado. É rádio na mesma. Todas as rádios têm os seus formatos em podcast e, depois, há também aqueles podcasts independentes que as pessoas fazem a partir de casa, o que é um fenómeno muito interessante. Há cada vez mais e são, cada vez mais, profissionais.

Ana Galvão: Eu também oiço bastante rádio. Ponho-a tocar pela casa! Traz-me saudades daquelas casas de antigamente que tinham o rádio sempre ligado na cozinha e eu tenho muito isso. Tinha-se sempre a rádio ligada!

Joana Marques: Era um bocado como a televisão agora, que as pessoas têm como pano de fundo. Não a estão a ver. Está só ligada…

Vocês as três, aparentemente, vêm contrariar a ideia de que as mulheres se dão mal, que não são unidas e que há sempre problemas quando trabalham juntas…

Ana Galvão: Essa é uma ideia tão feita… Eu trabalhei sempre com mulheres e nunca tive nenhum problema. Claro que tive os problemas normais que poderia ter com qualquer outra pessoa mas a minha experiência sempre me disse que isso não faz sentido nenhum. Isso de que nos damos mal é muito mito…

Joana Marques: Eu nunca tive essa experiência. Acredito que haja quem tenha e há muito essa ideia feita mas nunca constatei isso em lado nenhum… Em nenhuma altura da minha vida senti isso!

Carla Rocha: A minha empresa tem cinco mulheres e um homem. Todas nos damos bem. É uma questão de transparência…

Joana Marques: Acho que terá mais a ver com o feitio das pessoas do que uma questão de género. Também há homens que gostam muito de intrigas…

Ana Galvão: Isto está a mudar tanto! Em casa, somos diferentes e esperamos coisas diferentes uns dos outros e a atitude entre todos e também entre os géneros está a mudar completamente. Acho que é muito mito. De todas as formas, nós damo-nos todas bem… Por enquanto!

Carla Rocha: Por acaso, damo-nos bem, sim. Está uma equipa muito gira!

Em termos da vossa personalidade e do vosso profissionalismo, que mais-valia trouxeram para este novo programa da Rádio Renascença?

Carla Rocha: Frescura.

Joana Marques: Energia.

Ana Galvão: Eu estava sozinha à tarde e agora percebo o quão sozinha estava. Quando há um grupo maior, há muita energia. Umas pessoas contagiam as outras…

Carla Rocha: Química.

Joana Marques: As pessoas ouvem-nos e veem-nos mais a nós e aos jornalistas que vão entrando na emissão mas há toda uma equipa espantosa que tem sempre tudo pronto e que é sempre tão entusiasta, que traz as suas próprias ideias… Isso é bom! Não temos que estar aqui a remar sozinhas. Assim, o barco segue mais rápido…

Ana Galvão: Para além disto tudo, é sobretudo o que já acontecia na manhã da Renascença com a Carla. Falamos dos temas que importam, não só dos mais sérios como dos menos sérios, porque se abordam todos os dias questões que tocam na vida das pessoas e que têm a ver com a política, com a economia...

Nós estamos ali também para desconstruir um pouco isso e mostrar de que maneira é que essas coisas, que nos parecem tão longínquas, nos tocam a todos. Mas muitas vezes de uma maneira mais leve e descomplicada…

Carla Rocha: Não deixamos de ser uma rádio com muita informação e muitas notícias, que ganha prémios pela credibilidade da informação que produz…

Ana Galvão: Não deixamos de ser uma rádio de informação mas é uma maneira interessante de estarmos as três, de convivermos e de termos conteúdos. Temos sempre muitos conteúdos e entrevistados e, depois, falamos todas. Cada uma tem o seu momento para expor aquilo que pensa, a sua opinião ou uma história da sua vida e, para além disso, temos esta parte da informação, que tentamos explicar e desconstruir diariamente.

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