"Nós estamos preocupados desde que em janeiro uma equipa da saúde pública veio dizer que foi aqui que saiu [começou] a febre-amarela. Ainda bem que estão a fazer essa vacinação agora", começa por contar à Lusa o administrador do mercado do "Quilómetro 30", António Domingos.

Terá sido neste conhecido mercado no município de Viana, agora fechado para sistemáticas operações de desinfestação para eliminar o mosquito transmissor, que o surto da febre-amarela que desde o final de dezembro atinge Luanda terá tido início.

Chegam a estar neste mercado nos arredores da capital quase 3.700 vendedoras, provenientes de várias províncias, que chegam para abastecer Luanda sobretudo de verduras. É também aqui que está concentrado o centro do surto da febre-amarela, que só desde dezembro já provocou pelo menos 51 mortos, de um total de 240 casos suspeitos da doença.

"A preocupação é porque também vêm aqui muitas pessoas comprar e que podem apanhar [febre-amarela]. Podemos estar a falar de três ou quatro vezes mais pessoas por dia no mercado", diz António Domingos, há sete anos administrador deste mercado de bancas simples, em madeira e ferro, envoltas em pó e muitos mosquitos.

Há duas semanas que o mercado funciona de forma intermitente, fechado para operações de desinfestação como a que foi realizada esta segunda-feira, e agora sob ameaça de encerramento definitivo. Enquanto isso, logo ao lado, na administração municipal, avolumam-se centenas de pessoas em fila à espera de uma vaga para a vacinação, pública, contra a febre-amarela, garantida por equipas médicas das Forças Armadas Angolanas.

"Isto é uma enchente todos os dias e eu penso que já não é só a população do '30' [bairro deste mercado], porque estamos há duas semanas a vacinar e o pessoal não acaba. As pessoas estão preocupadas e já estão a vir aqui de outros municípios, antes de a vacinação chegar lá", reconhece António Domingos.

Com o surto à porta de casa, no município vizinho do Cazenga, Benedito Domingos, de 32 anos, meteu pés ao caminho e apresentou-se logo cedo no 'bairro do 30' para tentar antecipar-se e conseguir vaga para levar a vacina.

"Estou preocupado porque isso [febre-amarela] está a matar as pessoas. Até agora não houve tempo, mas tive mesmo de vir para aqui para a fila e vou esperar, isto é coisa séria", contou à Lusa.

Também Marina Santos, de 17 anos, deixou o trabalho para levar as irmãs, de oito e três anos, à vacinação dos militares naquele bairro, prioritário nesta operação de combate à doença em Luanda por ser o centro do surto: "A ver se consigo para elas e para mim. Mas já estou há mais de duas horas na fila, deixa ver", desabafava.

As autoridades de saúde de Luanda têm em curso uma campanha de vacinação extraordinária contra a febre-amarela na capital angolana, que só no município de Viana prevê chegar a mais de um milhão de pessoas, para depois ser alargada a outros pontos.

Contudo, o próprio ministro da Saúde, José Van Dúnem, admitiu no domingo que devido à insuficiente quantidade de vacinas a prioridade deverá ser dada às crianças.

"Consegui", atirava, em conversa com a Lusa, Marisa Filipe, de boletim na mão, atestando a vacinação do filho, de dois anos, que transportava às costas.

"Até agora não queríamos saber da vacinação, mas depois disto viemos a correr. É mais seguro", contava, visivelmente satisfeita e também ela já vacinada contra a febre-amarela.

"Lá no Cazenga a vacinação ainda não chegou, por isso tive mesmo de vir aqui ao '30'. O importante é que consegui e está feito", rematava.

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