Sendo a Enfermagem o maior grupo profissional na saúde; responsável pelos cuidados aos cidadãos, 24 horas por dia, e que está presente durante todo o ciclo de vida, na promoção da saúde, prevenção da doença, prestação de cuidados na doença aguda, na recuperação, reabilitação e cuidados paliativos, Mário André Macedo, Enfermeiro Especialista em saúde infantil e pediátrica e principal rosto do Movimento “Enfermeiros unidos”, considera inconcebível o constante afastamento dos enfermeiros dos locais de reflexão, planeamento e decisão em saúde. Pondera vir a candidatar-se a Bastonário da Ordem dos Enfermeiros à qual aponta a responsabilidade de nos últimos anos ter perdido o seu foco e uma visão estruturada para a profissão. Tem, como uma das principais bandeiras, a alteração do atual modelo de financiamento do SNS, per capita, que apenas contabiliza os atos médicos, alargando-o a todos os atos praticados pelas múltiplas profissões que preenchem o universo do SNS. Deste modo, diz, os enfermeiros passariam a ser um investimento dentro do sistema de saúde – deixando de encarados como uma despesa, como hoje são vistos pelas administrações

HealthNews (HN)- É uma das principais “caras” do Movimento Enfermeiros Unidos. Coloca a possibilidade de este movimento vir-se a tornar uma plataforma para uma candidatura à presidência da Ordem dos Enfermeiros?

Mário Macedo (MM)- Não colocamos de parte nenhuma possibilidade. Para nós, está tudo em aberto.

HN- Quais são as razões de funcionamento e desempenho da Ordem que o poderiam levar a ponderar a possibilidade de ser candidato?

MM- . A Enfermagem pode ser muito mais; dar muito mais à sociedade e, ao contribuir mais para a sociedade, pode também receber mais de volta, em termos não só da forma como é encarada pela sociedade – falamos aqui do capital social, a forma como a profissão é encarada pelo cidadão –, mas também em termos das condições materiais. Não é segredo nenhum que em termos de carreira e de salários a Enfermagem tem vindo a sofrer uma desvalorização constante ao longo dos últimos anos, o que tem contribuído para que muitos enfermeiros decidam emigrar ou abandonem a profissão, seguindo outro tipo de carreira.

HN- Tendo em conta que no contexto da atual reforma (universalização do modelo ULS) há uma tendência para que o investimento seja per capita está-se a excluir um pouco os enfermeiros, porque o pagamento per capita envolve, no fundo, atos médicos. Acha que isto deveria mudar?

MM- Exatamente, e essa é uma das nossas grandes bandeiras e um dos problemas que identificámos como sendo um dos mais urgentes a resolver. Os cuidados de saúde são essencialmente financiados tendo por base os atos médicos. No entanto, se pensarmos em qualidade em saúde, são os enfermeiros os que mais contribuem para a melhoria dos resultados com foco na qualidade. Vou dar um exemplo muito simples para toda a gente poder perceber o que é que eu estou a dizer. Quando nós pensamos num doente que tem alta de um serviço de medicina e que tem um diagnóstico de pneumonia viral, por exemplo, o hospital é pago por ter tratado esta pessoa, mas não há neste momento nenhum incentivo financeiro em indicadores de qualidade muito simples como, por exemplo, o doente não desenvolver úlceras de pressão; não cair… Estes indicadores de qualidade estão intimamente relacionados, não só com as dotações seguras, como também com as intervenções diárias das enfermeiras e dos enfermeiros que ali trabalham. Se os hospitais também recebessem de acordo com este tipo de indicadores de qualidade, estaríamos a contribuir para que três coisas acontecessem. Não só os enfermeiros passariam a ser um investimento dentro do sistema de saúde – deixando de ser uma despesa – como estaríamos a criar um incentivo para que o hospital contratasse mais enfermeiros e melhorasse as dotações dos enfermeiros por turno. Como também estaríamos a contribuir para o desenvolvimento da profissão oferecendo melhores cuidados de saúde ao cidadão.

