Um número crescente de países europeus está a experimentar programas em que viciados em heroína são tratados com uma versão medicinal da droga, uma terapia que já provou ter eficácia, segundo um relatório hoje divulgado.

No relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, analisam-se os resultados de programas em que viciados em opiáceos - nomeadamente heroína - para quem tratamentos com drogas de substituição tradicionais não funcionaram podem beneficiar desta nova abordagem.

Os peritos que elaboraram o documento consideram que a administração de heroína medicinal a toxicodependentes "impossíveis de tratar" pode ser um "importante avanço clínico":

A terapia com diacetilmorfina - heroína produzida em laboratório para fins medicinais - traz melhorias visíveis para a saúde dos toxicodependentes, integração social e redução de consumo, indicam os peritos.

Segundo o OEDT, apresenta também vantagens para o resto da sociedade por contribuir para reduzir a incidência de crimes cometidos por estas pessoas para arranjar droga na rua, apesar de ser consideravelmente mais caro do que os regimes de tratamento mais tradicionais, com metadona.

Reconhecendo que se trata de uma abordagem "polémica" ao problema da toxicodependência, o presidente do observatório, Wolfgang Götz, afirmou que o tratamento "não consiste simplesmente em oferecer heroína aos toxicodependentes que a consomem".

É "um regime de tratamento fortemente regulamentado" dirigido a um grupo "diminuto", com a heroína administrada sob vigilância médica para evitar desvios para o mercado ilícito em clínicas especializadas, afirmou.

Segundo contas feitas baseadas nas experiências realizadas na Suíça, Alemanha e Holanda, este tratamento custa anualmente entre 12.700 e 20.400 euros por doente, contra os 1600 a 3500 euros que custam os tratamentos com metadona por via oral, aplicados a cerca de 700 mil dos 1,3 milhões de consumidores de opiáceos na Europa.

A heroína medicinal destina-se à "pequena minoria" que não reage a qualquer outro tratamento e começou por ser aplicada na Suíça em meados da década de 1990. Desde então, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Reino Unido começaram a desenvolver os seus próprios programas.

Na Espanha e no Canadá há já experiências a decorrer, mas só a título de investigação.

O diretor do OEDT afirmou que o objetivo daquela agência europeia sedeada em Lisboa não é "defender esta abordagem mas sim informar" os decisores e profissionais de saúde, para que tirem "as suas próprias conclusões" sobre esta possibilidade de terapia.

No estudo salienta-se que a terapia "não é uma solução para o problema da heroína" e, a ser adotada numa escala maior, não deverá "pôr em risco a adesão dos outros doentes" às terapias de substituição tradicionais.

19 de abril de 2012

@Lusa

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