É comum e frequente que as futuras mães manifestem alguns medos relacionados com a epidural ou outras técnicas anestésicas no momento do parto. Para desmistificar algumas das questões que inquietam as parturientes, entrevistámos três especialistas na área. Viva a maternidade em pleno sem inquietações e receios. 

Como será o parto? Será que vou sofrer muito? Será parto natural ou cesariana? E a epidural? Há tantas histórias sobre os riscos desta analgesia... Os mitos existem, os medos aumentam e para as gestantes, o mistério do parto vai sendo acompanhado de ansiedade e muitas dúvidas que acompanham este momento que deveria ser somente tranquilo e especial.

“As parturientes são o agente central do parto. Tudo o que lhes for proporcionado só faz sentido se simultaneamente for enquadrado na sua história de vida. A epidural é apenas um partícula desse percurso. A mulher deve ser esclarecida sobre os benefícios e riscos e decidir livremente”, começa por dizer-nos o Dr. Costa Martins, director do serviço de Anestesiologia da Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC). É importante que a informação a dar às parturientes seja rigorosa, capaz de elucidar “e de remover todas as contaminações que uma literatura e/ou opinião menos científica possam induzir”. Durante toda a gravidez, nas aulas de preparação para o parto – como acontece por exemplo na MAC – o contacto aberto e esclarecedor com as grávidas e o anestesiologista é essencial.

Nos últimos tempos, tem-se assistido à progressiva tendência de “diminuir a medicalização”, ou seja, “assegurar um bom nível de analgesia no parto assegurando simultaneamente uma menor interferência na dinâmica uterina. O ideal será, no futuro, termos as parturientes a controlar a sua dor e a deambular durante o trabalho de parto”, adianta o especialista.

Técnicas anestésicas no parto

Ao contrário do que muitas mulheres pensam, o anestesiologista é um dos médicos que acompanham o parto. “A analgesia é fundamental, mas é de relevar que os anestesiologistas estão sempre implicados nas decisões mais críticas. Este é um papel central. Tal relevância consubstancia-se, aliás, numa diferenciação técnica e humana, razão pela qual, por todo o mundo civilizado os anestesiologistas dedicados a esta área formam um corpo próprio, habitualmente organizado institucionalmente e que constitui um fórum de conhecimento e discussão permanentes”, adianta Costa Martins.

As mulheres devem ir para o parto “livres de preocupações. A mulher vai ter um filho, nós estamos lá para a acompanhar”. Há que encarar este processo com esta mesma simplicidade.

As técnicas anestésicas têm indicações e contra-indicações absolutas e relativas, tanto no parto, como em qualquer intervenção. Por esse motivo, “os procedimentos são programados e as grávidas receberão as respectivas indicações preparatórias”, salienta Costa Martins. Os médicos que acompanham o parto, um momento de intensa implicação emocional, “têm de proporcionar as melhores condições para o nascimento e estarem atentos perante os desvios do percurso fisiológico”.

Anestesia e analgesia

Estamos perante dois conceitos diferentes. Para os esclarecer, pedimos ajuda à Dr.ª Filipa Lança, assistente hospitalar de Anestesiologia e sub-coordenadora da Anestesia Obstétrica do Centro Hospitalar De Lisboa Norte, Hospital de Santa Maria, EPE. “Quando falamos em anestesia referimo-nos à abolição completa de qualquer sensação táctil ou dolorosa, acompanhada de mais ou menos bloqueio motor, o que provocamos quando a grávida vai ser submetida, por exemplo, a uma cesariana”, esclarece a especialista. Na analgesia, “a abolição das sensações é parcial (desaparece primeiro a dolorosa) e não há geralmente bloqueio motor: é o que acontece na analgesia do trabalho de parto”, acrescenta.

Quer para a realização de uma anestesia loco-regional (leigamente designada por anestesia “da cintura para baixo”), quer de uma analgesia loco-regional, os anestesiologistas dispõem de várias técnicas diferentes. “As mais usadas em Obstetrícia são a epidural (a mais conhecida), o bloqueio subaracnoideu (vulgo raqui) e a técnica sequencial (uma mistura das duas anteriores) ”, explica Filipa Lança. Podem ainda ser utilizados fármacos endovenosos, que se administram através do soro, e que atenuam com alguma eficácia, a dor durante o trabalho de parto.

Tal como afirma Costa Martins, também Filipa Lança concorda com o total e absoluto esclarecimento às grávidas. Por esse motivo, “todas as terças-feiras, no hospital de Santa Maria, existe uma sessão de esclarecimento sobre a analgesia do trabalho de parto e as opções anestésicas para uma cesariana, para as grávidas e seus acompanhantes, com informação detalhada e imagens”.

Informação credível

Muitas são as futuras mães que procuram informação através da internet sem uma adequada triagem. “A maioria da informação sobre a analgesia do trabalho de parto não é da autoria de anestesiologistas”, critica Filipa Lança. Daí que seja essencial a criação de empatia entre este especialista e a grávida durante todo o trabalho de parto, “com acompanhamento directo durante todo esse processo e com respeito máximo pela opinião e emoções da grávida. A nossa missão normalmente só está completa quando a puérpera tem alta para o domicílio, geralmente ao fim de dois ou três dias”, defende a especialista.

