Nesses tempos, ainda não brotara no Homem, nem o dominara, a arrogância suportada por essa mente fragmentária e arrogante que conhecemos hoje em dia e através da qual a maior parte de nós se relaciona com o mundo; por essa mente que busca o poder controlando e escalpelizando o mundo da matéria para lhe eliminar qualquer resquício de espírito ou totalidade; por essa mente lamentável mas inevitavelmente desprovida de quaisquer capacidades de encantamento ou reverência perante a sacralidade da vida e a existência de uma Ordem Maior.

Nesse tempo, o Homem já sabia – ainda sabia - encontrar na aceitação tranquila da sua sujeição aos poderes maiores, personificados pelos deuses mitológicos, a verdadeira dimensão da sua dignidade, e isso permitia-lhe assumir, grandiosamente, as consequências da sua hubris, o seu orgulho, quando a vontade dos deuses não era cumprida por causa dos seus pequenos caprichos humanos.

E Minos, na memória colectiva, foi um desses pecadores, e cometeu o maior dos pecados. Tentou enganar os deuses, neste caso Posídon, querendo ficar com o Touro mais belo que deveria ter sido oferecido em honra ao Deus (o pecado Taurino do apego, da propriedade e da posse), e a sua hubris foi castigada com a paixão arrebatadora com que a sua mulher Pasífae se fez possuir pelo touro, disfarçando-se no seu ardor desesperado de vaca de madeira de modo a que o touro a pudesse cobrir.

O fruto dessa união foi o Minotauro, que corporificou não só a paixão da humana pelo animal e assim a degradação da sua condição de humana e a sua traição ao marido, mas também a própria traição original de Minos ao deus; e porque com essa tripla vergonha não tolerava Minos arcar o resto da vida, mandou a Dedalus que construísse um labirinto para esconder dos olhares alheios o enteado, como se esconder os frutos das suas acções lhe pudesse aliviar a consciência e alijar as consequências indesejáveis das suas escolhas passadas.

Teseu, revela o mesmo mito, tornar-se-ia o único a sair do labirinto com vida, o herói que viria a ser aclamado por conseguir matar o Minotauro. Para o conseguir, recebeu das mãos de Ariadne, sua amante e filha do trágico rei, um fio mágico de prata que Teseu foi desenrolando enquanto deambulava pelos corredores intrincados do labirinto do Minotauro; assim, podia saber não só como percorrer o labirinto sem se perder, mas no final voltar a sair e regressar ao local original por onde entrara para cumprir a missão.

Uma vez morto o Minotauro, Teseu reconstituiu o percurso e graças ao fio mágico e pode vir ao reencontro da sua bem-amada, cumprindo por mais uma vez esse ciclo eterno da reunião do masculino com o feminino, a dança da integração dos opostos que se repete infinitamente em todas as cosmogonias e contos de fadas, em todas as vidas humanas, todos os meses nos céus no rigor cíclico das fases da Lua, em todos os relacionamentos, em toda a Alquimia, em todas as leis do electromagnetismo, em todas as formas de organização social, em todas as famílias, em todas as cópulas.

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Chamava a esta reunião e à síntese dos pólos que ela representa Carl Jung Mysterium Coniunctionis, referindo-se ao mesmo a que outros se referem como hierogamia ou, quando a reunião dos dois pólos ocorre dentro de um único ser que sintetiza harmoniosa e criativamente as suas polaridades internas, androginia. E que é o mesmo processo do casamento, ou da fusão, da Personalidade com a Alma.

Numa leitura simbólica do mito, e porque todo o mito é a forma de transmissão por excelência de verdades profundas e eternas, Teseu pode ser considerado um símbolo para a Personalidade, jovem, inexperiente e ansiosa por acção, por intervir no mundo externo e repor qualquer tipo de ordem, confrontando o desequilíbrio das circunstâncias.

Ariadne, com o seu apoio silencioso e discreto mas indispensável, e a sua sabedoria feminina, pode ser considerada um símbolo para a Alma; da mesma forma, o Minotauro pode ser considerado um símbolo das paixões instintivas que se movem prisioneiras dentro de cada um de nós. É curioso notar, aliás, como este ser híbrido nasceu na confluência do humano com o animal, da mesma forma que as paixões instintivas (como o desejo, ou a posse) nos aproximam mais da dimensão animal do que da verdadeiramente humana; todo o mito, e qualquer linguagem simbólica, são carregados de simbolismo para descodificar.

Na vida prática, quem tem o signo de Touro fortemente enfatizado no seu horóscopo (Sol, Lua, Ascendente e/ou outros Planetas ou pontos importantes) tem o mesmo desafio de Teseu: vencer o apelo magnético dos instintos animais em si próprio, vencer o Minotauro interno, e regressar à reunião com a pureza da sua própria Alma. Isto não é folclore, nem poesia – conheço, da observação da vida quotidiana e dos meus ficheiros de clientes, inúmeras estórias que ilustram as tentações carnais, os desafios do desejo e as fraquezas de quem tem um Touro para domar dentro de si – e de alguma forma, todos temos. Mas uns, parafraseando Orwell, têm mais do que outros.


E isso não implica que não haja, simultaneamente, um apelo fortemente espiritual ou que as pessoas não sejam relativamente “espiritualizadas”. Assim de repente, consigo pensar por exemplo num professor de yoga e num budista a quem os cânticos, a pranayama, as asanas e a meditação ainda não foram suficientes para vencerem a bestialidade instintiva que se lhes move dentro. Um tem o Sol em Touro e o outro o Ascendente. Nenhum deles tem ainda, bem claro dentro de si, se quer elevar a vibração das suas alunas e seguidoras - ou possuí-las. Suponho que continuem a tentar fazer ambas as coisas, como se fosse viável, conciliável ou possível. Enquanto há Vida, há testes à Personalidade e a tensão na sua relação com a Alma.

Talvez o segredo para matar o Minotauro seja, tal como ensina o mito, manter forte a ligação ao fio de prata da Alma e recordar, a cada instante, que o objectivo é subjugar o animal e não ser comido por ele, é dominar os instintos e não ser dominado, é vencer o inferior em nós e sair vitorioso – sendo que não há outra vitória senão a do casamento sagrado que celebrará, no regresso, a consagração do guerreiro, sangrado e cansado dos labirínticos esquemas que a mente humana fabrica para nos manter prisioneiros da natureza inferior.

Nuno Michaels

Nuno Michaels é conselheiro astrológico, Life-Coach e professor de Astrologia Psicológica no QUIRON - Centro Português de Astrologia. Orienta grupos em Lisboa, Porto e Faro e mantém, desde Janeiro de 2009, uma rubrica semanal sobre Astrologia, Espiritualidade e Desenvolvimento Pessoal no Rádio Clube Português.

Coordenação de Conteúdos:
Heloisa Miranda,
email:sapozen@sapo.pt
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