HN- Todos reconhecem o enormíssimo mérito que a profissão de Enfermagem tem para os resultados que se obtêm em termos de saúde, mas a verdade é que é uma profissão sistematicamente ostracizada, colocada de lado, diria até, de certa forma, agredida pelo resto do contexto em que se insere. Veja-se agora a norma da Direção-Geral da Saúde, que foi elaborada por especialistas, que se quer anular porque o documento final não foi enviado para conhecimento da Ordem dos Médicos. Esta é a desculpa. O argumento que foi utilizado é não ter sido enviada a versão final. Há que mudar um pouco esta política…

MM- Temos de mudar imenso. Os enfermeiros são o maior grupo profissional na saúde, mas também somos o grupo que menos voz tem e que é menos decisivo na elaboração das políticas públicas de saúde. Isso, realmente, tem de mudar. E essa mudança passa por uma valorização e capacitação dos enfermeiros e por um maior envolvimento da Ordem na elaboração das políticas públicas de saúde. O estado atual apenas demonstra o quão desigual é a definição das políticas públicas de saúde em Portugal. Há um peso corporativo muito grande por parte da Ordem dos Médicos. Não digo que a nossa Ordem não seja corporativa, também é, mas neste caso há uma relação desigual muito grande relativamente à Ordem dos Médicos, que é excessivamente corporativa e que pretende bloquear algo que já acontece na prática há décadas. Quando eu era aluno, enfermeiros especialistas em saúde materna a fazer partos a grávidas de baixo risco, era algo que já acontecia. Isto em 2004.

HN- Como é que se explica depois este volte-face: afinal já não podem praticar o ato; já não é da vossa competência?

MM- As ordens são bastante corporativas. O movimento dos enfermeiros que estamos a criar acha que as ordens devem estar ao serviço do cidadão. Aquilo que é melhor para o cidadão é aquilo que as ordens devem defender. Neste caso concreto, claramente, não é melhor para o cidadão que a Ordem dos Médicos faça oposição a esta orientação. Mas nós podemos ir mais além neste raciocínio. Achamos que os enfermeiros especialistas nesta e em outras áreas podem e devem ter mais competências. Aliás, tal como aqui ao lado, em Espanha, acontece, ou em qualquer país anglo-saxónico, onde há uma distribuição das competências na saúde muito mais equilibrada; onde os enfermeiros assumem muitas mais funções, fazem muito mais intervenções. Isso não desvaloriza a componente médica. Pelo contrário: na verdade, o médico fica com mais tempo para observar quem realmente está doente e precisa dos seus cuidados, e também para uma maior especialização. Valoriza a Enfermagem, porque a Enfermagem ao assumir outro tipo de competências sai naturalmente valorizada. E o que é mais importante: ajuda o cidadão. Estamos a oferecer melhores cuidados e maior acesso ao cidadão. Se na Academia há um consenso de que este é o caminho; se olharmos para as experiências que aconteceram outros países – onde tudo correu bem – porque é que não estamos a fazer o mesmo? Porque é que estamos há anos parados neste modelo que está centrado nos hospitais; que está centrado nos médicos; que está centrado na doença, em vez de evoluirmos para um outro tipo de modelo?

HN – Existe uma explicação para isso?

MM- Uma das respostas assenta não só nas amarras corporativas como também – há que dizê-lo – na pouca vontade política ou no medo político de enfrentar estas mesmas amarras corporativas.

HN- Acha que seria necessário, neste momento, alterar o Regulamento do Exercício Profissional do Enfermeiro (REPE) em termos de conteúdo?

MM – Nesta visão da Enfermagem que defendemos – uma visão moderna, ambiciosa onde os enfermeiros têm mais competências, são responsáveis por mais intervenções na área da prevenção da doença e da promoção da saúde – seria necessário atualizar o REPE para acomodar todas as novas componentes do exercício. Uma Enfermagem moderna precisa de documentos modernos. O REPE foi um documento fundamental e estruturante para a nossa profissão, mas já passaram 30 anos. É necessária uma atualização que vá ao encontro desta nova visão que defendemos.

HN- Se fizéssemos hoje um levantamento de todos os atos praticados pelos enfermeiros e os publicássemos, teríamos certamente uma quantidade de gritos a dizer que há ali uma quantidade de coisas que não poderiam ser praticadas pelos enfermeiros. Como é que se explica isto? Para o cidadão comum, o tirar de cima do médico parte daquelas funções que podem ser perfeitamente exercidas por outros profissionais de saúde é um benefício a vários níveis para o sistema de saúde, quer em termos do aumento do número de consultas, quer em termos de custos e de resultados. Como é que se consegue propor uma definição de novas áreas de ação dos enfermeiros?

