Ouvimos vezes sem conta os mesmos comentários: “o bebé leva tudo à boca porque estão a nascer-lhe os doentes”, “está mais rabugento, são dentinhos”, “tem o rabinho assado, devem ser os dentes que estão para aparecer”… Os dentes conseguem ser culpados de quase tudo, o que os torna no bode expiatório perfeito. Mas o que é que realmente acontece quando nascem os primeiros doentes?

Uma meta-análise de 16 estudos publicada em 2016 na revista da Academia Americana de Pediatria lançou alguma luz sobre o assunto, sem, contudo, conseguir responder a algumas questões definitivas.

Os primeiros dentes decíduos surgem no bebé em torno dos 4 a 7 meses, embora, numa percentagem considerável de casos, possam surgir ainda mais tardiamente. Os primeiros dentes a surgir são os incisivos centrais do maxilar inferior. Seguem-se os restantes incisivos centrais, laterais, primeiros molares, caninos e segundos molares. A dentição decídua, com 20 dentes, está previsivelmente completa pelos 3 anos de idade.

Os bebés com a erupção dentária desenvolvem uma miríade de sintomas: em 86,1% dos casos há referência a irritação da gengiva, irritabilidade e mal-estar (68,2%) e salivação excessiva (55,7%). É frequente observar uma oscilação da temperatura corporal, frequentemente abaixo dos 38ºC. No entanto, se a temperatura corporal for superior a 38ºC, se o bebé apresentar náuseas, vómitos, diarreia, obstrução nasal ou tosse, é recomendável que se consulte o médico assistente.

Os pais caracteristicamente descrevem maior oscilação de temperatura e maior irritabilidade (salivação excessiva, irritabilidade, mãos na boca, alterações do padrão de sono e da ingestão alimentar) na erupção dos primeiros dentes.

Os bebés frequentemente massajam as gengivas com mordedores ou objetos duros, babam-se muito e desenvolvem uma erupção perioral ou no pescoço pelo contacto contínuo com a saliva.

Como aliviar os sintomas de irritação?

Através do fornecimento de chucha ou mordedores refrigerados mas não congelados, líquidos frios e massagem das gengivas. O uso de terapêutica local anestésica não está recomendada, no entanto, podemos recorrer ao uso de analgésicos orais, como paracetamol e ibuprofeno.

Na esmagadora maioria dos casos, apesar do mal-estar que desencadeia, a erupção dentária não é complicada. Excepcionalmente podem surgir quistos de erupção: trata-se de um saco de conteúdo fluido, oval, de tonalidade azul, sobre o dente por emergir. Frequentemente não requerem nenhum tratamento específico, já que o dente, ao irromper, resolve espontaneamente o quisto. Em casos seleccionados, pode ser necessário proceder à remoção do quisto.

Os colares de âmbar

O uso de colares de âmbar, bastante difundido pelo seu papel na diminuição da sintomatologia associada à erupção dentária é, no mínimo, discutível.

O pressuposto da sua utilização baseia-se no facto do calor corporal estimular a libertação de ácido succínico das pedras de âmbar. Pensa-se que o ácido succínico tenha um papel antinflamatório e analgésico.

No entanto a eficácia do uso dos colares de âmbar não está estabelecida.

Infelizmente, o risco de asfixia pelo uso de colares ou por aspiração acidental das pedras de âmbar soltas, pode ser realmente o maior fator a ter em conta no momento de decisão de colocar o colar no seu bebé.

Um artigo da médica pediatra Joana Martins.

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