De 28 estados-membros pertencentes à União Europeia, Portugal é o segundo país com mais novos casos de infeção por VIH, deixando o primeiro lugar para o Luxemburgo. Apesar de este ser um facto alarmante, nem toda a estatística é negativa. Pela análise das tendências temporais é-nos revelado que a taxa de novos diagnósticos de VIH tem decrescido a nível euCompatibilidades Astrológicasropeu, Portugal incluído, de forma consistente ao longo dos anos (ECDC, 2014).

Pedro Morais, psicólogo clínico da ABRAÇO
Pedro Morais, psicólogo clínico da ABRAÇO

Considerando que, no presente, a esmagadora maioria dos novos casos de infeção por VIH em Portugal acontece através de relações sexuais desprotegidas, pode ficar implícito na mente dos parceiros europeus que os portugueses são realmente um país de sangue latino que pratica um maior número de relações sexuais desprotegidas, com um maior número de parceiros/as, e que temos problemas com a utilização do preservativo. Ou seja, poderá uma primeira análise a estes dados levantar a suspeita que, de alguma forma, as práticas e comportamentos sexuais dos portugueses os colocam em situações de maior exposição ao risco de contrair infeções sexualmente transmissíveis.

Falha no comportamento

Em análises mais profundas às causas desta elavada taxa de novos diagnósticos de VIH em Portugal, confirma-se que é a nível comportamental que os portugueses falham. Porém, não se confirmam as primeiras suspeitas: a falha não está na maior exposição a comportamentos sexuais de risco; a falha comportamental dos portugueses centra-se na pouca procura da realização do teste de VIH/Sida (PNIV-DGS, 2014).

Somos todos diferentes mas todos iguais e os portugueses acabam por não apresentar diferenças significativas quanto a comportamentos sexuais comparativamente aos restantes europeus. Não nos expomos mais ao risco. Apresentamos é menor percepção desse risco o que nos leva a procurar com menor frequência a realização do teste.

A pouca procura do teste não é o problema em si, é o catalisador para o problema que desencadeia, o diagnóstico tardio, e Portugal apresenta uma taxa preocupante neste indicador.

O VIH tem características muito particulares, ataca células específicas do sistema imunitário, trabalhando silenciosamente no organismo do portador, podendo uma pessoa viver com esta infeção durante 5 a 8 anos (dependendo do organismo) sem manifestações externas ou sinais de alarme. No entanto, sem tratamento, a carga vírica será elevada e as defesas estarão sujeitas a uma degradação continua.

As características específicas da infeção pelo VIH, aliadas à elevada taxa de diagnósticos tardios em Portugal, revelam-se como os factores de maior influência para a prepetuação de números elevados de novas infeções no nossos país.

Existem demasiadas pessoas a viver com esta infeção em Portugal sem o saber. Essas pessoas prejudicam a sua saúde e aumentam a probabilidade de prejudicar a saúde dos outros pelo facto de não considerarem a sua exposição ao risco significativa, não realizarem o teste, não serem diagnosticadas e não iniciarem tratamento.

Infelizmente, a cura ainda não existe. Felizmente o tratamento é o melhor de sempre: o VIH deixou de ser uma doença fatal para ser uma doença crónica. Deram-se passos tão grandes na evolução do tratamento ao ponto de se passar de 10 comprimidos diários para 1 ou 2 comprimidos diários, para efeitos secundários reduzidos ao máximo, para cargas víricas indetetáveis no organismo do portador, tentando causar o menor impacto possível na qualidade de vida.

Com a toma prolongada desta medicação, é necessário mantermos um controlo sobre a toxicidade crónica da mesma em termos futuros. No entanto, todas as virtudes que o tratamento para o VIH atingiu são tanto mais eficazes quanto mais cedo se detetar a infeção e quanto mais cedo se iniciar o tratamento.

O apoio da ABRAÇO

Há já 25 anos que a Associação Abraço acompanha e apoia de perto esta problemática, demonstrando-se sempre muito delicada ao lidar com relações humanas, afetos, sentimentos, intimidade, sexualidade, com pessoas. Sabemos que não há respostas simples, mas sabemos organizar as prioridades e, neste momento, torna-se evidente que o investimento tem que passar pelo diagnóstico precoce, bem como pela prevenção como método de consciencialização da população para os factos supracitados.

A ABRAÇO presta apoio a pessoas infetadas e afetadas pelo VIH, em todo o país, através de diferentes projetos que englobam o apoio psicossocial (psicologia, dentário, jurídico, alimentar, entre outros), apoio domiciliário, abrangendo desde os mais pequenos aos idosos. A par deste trabalho, dispõe de Testes Rápidos (gratuitos, confidenciais e anónimos) de VIH e outras IST´s, no Porto, Aveiro e Lisboa, destinado à população em geral.

Entre os dias 4 e 6 de novembro, as estações ferroviárias do Oriente (Lisboa) e Campanhã (Porto) recebem a Check-Up, Dia Nacional do Rastreio. Esta iniciativa, à qual a ABRAÇO se associa, vai contar com a participação de várias sociedades médicas e associações de doentes de todo o país e permitir, num único local, a realização de rastreios a várias especialidades médicas.

Um artigo de opinião de Pedro Morais, psicólogo clínico da ABRAÇO

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