MM- Eu vou dividir a resposta em duas partes. Na primeira parte, como disse, e muito bem, se nós fizéssemos um levantamento sério e exaustivo daquilo que é feito, iríamos encontrar muitos atos que são feitos por enfermeiros que, se calhar, à luz do corporativismo vigente, a Ordem dos Médicos iria dizer que não deveriam estar a ser feitos pelos enfermeiros – mas, na prática, estão. E porquê? Há uma dissociação entre a classe médica mais jovem, menos corporativa e que está a trabalhar no terreno e a classe médica mais antiga, mais corporativa. E esta dissociação é que faz com que, se no terreno as direções clínicas locais muitas vezes apoiam e incentivam este género de delegações de competências e de novas funções para os enfermeiros ou para outros profissionais de saúde, mas depois quando essa informação chega à Ordem dos Médicos já existe oposição. E há um exemplo muito claro que ilustra isso muito bem, semelhante a este, mas com um impacto maior porque envolve mais pessoas. Aqui há uns anos, a Ordem dos Médicos também fez um burburinho quando “descobriu” que os enfermeiros nas urgências prescreviam raios X e ECG aos doentes que chegavam à urgência com queixas de dor torácica. Isto era prática há décadas, e faz todo o sentido! Perante um doente adulto que se apresenta com dor torácica, o médico que o observa irá sempre pedir um ECG. Faz todo o sentido a enfermagem abreviar caminho, e até se consegue distinguir rapidamente casos emergentes de casos não emergentes. Ora, depois de há décadas os enfermeiros terem esta prática, a Ordem dos Médicos achou que não deveria ser assim, e lançou uma circular para tentar proibir que isto acontecesse. Para dar a volta, foi preciso reuniões quase de emergência entre o Ministério, DGS e ordens, para emitir uma norma permitindo aos enfermeiros a prescrição destes exames nas triagens. Mais uma vez, é um exemplo claro de como na prática as coisas correm bem quando se partilham responsabilidades. É o cidadão é que ganha!

Depois, a segunda parte da questão. Eu faria o caminho por fases. Primeiro é preciso identificar aquilo que nós informalmente já fazemos e passar do informal para o formal. A orientação recém publicada da DGS sobre os partos é também um bom exemplo. Já acontecia há décadas. Só não estava consignado numa orientação. Agora, passou a estar por escrito.

E já que estamos a falar especificamente sobre esta orientação, penso que a mesma poderia estar mais bem escrita, porque quem a lê fica com a sensação de que só se está a assumir a delegação destas responsabilidades aos enfermeiros porque não temos médicos, quando na realidade o sentido deveria ser: nós temos médicos e eles são bons, mas os enfermeiros também são bons e faz todo o sentido reservar os médicos para as grávidas de risco e ter os enfermeiros a cuidar das grávidas de baixo risco. Percebo que o fim seria o mesmo, mas o caminho para lá chegar seria outro e a perceção que estaríamos a criar na população seria outra. Na forma em que está redigida a orientação dá a entender que os enfermeiros são “substitutos”, e não é de todo isso o que acontece. E este seria o primeiro caminho. Temos também de estudar os modelos que são praticados em Espanha, em Inglaterra ou nos Estados Unidos, só para citar alguns dos exemplos mais conhecidos, onde doentes crónicos não agudizados são normalmente seguidos pelos seus enfermeiros especialistas, para dar um exemplo simples. É este o caminho que temos que trilhar, a pouco e pouco, com base naquilo que já é feito, e bem, lá fora.

HN- Um dos entraves à dignificação da carreira de Enfermagem tem a ver com o mestrado? A maior parte dos profissionais de saúde inicia a sua profissão pós-mestrado. Na Enfermagem, não deveria ser esse o caminho?

