O vice-almirante que coordenou o processo de vacinação contra a covid-19 em Portugal falava numa cerimónia de homenagem ao general Loureiro dos Santos – antigo ministro da Defesa e ex-Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), que morreu em 2018 — no Instituto Universitário Militar (IUM), em Lisboa.

Num painel sob o mote “Há um novo papel para as Forças Armadas?”, moderado pela diretora de informação da agência Lusa, Luísa Meireles, Gouveia e Melo apontou que “as Forças Armadas têm capacidades que durante muito tempo não foram consideradas utilizáveis, apesar de existirem na sociedade civil em momentos de crise” e de há uns anos para cá “começaram a ser mais solicitadas”.

Na opinião de Gouveia e Melo, a experiência da pandemia e o seu sucesso “vai fazer pensar um bocado a população, o sistema político sobre esta relação”, algo que, se acontecer, “é útil”.

“Não pode haver, parece-me que é irrealista de alguma forma, algum preconceito contra a utilização de uma capacidade que existe no país quando ela é necessária e é útil”, defendeu.

O vice-almirante referiu que, no início do processo de vacinação “40% da população tinha dúvidas sobre esta vacina” e que agora só existem “2% de verdadeiros negacionistas ou anti-vacinas”.

O que esteve em causa nesta atuação das Forças Armadas no combate à covid-19, na sua opinião, foi uma “capacidade muito militar” de “olhar para um problema de forma multidimensional”.

No entanto, o vice-almirante alertou que os militares não podem ser “panaceia para tudo”, recordando que são “um remédio instantâneo, mas não um remédio de longo prazo” e que não se pode “transformar os militares numa coisa de tal maneira holística que deixam de ser militares e passam a ser escoteiros”.

Participante no painel, o tenente-general Marco Serronha, Chefe do Estado-Maior do Comando Conjunto para as Operações Militares (CCOM), apontou que “o perfil de empenhamento das Forças Armadas tem variado ao longo dos anos”.

“Mais focado umas alturas na defesa militar própria dos países, noutras alturas em apoio da política externa e nos últimos anos muito já em apoio daquilo que são cenários que seriam menos prováveis ao emprego das Forças Armadas, nomeadamente operações de estabilização no exterior e operações de apoio às populações”, referiu.

O tenente-general adiantou ainda que se antecipam cenários relacionados com as alterações climáticas e com possíveis novas pandemias “que exigirão que essas competências residentes das Forças Armadas sejam testadas, treinadas e preparadas para reagir melhor e mais oportunamente nesse tipo de situações”.

O militar referiu ainda que, no combate à pandemia, os militares conseguiram demonstrar a utilização de capacidades “de planeamento, de logística, de ação e de liderança também no terreno” para situações para as quais não estavam “minimamente habituados”, como foi o caso dos rastreios epidemiológicos.

Já a professora Helena Carreiras, diretora do Instituto de Defesa Nacional, apontou para “a conjugação desse novo tipo de missões com as missões tradicionais das Forças Armadas — missões de combate em que tradicionalmente os militares estão preparados” que vão coexistir, colocando novos desafios.

Na opinião da académica, Portugal está bem preparado “para fazer essa articulação” porque tem “um padrão integrado de relações civil-militares, ou seja, um padrão de uma democracia consolidada do ponto de vista daquilo que são as relações entre civis e militares”.

Vincando a importância da formação militar, Helena Carreiras considerou que existe “uma tendência, na reforma do ensino superior militar, para cada vez mais ir dando atenção a essas outras áreas que têm que ver com negociação, resolução de conflito”, entre outras capacidades.

Helena Carreiras salientou ainda que os militares são “políticos no sentido mais amplo”, uma vez que defendem “valores políticos” e constitucionais dos quais não se podem alhear.

Também Gouveia e Melo apontou que as perícias militares e os valores “não são incompatíveis” e que sem estes as perícias “poderiam ser perigosíssimas”.

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