
Em declarações à Lusa, na véspera de um encontro de dois dias sobre doses baixas de radiação na Europa, que arranca na quarta-feira, em Lisboa, a investigadora portuguesa do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) Paula Boaventura disse que a reunião se vai centrar na discussão do que está a ser feito ao nível europeu.
"O objetivo deste encontro é saber o que os outros estão a fazer porque enquanto não existir publicação podemos não saber que outras pessoas até podem estar a estudar aquilo que a gente está a estudar", disse Paula Boaventura.
Pretende-se, "no fundo, encontrar as linhas comuns, como é que isso se levanta, quais os estudos que estão a ser feitos na Europa, que oportunidades de financiamento existem e o que devemos fazer, porque, até aqui, cada um trabalhava no seu ´quintalzinho` e nem sequer conhecia as outras pessoas", afirmou.
A nível de Portugal, as doses baixas de radiações foram usadas no tratamento à tinha (lesões descamativas do couro cabeludo) de um grupo de crianças - na altura com idades entre os oito e os dez anos, e hoje na casa dos 50/60 anos -, porque se pensava que aquela era a melhor técnica para acabar com a doença, uma vez que fazia cair o cabelo, desconhecendo-se, no entanto, os seus efeitos.
Entre os anos 2006-2012, pesquisadores do IPATIMUP chamaram pela primeira vez essas pessoas, por notar que a terapia então efetuada poderia eventualmente ter provocado o desenvolvimento de vários tipos de cancros, como o da tiroide e da pele.
Atualmente, Paula Boaventura está a coordenar uma equipa de investigadores que tenta fazer o despiste ao nível cardiovascular às pessoas submetidas ao tratamento, para apurar eventuais problemas genéticos deste grupo populacional.
Essas doses baixas de radiação não foram usadas só para a cura da tinha em Portugal, também trataram a hemangioma (tumores benignos frequentes na infância, mais observados na pele da face, pescoço ou no couro cabeludo), que, entretanto, já não se usa.
Utilizou-se igualmente para a cura da acne, e, nos anos 1930, usou-se para tratamento de beleza, nos Estados Unidos da América, para fazer depilação, o que, para Paula Boaventura "é uma coisa extraordinária", dado os efeitos nefastos que pode ter sobre a própria saúde.
"O que estamos a tentar fazer em Portugal, além desta reunião que vai acontecer agora, é estabelecer um agrupamento das pessoas que trabalharam nas área de doses baixas de radiação para que esta área científica passe a ter peso na comunidade científica portuguesa, como tem noutros países, pois, às vezes, nem conhecemos as pessoas que estão a trabalhar no mesmo campo”, disse.
Segundo a investigadora, esta reunião também tem interesse porque é “uma forma de tentar criar um núcleo que se possa candidatar a projetos europeus", disse.
Entre os temas escolhidos, a reunião vai debater os desafios e oportunidades que existe na área de investigação em doses baixas de radiação, bem como a questão da radiobiologia e biomarcadores (marcadores genéticos), adiantou Paula Boaventura.
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