Gītā Jayantī, como o nome indica, é o aniversário da Bhagavad Gītā, isto é, a celebração do dia em que o discurso entre Śrī Kṛṣṇa e o jovem príncipe indiano Arjuna teve lugar, momentos antes da batalha em Kurukśetra, há mais de 5000 anos atrás. A Bhagavad Gītā, parte integrante do épico Mahābhārata escrito por Veda Vyāsa, é uma das mais importantes escrituras de sempre, razão pela qual é admirada por inúmeros ilustres pensadores ocidentais como, por exemplo, Albert Einstein, Albert Schweizer, Aldous Huxley, Arthur Schopenhauer, Carl Jung, Herman Hesse, Ralph Waldo Emerson, Robert Oppenheimer, Rudolph Steiner, entre outros.

De facto, Einstein chegou mesmo a deixar imortalizado para a posterioridade um interessante comentário sobre a Gītā:

"Quando leio a Gītā e reflito sobre a forma como Deus criou este universo tudo o resto me parece tão supérfluo”. (1)

Na Gītā, Arjuna assume o papel de discípulo (śiṣya) perante Kṛṣṇa, seu mestre (guru), e aprende sobre a sua real natureza, o Ser (ātman), e a verdade universal – este Ser não é diferente do Todo (Brahman). Esta sublime mensagem faz parte de um corpo de conhecimento chamado Vedānta, também conhecido por Jñāna Yoga ou Uttara Mīmāṃsā, que procura a libertação espiritual do ser humano (mokṣa) através da remoção da ignorância de si-mesmo (avidyā) que o condena ao sofrimento (duḥkha) e o impede de desfrutar do Conhecimento (jñānam).

Kṛṣṇa, pacientemente, ensina a Arjuna a resolução do problema fundamental do ser humano que o aprisiona no ciclo de renascimentos (samsāra), através de Karma Yoga e Jñāna Yoga. Face ao desejo de Arjuna de fuga e desistência da luta contra familiares e amigos, Kṛṣṇa, explicando o Karma Yoga, impele Arjuna a agir, neste caso a guerrear, com a atitude correta: atendendo à ética e aos valores fundamentais (dharma) e, ao mesmo tempo, livre do apego em relação ao fruto das ações:

Veja a continuação do artigo na página seguinte

 

“Faz a ação que é necessário fazer porque a ação é superior à inação.” (BG 3.8). “Realiza sempre a ação necessária sem apego porque realizando a ação sem apego uma pessoa atinge o supremo.” (BG 3.19). “Aqueles que constantemente seguem este Meu ensinamento (…) estão livres dos frutos da ação.” (BG 3.31) (2).

Segundo Svāmi Paramārthānanda, reconhecido professor de Vedānta na tradição de Ādi Śaṅkarācārya:

“Primeiro seja um Karma Yogi. Qualquer que seja o karma que você faz, aprenda a desfrutar da realização do karma oferecendo-o como uma oferenda, pūjā, ao Senhor. Nunca espere pela felicidade futura. O futuro é imprevisível, incontrolável, não está totalmente nas minhas mãos. (…) Reduza rāga e dveṣa (apego e aversão). Um Karma Yogi evita desconforto mental. (…) Depois é necessário passar pelo mais elevado e difícil estágio: Jñāna Yoga, educação espiritual. Eu tenho que fazer a pergunta "Quem sou eu?", e, "O que eu realmente quero na minha vida?". (3)

Como em qualquer disciplina ou ciência, o conhecimento só deverá ser transmitido àquele que se dispõe a escutar com atenção, de forma sistemática e sincera (BG 18.67) (4), alguém que esteja (vivo e) completamente estabelecido no ensinamento (guru ou ācārya) e que tenha habilidade suficiente para transmitir esse conhecimento. Na Muṇḍaka Upaniṣhad (1.2.12) (5) são referidos dois termos específicos em Sânscrito para qualificar um verdadeiro guru: śrotriyam e brahma-niṣṭham. Śrotriyam é aquele que é versado nas escrituras, segundo uma tradição (sampradāya), e brahma-niṣṭham é aquele que está firmemente estabelecido no conhecimento do Ser. Kṛṣṇa, sendo uma encarnação (avatāra) do próprio Viṣṇu, possui, obviamente, esses requerimentos necessários para levar Arjuna a “ver” a sua real identidade através do conhecimento “Eu sou Brahman” (aham brahmāsmi), uma das grandes afirmações (mahāvākya) de Vedānta. Logo no segundo capítulo, Kṛṣṇa começa o ensinamento que irá pautar o resto da obra:

Veja a continuação do artigo na página seguinte

"Este Ser nunca nasceu; nem morre. Não é que tendo sido, cessa em existir de novo. É não-nascido, eterno, imutável, e sempre novo. Quando o corpo é destruído, o Ser não é destruído.” (BG 2.20) (6).

E, repetidas vezes, ao longo do texto, até ao seu término no capítulo dezoito, quando Arjuna vê esclarecidas todas as suas dúvidas, Kṛṣṇa reforça a ideia anterior:

"O conhecimento está encoberto pela ignorância e devido a isso as pessoas estão iludidas.” (BG 5.15). “Quando alguém vê com clareza, a condição de distinção nos seres como tendo existência em um (ātman) e a partir unicamente dele as suas projeções (distinções), então alcança Brahman.” (BG 13.30). “Aqueles que, desta forma, entendem a distinção entre kṣetra (o corpo) e kṣetrajña (o conhecedor do corpo) através dos olhos da sabedoria e percebem a liberdade da prakṛti (natureza), a causa dos seres, avançam rumo ao derradeiro objetivo.” (BG 13.34) (7).

