Os próximos meses vão ser de trabalhos nos jardins e no edifício do Palácio Nacional de Queluz. A Parques de Sintra-Monte da Lua, empresa que gere o espaço, arrancou em janeiro com as intervenções necessárias para a recuperação daquele património. O projeto, que representa um investimento global de cerca de 2,8 milhões de euros, inclui a recuperação das fachadas, das cantarias, dos vãos e das coberturas do palácio, a par da revisão das infraestruturas de energia e comunicações, bem como a proteção contra descargas atmosféricas, o sistema de videovigilância, a ligação dos esgotos à rede pública e ainda a requalificação do piso térreo.

Inacabado desde a reconstrução após o incêndio de 1934, esse espaço será beneficiado para a disponibilização de uma cafetaria, auditório e espaço de apoio para eventos, naquele que é um dos palácios nacionais mais procurados para este efeito e que já acolheu personalidades como o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e os últimos reis de Espanha.«No que respeita aos jardins, cujas intervenções estão ainda sujeitas a apreciação por parte da Direção-Geral do Património Cultural, os projetos previstos abrangem a recuperação do Jardim de Malta», informa a empresa em comunicado.

O projeto abrange ainda «a reconstituição do jardim botânico, e ainda a recuperação da cascata, bosquetes e caminhos, a revisão e melhoria do sistema de águas (tanto ao nível das fontes, tanques e lagos, como da rega) e novas plantações para proteger as vistas de quem se encontra no interior do jardim». «O Palácio Nacional de Queluz e os seus jardins históricos constituem um dos exemplos mais extraordinários da ligação harmoniosa entre paisagem e arquitetura palaciana em Portugal, refletindo o gosto da corte nos séculos XVIII e XIX (período marcado pelo barroco, o rococó e o neoclassicismo)».

O estado de degradação que importa travar

Em 1934, o palácio foi alvo de um incêndio que o destruiu parcialmente, tendo sido feitas várias obras de reconstrução nessa altura. «O diagnóstico do estado de conservação do palácio e jardins, efetuado logo após a Parques de Sintra ter recebido a gestão do Palácio Nacional de Queluz (no final de 2012), confirmou o elevado estado geral de degradação do conjunto, devido à carência quase total de investimentos», pode ler-se ainda no documento enviado para as redações.

«Foram então analisadas as áreas a necessitar de recuperação, inclusive com o apoio de especialistas (nomeadamente da Direção-Geral do Património Cultural e do Instituto Superior Técnico), desenvolvidos/adaptados os projetos detalhados de intervenção e lançados os concursos para seleção das empresas de recuperação, no que respeita aos trabalhos no palácio. Arrancam agora os trabalhos no palácio, tendo como objetivo a sua conclusão até ao verão de 2015 (o que permitirá apresentar o palácio recuperado ainda durante a época alta) e terão também início este ano as intervenções nos jardins», informa a empresa.

As intervenções previstas poderão afetar ocasionalmente e execionalmente algumas das deslocações dos turistas mas nem o palácio nem os jardins serão encerrados. «Os trabalhos em causa não irão implicar em nenhum momento a interrupção dos percursos de visita, pretendendo-se, pelo contrário, de acordo com a política habitual de aberto para obras da Parques de Sintra, que os visitantes acompanhem o progresso das intervenções. Será portanto possível, dentro do respeito pelas regras de segurança, assistir aos trabalhos, bem como aceder a informação sobre os mesmos», assegura a empresa.

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As salas e os espaços que vão ser recuperados

As coberturas da Sala de Jantar e do Pavilhão Robillion/Sala dos Embaixadores, que inclui o quarto D. Quixote e o quarto da princesa Carlota Joaquina, as salas das Merendas, do Toucador, das Açafatas e dos Despachos e a Sala dos Embaixadores, espaços que não são intervencionados desde o incêndio. «A estrutura de suporte das telhas, composta por lajes aligeiradas de tijolos armados e argamassados, encontra-se em avançado estado de deterioração e será completamente substituída por madres e varas de madeira», acrescenta.