MM- Deveria. Concordo a 100%. Aliás, um dos nossos pontos-chave, um dos diagnósticos que nós fazemos do que tem falhado à Enfermagem é realmente que não transitou para o mestrado. E nós já levamos oito anos de atraso. É muito tempo. Enquanto todas as outras profissões, de uma forma ou de outra, chegaram lá, nós continuamos presos a este modelo da licenciatura. Essa é realmente uma das lacunas que temos e que vai condicionar toda e qualquer negociação que os sindicatos façam com os governos. Não estou a apontar para nenhum governo específico, estou a falar de governos no geral. Chegaremos sempre a um momento em que o governo vai responder que não é justo pagar o mesmo aos enfermeiros que paga, por exemplo, aos professores porque eles são mestres e os enfermeiros não. E por muito que os enfermeiros aleguem – e com razão – que a nossa profissão é de complexidade muito exigente, que efectuamos muita formação após a licenciatura, que as nossas funções são de enorme responsabilidade, travamos sempre aqui: vocês saem licenciados, os outros saem mestres, logo é normal que os outros recebam mais do que vocês. Deixa-me bastante triste o facto de este problema não ter começado hoje. Já sabemos que isto é um problema há pelo menos 10 anos e continua tudo na mesma, igual ao que estávamos em 2015. Isto não pode continuar assim. Temos de ter uma visão que seja ambiciosa para a profissão, uma visão focada no crescimento. Esta visão tem que incluir, necessariamente, a evolução para o mestrado. Os enfermeiros têm, no mais curto espaço de tempo, de sair da faculdade como mestres académicos.

HN- Em relação à fuga de profissionais para o estrangeiro, para outras profissões, por não encontrarem na enfermagem futuro de vida, para além daquilo que já referiu, o que é que precisa de mudar?

MM- Vou-me repetir um pouco, mas é importante frisar porque é algo realmente importante. Primeiro, temos a questão das carreiras e dos salários. Temos que resolver esta situação; não podemos continuar com este modelo de baixos salários e até com um aumento da precariedade. O SNS, por exemplo, nos últimos tempos, voltou a contratar enfermeiros prestação de serviços. O SNS que deveria ser o bom exemplo de boas práticas laborais voltou a contratar numa ótica de precariedade. Não é nada saudável porque, se o SNS faz isto, mais depressa fá-lo-ão os empregadores privados. Mas há mais para além das carreiras e salários. Aqui há dias uma colega de um serviço de medicina contou-me que à tarde esteve a dividir o tempo do turno pelos doentes que tinha e dava exatamente 25 minutos para cada doente, e isso se não fosse comer, se não fosse beber água, se não tivesse que ir à casa de banho. Tinha exatamente 25 minutos para cada doente e isto incluía os registos – e ultimamente há uma tendência cada vez mais acentuada para nos exigirem mais registos, mais escalas, mais processos, sem ter em consideração o tempo gasto nestas novas tarefas. E estes 25 minutos por doente não esticam. A colega, preocupada, dizia-me: “se acontecer alguma coisa um bocadinho mais grave naquele serviço, eu não chego aos meus doentes todos, é impossível!” Quem é que consegue trabalhar assim? Quem é que aguenta trabalhar nestas condições? Quem é que se sente realizado enquanto profissional sabendo que vai pegar no seu turno e não vai conseguir prestar cuidados de qualidade porque tem apenas 25 minutos para cada doente ao longo do turno de 8 horas. Isto também tem de ser resolvido. Nós temos de encarar a Enfermagem como um investimento. Trabalhar com dotações seguras valoriza a profissão e é bom para os doentes. Ao tornar os lugares de trabalho mais seguros, contribuímos para a retenção dos enfermeiros.

E depois falamos da forma como socialmente a profissão é encarada, palpável quando os enfermeiros estão sistematicamente fora dos lugares de decisão, ou quando a opinião dos enfermeiros não é valorizada. Recordo-me de uma história que aconteceu num dos privados onde trabalhei. Era uma terça-feira de manhã, cheguei ao turno às 8h, e a chefe disse-nos, com ar triste, que as obras no serviço iriam começar imediatamente. Informaram-na no próprio dia que o serviço ia ter obras! E era a enfermeira chefe. Esteve a direção clínica, gestão, engenheiros, arquitetos, toda a gente durante meses a planear e ela só descobriu no próprio dia que estavam a ser planeadas obras no seu serviço. Esta desvalorização – este desrespeito – empurra as pessoas para fora da profissão, e é isto que não pode continuar a acontecer. Temos de valorizar a profissão.

HN- De que modo é que a Ordem contribui para que se faça ouvir a voz dos enfermeiros? Acha que a Ordem tem feito o suficiente para que seja ouvida a voz dos enfermeiros, ou há aqui lapsos? Eu fiz várias entrevistas nas últimas semanas a várias individualidades da saúde que estão de uma forma ou de outra envolvidas na atual reforma e ninguém falou em Enfermagem.