Este conhecimento que Kṛṣṇa propõe não é nada de novo, já se encontrava nas antigas escrituras (śāstra). Aliás, o próprio refere no seu discurso o seguinte:

"Eu ensinei este yoga imperecível a Vivasvān, Vivasvān ensinou-o a Manu e Manu ensinou-o a Ikṣvāku. Tendo sido passado de geração em geração desta forma, os reis que eram sábios sabiam-no. Mas, com o passar do tempo, Arjuna, o destruidor dos inimigos, este yoga declinou no mundo.” (BG 4.1) (8).

Veja a continuação do artigo na página seguinte

Logicamente, este conhecimento não interessa apenas ao povo indiano, Hindu ou, tampouco, oriental. É um conhecimento que serve toda a Humanidade, como refere Aldous Huxley, independentemente de nacionalidade, raça, sexo ou credo. A sua actualidade reside no facto de que todo o ser humano nasce autoignorante. O próprio nascimento, segundo a visão Hindu sobre reencarnação, comprova isso mesmo, pois apenas nascemos porque ainda necessitamos de evoluir espiritualmente. E, por sermos ignorantes sobre o Ser, continuamos imersos na confusão entre o “real e o irreal, a não-verdade e a verdade, a sensação de limitação e o ilimitado” (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad 1.3.28). (9)

Svāmi Cinmayānanda, uma autoridade neste ensinamento, afirma:

"A Gītā é um livro que nos serve onde quer que estejamos e quem quer que sejamos, qualquer que seja o nosso problema.” (10)

Svāmi Śivananda fundador da The Divine Life Society, escreve no seu livro "Hindu Fasts and Festivals":

"Mantenha uma edição de bolso da Gītā consigo o tempo todo. Selecione alguns versos que o(a) inspirem. Todos os dias, enquanto espera pelo seu autocarro ou comboio, ou quando quer que tenha algum tempo livre, abra o livro e leia esses versos. Manter-se-á sempre inspirado(a).” (11)

Mas, talvez a mais profunda reverência a esta obra tenha sido proferida por Mahātmā Gandhī:

"A Gītā é a mãe universal. Eu encontro sempre um consolo na Bhagavad Gītā que sinto falta até mesmo no Sermão da Montanha. Quando o desapontamento me olha na cara e eu sozinho não encontro um raio de luz, volto-me para a Bhagavad Gītā. Encontro um verso aqui e um verso ali e imediatamente começo a sorrir no meio de tragédias esmagadoras – e a minha vida tem sido cheia de tragédias externas – e se elas não deixaram cicatrizes visíveis ou indeléveis, devo tudo ao ensinamento da Bhagavad Gītā. Hoje a Gītā não é apenas a minha Bíblia ou o meu Corão, é mais do que isso – é a minha mãe... quando estou com dificuldades ou aflito procuro refúgio no seu colo.” (12)

Gītā Jayantī celebra-se no décimo primeiro dia da lua crescente (Ekādaśi) do mês Hindu Mārgaśīrṣa, isto equivale a dizer que, este ano, de acordo com o calendário gregoriano, a comemoração ocorre a 28 de Novembro.

por: Gustavo Cunha

Veja a continuação do artigo na página seguinte

 

Referências:
(1) Stefanie Syman, "The first book of Yoga" in Yoga Journal, Outubro 2006, p. 167, ISSN 0191-0965, Active Interest Media, EUA. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(2) Svāmi Dayānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gītā" (text with roman transliteration an English translation), Arsha Vidya Centre, Chennai, Índia. ISBN: 978-81-903636-8-6. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(3) Svāmi Paramārthānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gita Commentary", entre 24m e 51m a 7 de Março de 2005, Chennai, Índia. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(4) Svāmi Dayānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gītā" (text with roman transliteration an English translation), Arsha Vidya Centre, Chennai, Índia. ISBN: 978-81-903636-8-6. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(5) Svāmi Kṛṣṇānanda, "The Muṇḍaka Upaniṣhad", p.36, The Divine Life Society, Rishikesh, Índia. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(6) Svāmi Dayānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gītā" (text with roman transliteration an English translation), Arsha Vidya Centre, Chennai, Índia. ISBN: 978-81-903636-8-6. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(7) Svāmi Dayānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gītā" (text with roman transliteration an English translation), Arsha Vidya Centre, Chennai, Índia. ISBN: 978-81-903636-8-6. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(8) Svāmi Dayānanda Sarasvatī, "The Bhagavad Gītā" (text with roman transliteration an English translation), Arsha Vidya Centre, Chennai, Índia. ISBN: 978-81-903636-8-6. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(9) "asato mā sad gamaya, tamaso mā jyotir gamaya, mṛtyormā amṛtaṃ gamaya". Tradução livre de Gustavo Cunha.
(10) Svāmi Cinmayānanda, "The Geeta - Her special charm". Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(11) Svāmi Śivananda, "Hindu Fasts and Festivals", p. 41, The Divine Life Society, Tehri-Garhwal, Índia. ISBN 81-7052-039-8. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.
(12) Harijan, 24-8-1934, Índia. Tradução do Inglês por Gustavo Cunha.

 

Um bocadinho de gossip por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.

Subscreva a newsletter do SAPO Lifestyle.

Os temas mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Lifestyle.

Não perca as últimas tendências!

Siga o SAPO nas redes sociais. Use a #SAPOlifestyle nas suas publicações.

Veja também

 
 

Comentários