De acordo com a Estratégia Internacional de Redução de Desastres, da Organização das Nações Unidas (EIRD ONU), “desastre é uma séria interrupção no funcionamento de uma comunidade ou sociedade causando uma grande quantidade de mortes, bem como perdas e impactos materiais, económicos e ambientais que excedem a capacidade da comunidade ou sociedade afetada de fazer frente à situação mediante o uso de seus próprios recursos.”

A padronização internacional de conceitos é feita pela EIRD ONU, que lidera as ações de redução de riscos e desastres em todo o mundo. A ONU tem defendido que as cidades e os governos locais devem preparar-se e aumentar sua resiliência face às catástrofes. Nos próximos anos, o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR) desenvolverá campanhas com seus parceiros para que isso possa vir a acontecer.

Tipo de desastres

Existem vários tipos de desastres naturais. As inundações são o tipo mais frequente de desastres naturais, mas ciclones, tremores de terra com ou sem tsunamis associados, e erupções vulcânicas, são outros exemplos de desastres naturais que ocorrem também frequentemente, embora alguns deles predominantemente em certas regiões geográficas.

Contudo, existem outras situações que causam graves roturas no funcionamento das sociedades, e que não são desastres naturais. Um exemplo recente é a guerra na Ucrânia que, embora localizada, tem sido responsável por destruições massivas e milhares de mortes. Um outro exemplo recente foi a pandemia de COVID 19, que, em Portugal, foi responsável por milhares de mortes, atingindo sobretudo a pessoas mais vulneráveis, entre as quais estão incluídos os doentes renais.

Preparar os cuidados de saúde renais para desastres futuros

No rescaldo da pandemia de Covid 19, sabe-se hoje que os doentes mais frágeis, entre os quais se incluem os doentes renais, apresentam maior probabilidade de desenvolver doença grave e de morrer, e este facto deveu-se, entre outros fatores, a que, no contexto da pandemia, foram assumidas prioridades mais centradas na doença infeciosa aguda, e menos centradas nas complicações associadas à doença de base dos doentes renais1-2. A fragilidade dos sistemas de saúde foi evidente durante, por exemplo, a epidemia com o vírus Ébola: a perda de vidas, a rutura social massiva, e o colapso dos serviços que prestam cuidados de saúde mais básicos, mostra o que acontece quando a crise atinge, e os sistemas de saúde não estão preparados3. Assim, existe a necessidade de os sistemas de saúde desenvolverem sistemas mais resilientes. A resiliência dos cuidados de saúde pode ser definida como a capacidade dos intervenientes na saúde, instituições, e populações, para se prepararem e efetivamente responderem às crises; manterem as funções chave quando a crise aparece; e, informados pelas lições aprendidas durante as crises, efetuarem as reorganizações que a situação exige3.

Uma estrutura que esteja preparada para as emergências de saúde pública que possa facilmente ser adaptada e aplicada universalmente é essencial, permitindo aos sistemas de saúde modificar mais facilmente os planos existentes, para se adaptarem ao tipo de desastre existente4.

Em Portugal, a vacinação massiva para o Covid-19, foi uma estratégia de adaptação que permitiu salvar milhares de vidas, nomeadamente na população com doença renal crónica.

Os doentes em diálise representam um grupo de doentes particularmente vulnerável a situações de desastre. A pandemia de Covid-19 representou um enorme desafio no tratamento desta população, que implicou alterações substanciais na organização habitual das unidades de diálise e, nomeadamente, a criação de circuitos separados e de unidades de isolamento. A vulnerabilidade dos doentes em diálise é também evidente em situações de desastres produzidos pelo homem, como é o caso da guerra, que cria um elevado risco de problemas médicos e logísticos. Na Ucrânia, existiam no início da guerra cerca de 8.000 doentes em hemodiálise, 1000 doentes em diálise peritoneal, e quase 1500 doentes transplantados renais. Contudo, mais de 180 centros médicos foram danificados desde o início da guerra, incluindo centros de diálise, sendo os centros de diálise também afetados por falta de água e de energia. Um número não quantificado de doentes em diálise encontrou solução por transferência de tratamento para países vizinhos5-6.

Conclusões

As ruturas nos cuidados de saúde renais são cada vez mais frequentes. Independentemente do tipo de desastre, a manutenção de cuidados renais em situações inesperadas, necessita de um nível de preparação adequado, assente em planos robustos, personalizados para cada situação, que devem ser constantemente testados e revistos. Os sistemas de cuidados de saúde renais devem ser adaptativos, robustos, e resilientes. Uma solução passa por incorporar os cuidados renais numa estrutura que esteja preparada para as emergências de saúde pública, que possa facilmente ser adaptada e aplicada a cada situação4.

Bibliografia

  1. Dashtban A et al. A retrospective cohort study predicting and validating impacto f the COVID-19 pandemic in individuals with chronic kidney disease. Kidney Int 2022; 102: 652-660
  2. Nikoloski Z et al. Covid-19 and non-communicable diseases: evidence from a systematic literature review. BMC Public Health 2021; 21: 1068
  3. Kruk ME et al. What is a resiliente health system? Lessons from Ebola. Lancet 2015; 385: 1910-1912
  4. Hsiao L-L et al. Kidney health for all: preparedness for the unexpected in supporting the vulnerable. Kidney Int 2023; 103: 436-443
  5. Vanholder R et al. Wars and kidney patients: a statement by the European Kidney Health Alliance related to the Russian-Ukranian conflict. J Nephrol 2022; 35: 377-380
  6. Stepanova N et al. Lifesaving care for patients with kidney failure during the war in Ukraine 2022. CJASN 2022; 17: 1079-1081

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