Para falarmos de dor e os problemas da sua interpretação será importante antes de tudo compreender o mecanismo de dor e como ela se forma no nosso organismo. Em termos simplistas podemos dividir a dor em dois tipos: a dor superficial (parietal) e profunda (das vísceras).

A dor superficial é transmitida ao cérebro por uma rica rede de terminais sensitivos, imaginemos uma rede ferroviária com múltiplas estações e linhas avançadas que transportam comboios (mensagens) para o cérebro. Assim sendo, quando fazemos um corte acidental num dedo, mesmo sem ver, sabemos precisamente onde ocorreu essa lesão. A mensagem foi transmitida de forma exacta ao cérebro, para que este decida o que fazer (neste caso dizer um palavrão e desviar o dedo do objecto que originou o corte poderão ser respostas adequadas do cérebro). Já na dor profunda existem menos detectores de dor (estações) e as “linhas ferroviárias” que transportam essas mensagens ao cérebro são também em menor quantidade.

A título de exemplo, o nervo pneumogástrico (“linha ferroviária antiga”) transporta para o cérebro mensagens de dor de várias “estações” (esófago, pulmões, coração e estômago). Daí que muitas vezes o cérebro não saiba ao certo de que “estação” partiu a queixa fazendo com que problemas em diferentes órgãos sejam muitas vezes percepcionados de forma semelhante pelo cérebro, ou seja, uma dor semelhante pode originar-se de patologias em diferentes órgãos.

Outra questão relevante é a incapacidade para “medir” a dor de uma forma objectiva, pelo que temos pessoas com muitas queixas de dor, sem alterações de relevo na avaliação, e outras pessoas com poucas queixas e patologias graves. Em parte isto está relacionado com fenómenos individuais, como seja a percepção individual de dor. Todos nós temos um familiar que faz tudo e come tudo e nunca teve grandes queixas e outro a quem “tudo faz mal”.

Causas de esofagite

Esofagite, por definição, é uma inflamação ao nível do esófago, o canal que transporta os alimentos desde a boca até ao estômago. É um conceito vago que descreve um conjunto de condições distintas. A causa mais frequente de esofagite é o refluxo gastroesofágico, ou seja, a passagem anormal de conteúdo do estômago para o esófago.

O estômago tem um revestimento próprio que lhe permite lidar sem dificuldades com o ambiente ácido propício à digestão dos alimentos. Já o esófago, exposto a esse conteúdo, vai sofrer, originando inflamação e dor. O refluxo gastroesofágico é de tal modo frequente, que se estima que nos países desenvolvidos, até 25% da população tenha queixas 1-2 vezes por semana. Quer isto dizer, que numa família de 4 elementos, o mais provável é que alguém tenha queixas deste foro. Naturalmente que nem todas as pessoas com queixas terão condições graves. Imaginando uma escada diria que o degrau inicial corresponde a queixas de refluxo sem evidência de alterações (a nível da observação do esófago por endoscopia), o degrau seguinte (em que menos pessoas se encontram) corresponde a pessoas que têm inflamação no esófago observada na endoscopia (esofagite erosiva) e os degraus acima deste, correspondem a situações ainda mais graves, mas felizmente menos frequentes (apertos no esófago por esofagite crónica e/ou tumores). A obesidade, a idade avançada, outras doenças que diminuam a velocidade da digestão (como a diabetes), o sedentarismo e aquilo que comemos, são alguns dos múltiplos factores que podem estar relacionados com esta condição.

Existem outras causas de esofagite, que apesar de menos frequentes, devem ser tidas em consideração. Doenças como a esofagite eosinofílica (forma de doença alérgica do esófago, particularmente em indivíduos jovens, do sexo masculino e com asma) e esofagite por fungos (em pessoas com diabetes ou outras doenças que diminuam as defesas do organismo) podem ser a causa de dores mantidas no peito e abdómen. Finalmente há outras doenças relativamente raras que podem originar alterações na contracção dos músculos do esófago e não no seu revestimento interno, tendo como consequência dor  e dificuldade na passagem dos alimentos pelo esófago (por exemplo a acalásia que é uma doença em que o esófago não permite a passagem dos alimentos para o estômago).