MM- Não me surpreende. E não me surpreende porque ao longo dos últimos anos a própria postura que a Ordem dos Enfermeiros adotou, muito perto daquilo que é uma postura sindical, acabou por centrar todo o discurso da Enfermagem e toda a voz dos enfermeiros nessas questões, como se os enfermeiros apenas soubessem falar daquilo que está mal do ponto de vista de condições materiais, e nunca do ponto de vista do planeamento em saúde. Logo, também não é de estranhar que as outras profissões não nos vejam como parceiros para reflectir estrategicamente sobre saúde. A Ordem naturalmente tem responsabilidades. É um facto que a Ordem esteve mais interventiva nos últimos anos do que esteve em mandatos anteriores, mas não esteve ativa no sentido de contribuir para o planeamento em saúde, para pensar a saúde, para ajudar na definição de políticas públicas de saúde. Pelo contrário, até se demitiu de ter opinião. Ora, isto depois contamina tudo o que é a profissão. Se a própria Ordem, que é a entidade que mais deveria desempenhar este papel, não o está a fazer, todos os outros enfermeiros são colocados no mesmo saco e vistos da mesma maneira. Por isso é que quando se fala nos problemas da saúde, e vê-se isso muitas vezes na imprensa ou até no próprio discurso político, fala-se apenas nos problemas dos médicos; quando se fala dos problemas das urgências, fala-se dos problemas dos médicos; quando se fala dos problemas dos blocos de partos, fala-se dos problemas dos médicos. Ou seja, parece que os médicos são o alfa e o ómega de toda a saúde, pelo que resolver os problemas da saúde é resolver os problemas dos médicos. Tudo o resto são como que acessórios que andam por ali. Isto tem de mudar! E uma das formas de realmente mudar passa por uma mudança de postura das ordens – neste caso, da Ordem dos Enfermeiros, que tem que ter um papel muito mais ativo nesta área, assumindo-se como um ator relevante na definição de políticas públicas de saúde em Portugal.

HN- Estamos num contexto de mudança, de reforma, ainda que com muitos solavancos. Temos uma direção executiva que não tem estatuto, que não tem tutela sobre o investimento nem sobre os recursos humanos e uma reforma que tem sido marcada por um caminho de uniformização da prestação dos cuidados tendo por base o modelo organizacional em pirâmide das ULS. Como é que vê o potencial das ULS enquanto modelo de organização?

MM- Tenho fé nas ULS; num modelo que procure integrar cuidados; que permita que os cuidados de saúde que são prestados na comunidade sejam os mais próximos possíveis daqueles que são prestados num hospital. Agora, ao mesmo tempo que tenho fé nas ULS, também tenho receio. Sabemos que os hospitais têm um financiamento muito superior àquele que é dado aos cuidados de saúde primários, têm uma força de gravidade muito superior, que atrai muitos mais recursos e atenção mediática.

Se juntarmos hospitais e centros de saúde dentro da mesma unidade e a gestão estratégica não estiver atenta – às vezes nem se trata de estar atenta, mas de uma questão cultural –, pode acontecer -, e há o receio disso, que o hospital simplesmente absorva ainda mais recursos aos cuidados de saúde primários. É algo a que temos de estar muito atentos. Por outro lado, também não nos podemos esquecer que esta reforma é estranha pois está a ser feita sem grande discussão pública, o que não é normal. Quando se fez a reforma dos cuidados de saúde primários foi nomeado um grupo para o efeito, e houve vários relatórios que foram apresentados, vários estudos, até que depois finalmente se avançou formalmente para a reforma. Seria benéfico envolver mais os parceiros. É mandatório envolver as autarquias – e esse é outro dos problemas que eu vejo. As autarquias vivem realidades e têm recursos muito diferentes e díspares entre si. Nunca tiveram reais responsabilidades na área da saúde, não têm meios humanos nem técnicos para, num tão curto espaço de tempo, assumirem responsabilidades tão grandes.

HN- O que é utópico.

MM- Exatamente. Ou seja, isto tem tudo para não correr bem. É uma das minhas preocupações. Espero que o governo tenha essa noção. É importante que seja concedido um período de adaptação, e que as autarquias com menos recursos sejam apoiadas. O objectivo final só pode ser: integrar cuidados aumentando a autonomia às equipas para elas poderem desenvolver o seu trabalho. Temos todos de trabalhar em equipa.

