Numa altura em que as esperanças na resolução da pandemia estão colocadas nas vacinas, isto parece algo contraditório. Mas a verdade é que o medo tem levado pais e adolescentes a adiarem consultas, deslocações aos hospitais e centros de saúde.

Esta situação preocupa-nos a todos, dado que estamos a perder terreno para doenças graves, que podem deixar sequelas para a vida ou até tirá-la. É o caso do sarampo, da tuberculose e da meningite meningocócica, uma das mais preocupantes.

A menigite meningocócica é uma infeção das meninges (camadas que revestem o nosso cérebro) causada pela bactéria Neisseria meningitidis, também conhecida como meningococo. Seis tipos (conhecidos como serogrupos) de meningococo causam doença. São eles: A, B, C, W, X e Y, muito embora o mais frequente em Portugal seja o B. É uma infeção grave e potencialmente fatal que qualquer pessoa pode apanhar, sendo os adolescentes um dos maiores grupos de risco.

Transmite-se por contato direto pessoa a pessoa, de forma semelhante à COVID-19, através de goticulas respiratórias, sendo esta transmissão favorecida pela tosse, espirros, beijos e proximidade física.

Como consequência dos seus hábitos, comportamentos de risco e interações sociais, 1 em cada 4 adolescentes podem ser portadores assintomáticos do meningococo na sua garganta. O que isto quer dizer é que, apesar de poderem não manifestar a doença, podem transportar a bactéria na garganta durante dias ou semanas, sendo os principais transmissores a pessoas de todas as idades.

Os primeiros sinais e sintomas desta doença, como a febre e as alterações na pele, são muito pouco específicos e numa fase inicial podem até ser semelhantes à COVID-19. Os sintomas mais típicos - rigidez do pescoço, vómitos e prostação - demoram mais tempo a surgir nos adolescentes. Estes três fatores combinados fazem com que nestas idades se desvalorize mais, o que atrasa a procura de ajuda médica e, em consequência, o diagnóstico.

Na maioria dos casos, em 1 a 2 dias a doença acaba por progredir, deixando marcas permanentes naqueles que sobrevivem (cicatrizes na pele, amputações de membros, surdez, cegueira ou outras perdas neurológicas) ou ganhando a batalha e ceifando vidas. Tanto as sequelas como a mortalidade são mais frequentes, pelos fatores atrás referidos, no grupo dos adolescentes.

A melhor forma de proteção, individual e de grupo, contra a meningite meningocócica é a vacinação. Dentro e fora do Programa Nacional de Vacinação (PNV), existem várias vacinas disponíveis. A vacina contra o meningococo C está incluída em PNV desde 2006, o que levou à quase ausência de casos de doença por este nos últimos anos. A vacina contra os meningococos ACWY não está no PNV mas encontra-se disponível para quem a poder (e quiser) comprar, devendo sempre haver um aconselhamento médico.

A vacina contra o meningococo B, aquele a quem podemos apontar o dedo por ser o responsável pelo maior número de casos desta doença no nosso País, está incluída em PNV apenas desde outubro de 2020 e só para as crianças nascidas a partir de 1 de Janeiro de 2019. Crianças mais velhas e adolescentes não estão abrangidos, podendo ter acesso à vacina através da compra na farmácia, após ser prescrita por um médico. Apesar da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) e da Comissão de Vacinas da Sociedade de Infeciologia Pediátrica (SIP) recomendarem a vacinação contra a meningite B a todas as crianças não contempladas no PNV e a adolescentes a título individual, as taxas de vacinação contra esta doença são ainda baixas. Isto preocupa sobretudo no grupo dos adolescentes, onde 85% dos casos desta doença são pelo meningococo B e a vacinação é vista por eles e pelos pais como não prioritária e passível de ser adiada. E se já havia vários fatores a contribuir para isso, a COVID-19 veio agravar ainda mais esta situação:

  • O adiamento de algumas consultas de vigilância médica, sobretudo a partir dos 9-10 anos, sendo que são os próprios adolescentes a referir que não precisam das mesmas.
  • A procura de cuidados de saúde mais no âmbito das consultas de urgência: irregulares, esporádicas e dirigidas às queixas clínicas agudas, deixam pouco (ou nenhum) espaço para abordar questões preventivas como a vacinação.
  • A preocupação dos pais muito mais com a segurança e com o vírus do que do que com a possibilidade de apanhar doenças raras e graves, tendo a vacinação para esta doença e sobretudo nos adolescentes deixado de ser uma prioridade.
  • A procura de ajuda por parte dos adolescentes muito mais por questões de saúde mental e/ou por aspetos relacionados com a autoestima, a aparência e a definição de personalidade do que pela vacinação.

Em jeito de conclusão, é urgente que se retomem consultas e a vacinação, dentro e fora do PNV. Vivemos tempos conturbados, mas é fundamental ter em mente que nem tudo é COVID-19 e que a vacinação continua a ser a chave para a prevenção de outras doenças graves e mortais como a meningite meningocócica. Cabe a cada um de nós o desafio de contribuir para que os nossos adolescentes estejam hoje e sempre o mais saudáveis e protegidos possível!

Ideias-chave a reter

  • Durante a pandemia COVID-19, o medo tem afastado pais e adolescentes dos cuidados de saúde, com consequente adiamento/atraso da vacinação.
  • Os adolescentes são um grupo de risco para a meningite meningocócica, dado os seus hábitos e comportamentos.
  • Os sintomas iniciais são muitas vezes desvalorizados, o que leva à procura tardia por ajuda médica, com atrasos no diagnóstico.
  • As sequelas e número de mortes por esta doença são maiores em adolescentes.
  • As taxas de vacinação contra a doença meningocócia em adolescentes são baixas.
  • Pais e adolescentes devem retomar consultas, sendo estas oportunidades únicas para tirar dúvidas, desfazer mitos e vacinar!

Um artigo da médica Inês Marques da Fonseca, pediatra e autora do blogue omundodapediatria.com.

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