“Esta é a menina com os olhos ocupados. Não come sopa, nem carne, nem peixe, nem fruta, nem gelados de cone. Anda sempre na rua sozinha, com a sua cabeça colada ao telefone”, escreve André Carrilho no começo desta história, escrita em rima.

Nas páginas seguintes, são enumeradas aventuras e experiências, com piratas e palhaços, na rua, no espaço e numa montanha russa, ignoradas pela menina, concentrada no telemóvel.

A partir desta realidade comum, de crianças que passam muito tempo entretidas com pequenos ecrãs, André Carrilho criou um livro ilustrado para mostrar aos leitores que “é bom ter os olhos desocupados” para apreciar o que os rodeia.

À agência Lusa, André Carrilho explicou que também foi instigado para este livro pelos filhos, com quem mantém o ritual de leitura antes de adormecerem.

André Carrilho edita primeiro livro ilustrado para a infância
A Menina com os Olhos Ocupados de André Carrilho / Editor: Bertrand Editora créditos: Bertrand Editora

“Comecei a imaginar histórias que me pudessem facilitar falar com eles de alguns assuntos que acho importantes. Um deles é o uso de tecnologias, dos ‘gadgets’ e como devemos ter cuidado, conta, peso e medida a utilizar tudo. Eu gosto muito de livros que os ajudem a entender o mundo e problemas específicos que eles tenham”, contou.

André Carrilho não condena os pais que recorrem às tecnologias para amparar a atenção dos filhos: “Não estou a julgar ninguém, só estou a dar ferramentas para, quando for preciso criar algum controlo nas crianças em relação a essas coisas, poderem usar este livro como ponto de partida para uma conversa”.

“A menina com os olhos ocupados”, que é editado esta semana pela Bertrand Editora, demorou um ano a ser trabalhado, todo ele feito com aguarela e com alguns acrescentos finais em digital aproveitando aquela técnica de pintura.

“O livro podia ser uma espécie de livro de autor sobre o prazer de fazer coisas à mão e não utilizar tanto o computador. (…) A aguarela tem uma grande dose de aleatoriedade, e por isso é muito difícil, muito laborioso mimetizá-la com o computador. Há efeitos que só se podem conseguir com aguarela e era disso que eu estava à procura”, explicou André Carrilho.

O autor deu um exemplo da demora no trabalho com aguarela: Repetiu algumas ilustrações “até à exaustão, até achar que estava a dominar a técnica de aguarela”, que considera a mais difícil.

Nas guardas do livro foram colocados alguns esboços e desenhos preparatórios da história, “para se perceber que um desenho não nasce do nada, tem uma evolução, um caminho mental, de exploração e que o livro dá trabalho”.

“A menina dos olhos ocupados” assinala a estreia de André Carrilho enquanto autor de um livro ilustrado para a infância, depois de ter ilustrado “Marquesa de Alorna. Querida Leonor”, de Luísa de Paiva Boléo, para uma coleção de biografias para os mais novos.

André Carrilho junta ainda duas experiências de ilustração infantojuvenil nos Estados Unidos – mercado onde trabalha com regularidade -, para os livros “Porch lies” (2006), de Patricia McKissack, e “You never heard of Sandy Koufax?” (2016), de Jonah Winter.

André Carrilho, 46 anos, tem mais de duas décadas de trabalho na ilustração, animação e sobretudo em caricatura e cartoon, áreas que lhe valeram vários prémios internacionais.

Colabora regularmente com o Diário de Notícias e já assinou trabalhos para, entre outros, Financial Times, Harper’s Magazine, El Mundo, The New York Times, The New Yorker, Público e Vanity Fair.

Em 2002, recebeu o galardão de ouro de ilustração da Society for News Design dos Estados Unidos, em 2009 venceu o primeiro prémio de caricatura do World Press Cartoon e em 2011 o Prémio Stuart de Desenho de Imprensa.

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