Lisboa não está assim tão luxuosa quanto dizem. Enquanto não formos taxados quando proferimos a palavra "Lisboa", teremos sempre a capital subexplorada. Ainda há dias tenho quase a certeza de que vi um lisboeta entre duas trotinetas, mas entretanto passou um tuk-tuk e desapareceu na confusão. Se antigamente o conceito de luxo era comer uma sandes em triângulo numa estação de serviço, com aqueles molhos a saber a australopiteco, hoje em dia é alugar um quarto na baixa ou mesmo arranjar um lugar de estacionamento para o carro.

Campolide já tomou a iniciativa de se tornar no Ritz do parqueamento quando a Junta autorizou a EMEL a cobrar o estacionamento em cima do passeio, declarando oficialmente aberta a época de caça ao lugar na capital. Penso que a ideia geral será uniformizar as coisas; ou seja, finalmente sabemos que pagamos sempre e não andamos a sofrer com a incerteza. Se cairmos no erro de estacionar o carro numa zona não autorizada a fazê-lo no passeio (pela ideia ridícula e old school de se cumprir o código da estrada), somos agraciados com a oportunidade de pagarmos uma coima. Se, por outro lado, optarmos por estacionar num bonito passeio em Campolide, somos agraciados com a oportunidade de pagar parqueamento, com a vantagem de pagarmos uma coima se não o fizermos ou se exceder o tempo. E isto tranquiliza-nos. Olhar para o carro e vê-lo de perna alçada em cima do passeio, tal e qual o meu cão a marcar território, leva-me a crer que, a curto prazo, o estacionamento será todo meu.

Colocar carros na calçada é uma medida preventiva para evitar que os condutores galguem o passeio

No que toca à acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida, o objectivo é claramente de inclusão e igualdade porque, ao não conseguirem circular no passeio, são forçados a ir para a estrada arriscando-se a levar, também eles, uma coima. A Junta de Campolide e a EMEL não podem só preocupar-se com as pessoas com mobilidade reduzida quando há automobilistas com a mobilidade condicionada por não terem onde estacionar.

A Câmara Municipal de Lisboa diz que esta solução é temporária, enquanto constroem um parque de estacionamento exclusivo para moradores, o que faz com que assumam com naturalidade que não cumprir o código da estrada seja um recurso provisório, o que abre um precedente. Se eu for apanhado a conduzir com uma taxa de alcoolemia acima do permitido por lei em Campolide, até ao término das obras não devo ser autuado. Isto porque ingerir bebidas alcoólicas em quantidades exorbitantes, foi uma solução temporária que eu encontrei para fugir aos problemas que tenho na vida e, obviamente, não vou ficar bêbado para sempre. Tranquiliza-me saber que, se pagar um valor à EMEL, não resolvo o meu problema com a bebida, mas pelo menos posso andar ébrio ao abrigo da lei. Claro que se tiver o azar de a minha diminuição de reflexos levar à morte por atropelamento alguém que deambulava tranquilamente no passeio, parece-me lógico que a culpa seja do peão que certamente ocupava de forma egoísta um passeio que não lhe pertence. Colocar carros na calçada é uma medida preventiva para evitar que os condutores galguem o passeio.

A prova de que há uma preocupação enorme com quem anda a pé é que colocaram uma fila de pilaretes, entre a estrada e a calçada, a separar os carros dos peões. Não estará longe o dia em que um condutor esteja a rodopiar o carro em movimentos bruscos no alcatrão e a EMEL o obrigue a fazer aquilo na calçada, alegando que "os piões são no passeio".

Aguardo que esta evolução no urbanismo continue. É que não faltam para aí espaços verdes desaproveitados que davam estacionamentos lindíssimos.

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