Quando pensamos em comer de forma emocional a primeira imagem que nos vem à cabeça é, provavelmente, a de Bridget Jones a devorar baldes de gelado e donuts. De facto, a sétima arte e o pequeno ecrã não têm sido simpáticos com o público feminino, associando frequentemente a sua tristeza aos doces. Além de insinuar que as mulheres têm dificuldade em lidar com as emoções, estes episódios (nos filmes, séries de televisão e telenovelas) são fabricados para levar a audiência às gargalhadas.

No entanto, é difícil conter a reacção, mesmo sabendo que por detrás de uma interpretação cómica como a de Renée Zellweger espreita um tema sério e com uma vasta prevalência nos países ocidentais. Saiba como pode ser mais intuitivo em relação à comida e aprenda a defender-se das armadilhas que o cérebro por vezes lhe estende.

Crises de gula

Ambos os sexos sofrem «do flagelo de excesso de peso, de uma alimentação emocional, de uma sociedade adicta em açúcar», avança Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica da Oficina de Psicologia, responsável pela área de comportamento alimentar e peso. Mas as mulheres têm comportamentos idênticos aos da personagem interpretada pela atriz Renée Zellweger devido às «diferenças hormonais e às suas flutuações mensais», como explica a nutricionista Inês Real.

Não é novidade que a tensão pré-menstrual pode propiciar comportamentos de ingestão alimentar compulsiva, «uma vez que as mulheres ficam com maior tendência para o humor deprimido e/ou irritável», comenta Cláudia Madeira Pereira, psicóloga clínica e da saúde com especialização na área da obesidade. Contudo, se a fome é sempre comandada pelas emoções (consciente ou inconscientemente) e não pelas necessidades nutricionais, geram-se padrões alimentares que «podem constituir uma forma de ataque ao próprio corpo», diz Filipa Jardim da Silva.

Em vez de ser desencadeada pelo fator fisiológico, a fome emocional surge com tal urgência e avidez que exige saciação imediata. Por isso, quem se encontra num período mais vulnerável, ou sofra de uma perturbação alimentar, procura um só tipo de comida. Rápida, calórica, rica em açúcar e gordura.

Uma forma de fugir às emoções

Mais do que uma forma de obter conforto, a comida torna-se num calmante, num meio para descarregar tensão, raiva ou frustração, provocando uma elevação temporária do humor. O problema é que na sequência dos excessos «surgem sentimentos de culpa, arrependimento, tristeza e sofrimento», esclarece Cláudia Madeira Pereira. E a psicóloga avisa que «se nada for feito para travar este comportamento disfuncional, a pessoa começa a repetir os momentos em que se apoia na comida para lidar com as emoções, iniciando-se um ciclo vicioso». Normalmente, estes episódios acontecem quando estamos sozinhos e, durante breves momentos, temos muita dificuldade em controlar o nosso comportamento.

No fundo, trata-se de um «mecanismo de compensação face a experiências negativas, ou uma estratégia para lidar com o cansaço e o stresse», clarifica Filipa Jardim da Silva. Comer de forma emocional não é solução, trazendo graves consequências para a saúde psicológica e física da pessoa, entre as quais depressão, perturbações de ansiedade, problemas relacionados com a autoimagem, excesso de peso e até obesidade.

Veja na página seguinte: O problema de quem faz dietas atrás de dietas

O problema de quem faz dietas atrás de dietas

A insatisfação com o corpo leva um número crescente de mulheres portuguesas a procurarem dietas que, alegadamente, oferecem resultados rápidos. Isto porque, como explica a nutricionista Inês Real «a maioria das mulheres está demasiado ocupada para se dedicar à alimentação e uma solução rápida e fácil é sempre o ideal, mesmo não sendo saudável». De acordo com um estudo da DECO realizado entre setembro e dezembro de 2013, que envolveu 1799 portugueses com idades entre os 18 e os 64 anos, 54% dos inquiridos estavam a fazer dieta, 92% já tinham tentado controlar ou perder peso.

E 86% dos que fizeram um regime alimentar tinham recuperado os quilos perdidos. As dietas, principalmente as relâmpago, só desestabilizam o organismo. Na realidade, o nosso peso corporal é controlado pela área do cérebro conhecida por hipotálamo. Esta pequena zona é que decide o que devemos pesar e qual o nosso ponto de equilíbrio e dá-nos uma margem até sete quilos. Alterar o estilo de vida poderá afetar o nosso peso corporal, mas é muito difícil ultrapassar este intervalo (principalmente para baixo).