Actualmente, está em construção um site, da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia (SPA), de acesso ao público em geral, onde poderão ser esclarecidas dúvidas sobre os diversos aspectos da anestesia, nomeadamente sobre a Anestesiologia Obstétrica.

José António Bismarck, médico anestesiologista do Hospital da Luz, adianta que “é necessário criar um filtro, daí a importância da informação especializada”.

Riscos associados

Em caso de cesariana, sobretudo se for necessário realizar uma anestesia geral, os riscos são maiores. “Por esse motivo, tentamos sempre que a grávida opte por uma anestesia loco-regional, a não ser que haja uma contra-indicação absoluta (que são muito poucas). Como em qualquer intervenção médica invasiva, existe sempre um possível risco de infecção, reacção alérgica ou até morte (a própria gravidez suporta estes mesmos riscos)”, adianta Filipa Lança. No entanto, graças ao desenvolvimento da Anestesiologia, a probabilidade de algo mau acontecer é extremamente baixo.

“Na analgesia do trabalho de parto, então, os riscos são muito mínimos. O pior que pode acontecer é, em menos de 1%, uma cefaleia (dor de cabeça), quando realizamos um bloqueio subaracnoideu ou uma técnica sequencial. Esta cefaleia surge habitualmente algumas horas depois do parto e desaparece normalmente em dois ou três dias. É uma dor de cabeça semelhante à enxaqueca, com tratamento sobreponível. Uma vez tratada, nunca mais volta a aparecer. Trata-se de um episódio único”, diz-nos Filipa Lança. Para o Dr. José Bismarck, anestesiologista do Hospital da Luz, este “efeito secundário” é um dos mais frequentes. Diz-nos que podem surgir “cefaleias benignas que cedem aos analgésicos comuns, de curta duração e que apenas se manifestam se a parturiente se encontra na posição de pé”.

Se ainda tem dúvidas, saiba que “o aparecimento de novos fármacos e novas maneiras da sua administração têm permitido diminuir a quantidade e simplificar a administração, melhorando o controlo da dor, aumentando a satisfação materna e diminuindo os efeitos secundários e as complicações”, tranquiliza José António Bismarck.

É necessário saber…

Por Dr.ª Filipa Lança

- Todas as grávidas devem ser consultadas por um anestesiologista antes da realização de qualquer técnica anestésica.

- É importante a colheita de uma história clínica para rastreio de uma possível patologia e de um exame clínico, com consulta de análises em alguns casos.

- Durante todo o trabalho de parto, a grávida é acompanhada directamente por um anestesiologista com monitorização de alguns parâmetros fisiológicos.

- Após o parto, o acompanhamento clínico continua enquanto a puérpera não tem alta hospitalar.

- Em determinadas técnicas é importante que a grávida permaneça algumas horas deitada, mas tem que ser avaliado caso a caso. O mais importante é que a grávida fale de imediato com o seu anestesiologista se achar que tem alguma alteração no seu estado físico. As pequenas alterações que podem surgir (como por exemplo, alguma dormência nas pernas) são transitórias e passíveis de correcção rápida.

As respostas às perguntas que sempre quis fazer

Por Dr.ª Filipa Lança

A epidural é prejudicial ao bébé?
Não, de todo. Pelo contrário, as técnicas loco-regionais de analgesia do trabalho de parto promovem o bem-estar fetal, durante todo o parto.

Com a epidural, as futuras mamãs não sentem nada?
Claro que vão sentir alguma coisa. Sentem a pressão, algumas contracções e sentem que lhes estão a tocar. O que não sentem é dor. Como disse no início, numa analgesia, apenas bloqueamos parcialmente as sensações.

As gestantes vão conseguir fazer força na altura do nascimento do bébé?
Com uma epidural bem conduzida e se for bem explicado às grávidas como devem fazer a força, elas vão continuar a conseguir fazê-la bem. Na analgesia, não provocamos um bloqueio motor (da força física).

A epidural aumenta a probabilidade de ser necessário recorrer ao forceps ou ventosa?
Normalmente, a necessidade de realizar um forceps ou ventosa prende-se com razões obstétricas (como por exemplo, o posicionamento do bébé no canal de parto) e se a mamã estiver sobre o efeito da epidural, este processo não é doloroso.

Depois de passar o efeito da epidural, é normal sentir mais dores?
As mães não têm mais dores do que se não fosse administrada a epidural.
Pelo contrário, o efeito da epidural ainda persiste algum tempo depois do parto, protegendo-as contra a dor desse período (agora devido sobretudo à episiorrafia e contracção do útero).

As grávidas a quem é administrada a epidural, podem ficar paralíticas?
Claro que não! Existem raros casos de grávidas que têm doenças que se manifestam por alterações da coagulação do sangue e que funcionam como contra-indicação absoluta à realização da epidural. Uma epidural realizada nessas circunstâncias poderia pôr em risco a grávida. São situações muito raras e facilmente detectadas na avaliação prévia feita pelo anestesiologista.

As mamãs vão ficar com dores nas costas para toda a vida?
O mais que pode acontecer é uma dor ligeira, na zona de picada, com duração de dois ou três dias, perfeitamente resolvida com paracetamol ou gelo local.

Texto: Cláudia Pinto

A responsabilidade editorial e científica desta informação é do jornal

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