«Rever-se-á o sistema de drenagem de águas (cujos problemas atuais potenciam infiltrações), substituindo as caleiras, introduzindo uma nova janela de acesso às coberturas e melhorias na ventilação natural», informa ainda a empresa. Os tetos, de madeira, serão limpos por aspiração, alvo de tratamento curativo e preventivo (contra fungos e insetos xilófagos) e de verniz ignífugo para aumento da resistência ao fogo. «A intervenção será acompanhada da revisão das infraestruturas de energia e comunicações existentes nos sótãos», explica.

A nova cor das paredes exteriores

Outra das intervenções passa pela «substituição do sistema de proteção contra descargas atmosféricas, passando este a incluir dois novos para-raios, protegendo todo o palácio, em vez de apenas uma parte», refere o documento. Para a recuperação das fachadas, que ao longo dos tempos foram pintadas com cores e tons diferentes, foi realizado um aprofundado estudo e discussão, acompanhado de análises laboratoriais, investigação documental, desenhos e fotografias antigas, concluindo-se que o Palácio Nacional de Queluz era azul, cor que voltará a recuperar.

«Pretende-se, portanto, restituir a harmonia de cores nos alçados virados aos jardins, ensaiando materiais, técnicas e composições decorativas (molduras e fingimentos) numa das fachadas, que será depois avaliada para solução idêntica nas restantes. Relativamente à recuperação das cantarias, esta incluirá a remoção de fungos, o tratamento de juntas, bem como a consolidação e reposição de outros elementos. Também as janelas e portas das fachadas do palácio viradas aos jardins serão alvo de intervenção (tratando-se de elementos essenciais para a segurança e condições no ambiente interior), obedecendo a regras específicas, tendo em conta o edifício histórico em que se inserem», assegura a empresa.

A abertura de espaços encerrados ao público há quase um século

As intervenções no palácio não se ficam, contudo, por aqui. «Foi conduzida uma avaliação geral do estado de conservação, registando-se que as caixilharias apresentam problemas de conservação, por apodrecimento das madeiras, e também as ferragens e os gradeamentos metálicos das varandas estão em situação de degradação. Definiram-se as soluções técnicas a aplicar, tendo em conta critérios como o respeito pela autenticidade dos objetos originais e a compatibilidade com os materiais pré-existentes, substituindo-se apenas os que não seja possível recuperar por não incluírem matéria suficiente ou o estado de degradação ser demasiado elevado», refere a Parques de Sintra-Monte da Lua.

A intervenção de adaptação dos pisos térreos do Pavilhão Robillion e da Sala dos Embaixadores, fechados ao público desde a reconstrução após o incêndio de 1934, pretende que estes passem a funcionar como cafetaria, auditório e apoio a eventos. «Envolverá a instalação de uma zona de cafetaria aberta ao público em geral, com esplanada (incluindo elevador para acesso de pessoas com mobilidade reduzida), e outra para acolher eventos e conferências, garantindo desempenho e segurança mas conservando os elementos arquitetónicos e decorativos fundamentais do edifício, com o mínimo de alterações estruturais», revelam.

Veja na página seguinte: O sistema que vai melhorar a segurança interna do palácio

O sistema que vai melhorar a segurança interna do palácio

«Uma das salas deste piso dará lugar a um auditório polivalente e outra a um espaço de refeições, habilitando o palácio a receber eventos durante o período de abertura ao público», avança ainda a empresa. «A renovação do sistema de videovigilância, que integrará o sistema geral de CCTV da Parques de Sintra, incluirá neste local cerca de 50 câmaras digitais de alta resolução. Cobrirá todo o perímetro do palácio e dos jardins, integrando deteção de movimento e remoção de objetos no interior», explicam.

«Pretende-se assim garantir a segurança dos bens e visitantes, tanto no interior do palácio como nos jardins, bem como monitorizar incidências, garantindo auxílio em situações de emergência. Ainda no palácio, será executada a ligação da rede de águas residuais à rede pública de saneamento, eliminando as diversas situações atuais de escoamento para o Rio Jamor», informa ainda esta entidade.