HN- Aqui há dias, entrevistei o presidente da ULS de Matosinhos, que me dizia que o sistema não está pensado ULS, ou seja, continuamos a ter as disfuncionalidades em termos de comunicação, os sistemas não são compatíveis.

MM- Sim, aliás, até acrescento que a ULS de Matosinhos é o único sítio onde o sistema informático está totalmente integrado entre cuidados de saúde primários e cuidados hospitalares. Em mais nenhum sítio do país isto acontece, o que nos deve preocupar e demonstra o quão difícil será a transição para um modelo apenas de ULS. De facto, toda a arquitetura da saúde digital foi feita com remendos em cima de remendos; há um programa muito antigo, precisamos de um novo, mas o novo é muito caro e se calhar o investimento é demasiado numa fase inicial, então vamos antes optar por remendar o que existe. Anos depois, já não serve, faz-se um remendo em cima do remendo. E assim vamos, de remendos em remendos, até chegarmos hoje a uma arquitetura que é muito disfuncional, comunica pouco e, realmente, é um dos nossos entraves para termos uma verdadeira integração de cuidados. Deveria ser possível e ajudaria muito – até evitaria o excesso de recursos à urgência – se o médico ou enfermeiro de família pudessem ter consultoria da equipa hospitalar em tempo real. Evitaria muitas idas à urgência ou muitas referenciações a consultas da especialidade. O PRR para a saúde contempla uma fatia de investimento considerável para a saúde digital. O investimento que tem estado a ser feito no sentido de criar o processo único digital do utente está em fase avançada e à partida, pelo menos uma versão preliminar, vai mesmo acontecer a curto ou médio prazo. Infelizmente, já não tenho tantas expectativas em relação à restante a arquitetura digital de saúde.

HN- Para terminar, um outro tema que anda quase sempre na boca do mundo, que tem a ver com os cuidados de saúde primários. Houve uma reforma que se iniciou em 2005, em setembro de 2006 foram abertas as primeiras USF, as primeiras quatro, e de repente parece que as coisas morreram, parece que a reforma terminou. Este é um aspeto. O outro aspeto tem a ver com os desnivelamentos que foram introduzidos com este novo modelo, porque, de facto, em termos salariais, trabalhar numa USF de modelo B é substancialmente diferente de trabalhar numa USF normal ou mesmo num hospital. Acha que estas discrepâncias são passíveis de se manter ou vai ter que se avançar para uma universalização de um modelo remuneratório em que a remuneração é sensível ao desempenho?

MM- Nós sabemos que as USF modelo B, não só pela componente salarial, mas também pela componente da própria organização de como os cuidados são prestados, são bastante eficazes. As pessoas gostam de estar inscritas numa USF modelo B e os profissionais gostam de trabalhar numa USF modelo B. Onde há USF de modelo B há uma boa cobertura de médicos e enfermeiros de família e as coisas acabam por correr bem. Mas depois, realmente, estamos a causar esta desigualdade para os outros profissionais que exercem fora destas unidades e que fazem um trabalho extraordinário nas UCSP, UCC ou USP. Faz sentido recompensarmos as pessoas pelo seu bom trabalho e por atingirem os indicadores que foram contratualizados.

Temos uma forma de encarar o trabalho demasiado punitiva. Avaliamos para punir ou para não permitir as progressões, mas nunca avaliamos para recompensar, seja do ponto de vista institucional seja do pessoal. Nunca se avalia para desenvolver a profissão, para desenvolver as pessoas e para as recompensar pelo bom trabalho. Não é justo e temos realmente que repensar a forma como estamos a recompensar os profissionais que dão o seu melhor e contribuem para os excelentes resultados das suas unidades.

HN- Uma nota final sobre a Ordem dos Enfermeiros.

MM- Eu acredito que a Ordem pode ser um verdadeiro motor de desenvolvimento da profissão. Um dos objetivos que deve ter a curto/médio prazo é uma forte aposta na formação e na investigação. Temos de recusar o modelo de uma investigação puramente académica. Não pode ser apenas uma actividade feita nos gabinetes de e para a academia. Deve ser uma investigação relacionada com a prática diária. Queremos instituir a figura do enfermeiro investigador.

Entrevista de Miguel Mauritti

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