Se perdermos ou ganharmos peso, o cérebro usa as múltiplas ferramentas que tem à disposição para voltarmos ao normal. «O nosso corpo tende para um ponto de equilíbrio, pelo que quando optamos por dietas restritivas é uma questão de tempo até devorarmos tudo o que está à nossa volta», declara Filipa Jardim da Silva.

Intuição alimentar

Ter hábitos saudáveis é o principal fator para prolongar a qualidade de vida e não o peso. Comer fruta e vegetais, fazer exercício físico três vezes por semana, não fumar e beber em moderação, por exemplo. Num estudo, publicado no Journal of the American Medical Association, foram analisadas 12 mil pessoas com peso normal, excesso de peso e obesas, ao longo de sete anos. E os investigadores mostraram que, se as pessoas obesas praticarem todos os hábitos saudáveis acima descritos, têm exatamente a mesma probabilidade de morrer antes de tempo do que as pessoas com peso normal.

Assim, podemos controlar a nossa saúde regulando o estilo de vida, mesmo que não consigamos perder peso ou mantê-lo normal. As dietas não são fiáveis, já que, tipicamente, as pessoas tendem mais a ganhar peso do que perder. Mas podemos tornar-nos mais intuitivos no que toca à alimentação, «dedicando mais atenção ao nosso corpo e aos momentos de ingestão alimentar», sugere a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Para prevenir o aumento de peso é importante aprender a compreender os sinais que o nosso corpo transmite.

Devemos comer apenas quando temos fome, e devemos parar de comer quando já estivermos saciados, porque muito do peso que ganhamos resume-se a gulodice. Durante as refeições procure estar sentado e tente perceber o seu apetite, pois as pessoas que controlam a sua alimentação ao miligrama são mais suscetíveis a exagerarem nalgum momento. Inês Real, nutricionista, conclui que «a intuição é algo que podemos construir e aprender através de novos hábitos e estilos de vida».

Veja na página seguinte: O problema de quem tem excesso de peso

O problema de quem tem excesso de peso

Entre 1980 e 2013, a percentagem de adultos que apresentavam excesso de peso ou obesidade a nível mundial aumentou de 28,8% para 36,9% nos homens e de 29,8% para 38% nas mulheres. Contudo, este estudo, publicado na revista The Lancet em agosto de 2014, também revelou que se tem verificado um abrandamento do excesso de peso e da obesidade nos países desenvolvidos, desde 2006. Uma tendência que parece estar a passar ao lado de Portugal.

Nas palavras da psicóloga Cláudia Madeira Pereira, «a obesidade continua a ser um dos maiores problemas de saúde pública. E, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Saúde, em 2020, cerca de 21% dos homens e 22% das mulheres portuguesas vão sofrer de obesidade, passando, em 2030, para 27% e 26%, respetivamente. «Níveis preocupantes, resultantes de uma má alimentação e inactividade física», conclui Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica da Oficina de Psicologia.

Como evitar as tentações

Siga os conselhos da nutricionista Inês Real para prevenir um tipo de alimentação emocional:

1. Em casa não deve ter alimentos processados, nem comida rápida, pois «se não estiverem sempre à mão, existe automaticamente uma redução do seu consumo», adverte a especialista.

2. Quando vai ao supermercado, opte por comprar «alimentos que se mastiguem», como cenoura crua, fruta que depois pode cortar em pedaços, fruta seca e «frutos secos, em quantidades controladas», sublinha.

3. Para se tornar mais intuitiva no que toca à alimentação, «a preparação é o truque mais importante», defebde Inês Real. Assim, tente planear as refeições da semana com antecedência.

4. Leve para o trabalho uma peça de fruta ou iogurte, para os lanches da manhã e da tarde.

5. Antes de entrar num café, pense no que vai pedir (por exemplo, uma sandes de fiambre de peru ou de queijo), porque se vir primeiro a oferta de bolos «mais facilmente vai cair em tentação», defende a especialista.

6. Procure ter sempre sopa em casa, já que se chegar com fome não deverá cair na tendência de petiscar.

7. Dê continuidade a estes passos para não resvalar.

Texto: Filipa Basílio da Silva

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