Que queixas podemos ter?

O principal sintoma de refluxo gastroesofágico, e por consequência de esofagite, é o ardor sentido no peito vindo do estômago, designado por pirose, que muitas pessoas identificam e descrevem como azia. Este sintoma, quando frequente, diminui de forma importante a qualidade de vida das pessoas. Podemos ter outros sintomas, como uma dor mal definida, uma espécie de desconforto na “boca do estômago” ou um “aperto” mal definido no peito (devido à questão das poucas estações e linha de comboio antiga que referia anteriormente), que não sendo tão frequente, pode estar associada a formas de esofagite mais grave (os tais “degraus”) com apertos ou inflamação severa. Depois podemos ter outro tipo de sintomas nos órgãos que contactam com o esófago (garganta, a laringe, traqueia e pulmões). Tosse seca e rouquidão, alteração na voz (disfonia), são alguns sintomas ditos atípicos, mas que podem significar exposição destes órgãos a ácido proveniente do estômago. Além destes devemos ter especial atenção a sintomas de alarme. A dificuldade mantida na deglutição (disfagia) pode significar que há um obstáculo na passagem dos alimentos até ao estomago. Se ela for mantida, ou progressiva (primeiro para alimentos sólidos e depois para líquidos), deve levar a aconselhamento médico imediato. A existência de vómitos frequentes, nomeadamente com sangue, e a perda de peso, são outros sintomas que devem fazer com que procuremos ajuda médica rapidamente.

Outra coisa que devemos ter atenção é quantas vezes temos as queixas (uma vez por dia? uma vez por mês?) e naturalmente que quanto mais frequentes forem as queixas maior a probabilidade de termos uma situação relevante. No entanto, e como escrevia anteriormente, todos nós temos um limiar para a dor distinto e uma percepção diferente da dor, pelo que há pessoas com poucas queixas e situações graves e outras muito queixosas e sem alterações de realce.

O que devemos fazer?

Em primeiro lugar devemos monitorizar-nos. Ninguém conhece o funcionamento do nosso organismo como nós próprios e portanto devemos estar atentos a alterações face àquilo que consideramos ser o nosso habitual. Depois devemos tentar perceber em caso de termos queixas, se encontramos alguma explicação para o sucedido (mudança de dieta, aumento de peso, discussões em casa). Finalmente e mais importante que tudo, devemos recorrer ao nosso médico. A consulta médica continua a ser o esteio da medicina e é o momento de partilha em que o médico tem o dever de ouvir a pessoa, interpretar as queixas e aconselhar devidamente. Em caso de necessidade poderão ser prescritas análises e medicação, aconselhados exames de imagem (ecografia/TAC) ou ponderados exames endoscópicos (a endoscopia é o único método que permite observação da superfície do esófago e obtenção de biópsias).  Por outro lado, e voltando à metáfora do comboio e das estações, as nossas queixas de dor no peito ou na boca do estômago, podem nem sequer estar relacionadas com o tubo digestivo e apontar para alterações no funcionamento cardíaco (como anginas crónicas) ou pulmonares, pelo que a avaliação médica atempada é fundamental.

Como lidar com a dor em tempo de COVID-19?

A época em que vivemos não é fácil. O confinamento/desconfinamento propicia atritos familiares, ansiedade, distúrbios de sono, entre outros. Por outro lado a incerteza sobre o futuro origina dificuldades laborais variadas. É preciso ter em conta duas questões: em primeiro lugar, o stress em excesso aumenta a acidez no estômago e diminui as defesas do organismo potenciando queixas em todos nós. Por outro lado,  o medo de recorrer ao seu médico faz com que possa estar a adiar um problema, fazendo com que a sua situação clinica agrave. Não se isole, não ignore a mensagem que o seu corpo envia ao seu cérebro. Se tiver dúvidas, recorra ao seu médico, para juntos encontrarem uma solução.

Um artigo do médico Tiago Teixeira Capela, gastroenterologista no Hospital CUF Cascais, no Hospital CUF Santarém e no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central. Assistente Convidado na Nova Medical School.

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