Os trabalhos que vão marcar os jardins

Além da iluminação das fachadas e dos jardins com tecnologia LED, o jardim botânico e o Jardim de Malta serão também alvo de intervenção, com vista à recuperação da sua estrutura e composição original enquanto jardins setecentistas. «Para tal, foi analisado o enquadramento histórico e o contexto dos jardins europeus da época (nomeadamente o traçado), bem como toda a evolução que sofreram até à atualidade. Procedeu-se também à recolha e análise de vários elementos dispersos pelos jardins e que ainda restam, tais como troços de balaustrada, lagos, cantarias e lajes», assegura a empresa.

«Estes projetos têm sido acompanhados por sondagens arqueológicas, que têm apoiado as tomadas de decisão. Juntamente com a investigação bibliográfica, este trabalho permitiu a produção de plantas de reconstituição dos jardins setecentistas. A Parques de Sintra pretende agora reconstituir os jardins, devolvendo-lhes o caráter lúdico e interpretativo originais, respeitando a sua composição e relação com a envolvente», refere ainda. O Jardim Botânico foi destruído na cheia de 1983, que derrubou a maior parte das estruturas.

Nos anos seguintes, o espaço foi adaptado para picadeiro de treino e apresentações da Escola Portuguesa de Arte Equestre. «Prevê-se agora a reconstrução das quatro estufas originais, da estrutura da Casa Chinesa (originalmente para cultivo de plantas orientais), reposição do lago, das balaustradas, dos pavimentos e canteiros. Proceder-se-á a trabalhos de conservação e restauro de azulejos, elementos de pedra, balaustradas, bancos e alegretes. Serão plantados os canteiros ornamentados, os canteiros botânicos e os canteiros centrais das estufas, bem com as floreiras dos alegretes», informa a empresa.

«Também a rede de infraestruturas será dimensionada para dar resposta às necessidades ao nível da energia, abastecimento de água e drenagem», refere o documento. O Jardim de Malta, um dos mais importantes no conjunto de jardins do Palácio Nacional de Queluz, será igualmente objeto de recuperação. «Ao longo do tempo foi alterado ao nível das plantações, configuração decorativa, esculturas e lagos. A intervenção neste espaço prevê a remoção e transplante da vegetação existente, integrando-a, sempre que possível, noutras áreas do jardim», pretende a instituição.

Veja na página seguinte: A reposição das esculturas que decoram os jardins

A reposição das esculturas que decoram os jardins

A reposição dos quatro grupos de esculturas que decoram os jardins e as conchas dos lagos também integram o plano de recuperação, que prevê ainda a substituição do pavimento atual e revisão do sistema de drenagem, a consolidação e conservação das esculturas, pedestais, balaustradas e cantarias e a reformulação do sistema de rega, «resolvendo problemas de pressão e entupimento», a par da iluminação das zonas de circulação, elementos decorativos e envolvente.

«No que respeita a plantações, pretende-se reconstituir o desenho original plantando novas sebes (as atuais serão transplantadas e reutilizadas no jardim), introduzir novos elementos topiados e eliminar os elementos arbóreos que não pertencem à estrutura original», diz o comunicado. «Além das intervenções nestes dois jardins, a Parques de Sintra pretende também proceder ao restauro da cascata, da recuperação dos bosquetes e dos caminhos do jardim, rever e melhorar o sistema de águas no que diz respeito a fontes, lagos e à rega», revelam.

A lista de tarefas a desenvolver inclui ainda novas plantações «com o objetivo de proteger as vistas a partir do jardim», informa o organismo criado em 2000 com capitais exclusivamente públicos. Em 2013 e 2014, a empresa, que também gere o espaço e o património do Parque Nacional da Pena e dos Jardins de Monserrate, além do Palácio Nacional de Sintra, do Chalet da Condessa d’Edla, do Castelo dos Mouros, do Convento dos Capuchos e da Escola Portuguesa de Arte Equestre, ganhou o prémio internacional World Travel Award na categoria de Melhor Empresa em Conservação.

Texto: Luis Batista Gonçalves com Wilson Pereira (fotografia)

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