O jardim da Gulbenkian marca uma época da arquitectura paisagista portuguesa que começa o seu percurso no Estádio Nacional. Um local concebido para ser vivido, cuja beleza se renova ciclicamente.

Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu em Scutari, na cidade turca de Istambul, e veio a falecer em Lisboa (1869-1955). Destacou-se como empresário
do sector petrolífero mas também como excepcional coleccionador de arte e amante da natureza.

A sua herança permitirá a construção de um museu em Lisboa para reunir a colecção. Surge, assim, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) como um espaço de importância internacional que se integra nesse recente conceito de centro cultural polivalente.

A imagem da fundação cria-se à semelhança
do gosto íntimo e do espírito contemplativo do seu mecenas: uma simbiose entre arte e natureza.

Veja na página seguinte: A história deste emblemático jardim

Até ao final da década de 60, ergue-se a construção da FCG no sítio do Parque de Santa Gertrudes, antigo Parque de Aclimatação e Jardim Zoológico (1884-94) e Feira Popular (1943-57).

Dos três anteprojectos a concurso, foi escolhida a solução apresentada pelos arquitectos Alberto Pesso, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia, que nesta fase já contaram com a colaboração
do arquitecto paisagista António Barreto.

A este viria a juntar-se Gonçalo Ribeiro Telles, ambos da primeira geração de arquitectos paisagistas portugueses, discípulos de Francisco
Caldeira Cabral formado em Berlim, que a partir de 1940 passa a exercer no Instituto Superior de Agronomia (ISA).
Arquitectura e jardim são guiados pelos princípios modernistas
e é preocupação dos arquitectos estabelecer uma íntima relação entre interiores e exteriores. Os espaços verdes apresentam-se sob a forma de pátios interiores, terraços e o jardim propriamente dito.

Guiando-se por uma concepção naturalista,
os arquitectos paisagistas exploraram os próprios elementos que constituem o jardim. Esses elementos são o relevo, a flora e as suas sombras, a água, a luz ou o próprio céu. O seu lado estético é valorizado tendo em conta também a sua funcionalidade,
pois este é um espaço social no qual se desenvolvem diariamente diferentes actividades.

No trilho dos labirintos

No trilho dos labirintos

No limite desse jardim, na transição do espaço urbano para os jardins da Gulbenkian, um denso arvoredo apresenta-se como uma sebe natural. Este arvoredo foi ganhando volume ao longo dos anos, garantindo a integridade física do jardim e defendendo-o do ruído exterior.

Uma orla periférica que assegura a continuidade do espaço verde, pois independentemente
da direcção em que se olhe, estaremos sempre rodeados pela natureza.
O jardim pode ser totalmente percorrido pelos sinuosos passeios que o atravessam.

Estes passeios são em laje de betão tal como o acabamento dos edifícios. Desta forma, procura-se uma continuidade na utilização dos materiais e este será o único material construtivo assumido plenamente na paisagem do jardim. Os passeios sugerem-nos um caminho embora nada nos impeça de caminhar pela relva.

Neste deambular, vamos passando sucessivamente por diversos espaços que não se dão a ver de imediato mas que se apresentam como planos sucessivos, verdadeiros cenários que ignoram pontos de fuga ou axialidades impositivas. A luz mediterrânica, brilhante e clara, é assim explorada e para isso contribui a plantação das diferentes espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas.

Pelos jardins criam-se diferentes espaços. Uns mais íntimos escondidos pela folhagem, outros mais expostos para o convívio social. Por esses labirintos sinuosos descobrimos pequenas clareiras, um roseiral, alguns riachos, amplos relvados ou mesas para merendar.

Nesta zona encontram-se antigos eucaliptos que remontam ao Parque de Santa Gertrudes, preservados pelo seu porte. Nas colinas, plantaram-se pinheiros mansos ou ciprestes enquanto
os carvalhos se encontram nas encostas.

Veja na página seguinte: Onde fica o coração deste jardim

Neste jardim, encontramos ainda medronheiros, choupos, azevinho, salgueiros... Privilegia-se a flora portuguesa, criando-se uma verdadeira mata pensada de acordo com a morfologia do terreno e promovendo
uma alternância entre espaços luminosos, de sombra ou semi-sombra.

As crianças brincam por todo o jardim, interagindo
com o que de melhor a natureza lhes pode dar.
E por esses passeios vamos chegando ao lago, o verdadeiro coração do jardim.

Este lago veio substituir um anterior e, desta vez, procura-se disfarçar a sua artificialidade. Essa concepção naturalista desenha margens onduladas e faz confluir para o lago três ribeiras provenientes de sentidos opostos. As espécies vegetais hidrolófilas plantadas nas margens são uma das soluções encontradas para fazer desaparecer o aspecto construtivo das mesmas e promovendo uma transição natural entre água e solo.

A variação do nível da água ao longo do dia, devido à sua utilização no sistema de rega do jardim, acentua os ciclos naturais que são valorizados por esta concepção. No diálogo que se estabelece entre edifício e jardim, a área do lago é especialmente privilegiada.

Além de ser neste núcleo aconchegado
que se situa a esplanada ou o anfiteatro, a fachada sul do auditório é completamente rasgada com paredes de vidro que fazem deste cenário natural o pano de fundo do palco.
A presença da água não se limita a este lago mas é constante
por todo o jardim.

A sua vertente estética é explorada nomeadamente através de grandes círculos rasteiros que se apresentam como verdadeiros espelhos de água reflectindo as sombras das árvores, a luz mediterrânica e o azul do céu de Lisboa. Outros riachos conseguem um constante borbulhar.

Com a água alcançam-se novas profundidades, constituem-se habitats e marca-se a presença desse elemento vital e relaxante. Todos estes caminhos, prados ou recantos surpreendentes levam a que o jardim pareça bastante maior do que na realidade
é (tem pouco mais de 6 hectares).

O seu estilo natural, em jeito de mata, faz-nos esquecer que todos os pormenores foram pensados e continuam a ser repensados até aos nossos dias. Dessa harmonia que se procura entre arquitectura e paisagem alcança-se uma totalidade original, única e comummente designada por Gulbenkian.

Faz-se destas paisagens verdadeiras obras de arte aparecendo aqui e acolá algumas esculturas e ainda, sob a designação de exposição temporária, uma sequência
de toldos pintados alegra um pequeno trajecto do percurso.

Estes jardins apresentam-se como uma feliz conclusão de uma época da arquitectura paisagista portuguesa que começa o seu percurso no Estádio Nacional. Acima de tudo, é um local feito para ser vivido, cuja beleza se renova ciclicamente enquanto organismo dinâmico que é, que vive e respira.

Texto e fotos: Diana Pereira

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