Entre memórias de infância, família, as boas recordações e as menos boas, Matay partilhou com Daniel Oliveira várias fases da sua vida.

Filho de pais separados, o cantor contou que “não tem memória dos pais juntos”, referindo que nunca faltou comida em casa do pai, “mas em casa da mãe era mais difícil”.

“Tínhamos apoios, as associações onde íamos buscar comida, e aí era difícil. Não faltava porque a minha mãe era batalhadora. Mulher de guerra. Uma sandes de fiambre, por exemplo, se calhar não era tão fácil, mas havia um pão com manteiga. Era o que havia”, lembrou.

“Aprende-se a viver desta forma e a dar graças a Deus”, acrescentou, contando que era “difícil a convivência” na praceta onde vivia com a mãe. “As questões relacionadas com a cor eram pesadas”, afirmou, explicando que havia uma “maioria clara” de famílias de cor branca. “Os meus irmãos quase que não podiam sair à rua para brincar. Era hostil”, recordou.

"A longo da vida vais vivendo muita coisa"

Entre as memórias, partilhou uma situação em que um dos irmãos “estava a brincar na rua e houve uma mãe de um miúdo que da janela disse: ‘então estás a brincar com esse preto’”.

“Tens que sobreviver, vais aprender de dia para dia o que é que tens de fazer, que caminhos tens de fazer para conseguires continuar cá. Não sinto raiva de ninguém. É tu conseguires depois dar seguimento à tua vida porque isto são coisas que… fazem parte da minha vida”, disse, entre silêncios. “A longo da vida vais vivendo muita coisa”, continuou, recuando ao passado marcante.

“Quantas vezes estava sentado [no autocarro] e vinha alguém que dizia que eu tinha que me levantar. [Eu respondia]. Nunca fui pessoa de aceitar abusos”, destacou.

"Veio a polícia e manda-nos encostar à parede. Não se faz. E isto foi aqui, cá em Portugal"

Entre as partilhas, falou de um episódio também ele marcante. Acontece numa noite em que saiu com um grupo de amigos, em Lisboa.

“Éramos quatro pretos e um branco. Veio a polícia e manda-nos encostar à parede. Perguntei porquê e disseram que nos enquadrávamos na descrição do grupo para o qual eles estavam ali. E ao branco que estava connosco, disseram-lhe que ele podia ir para casa. Questionei porque ele estava connosco, era nosso amigo, vai para casa porquê? E ele revoltado também, ficou do outro lado do passeio. Pediram-nos para ficarmos voltados para a parede. Eu não me virei para a parede, isso não. […] Recusei-me", relatou.

"Trabalho todos os dias, venho aqui sair, divertir-me, e sou encostado à parede por nada, ninguém me diz porquê. Disse-lhe que se fiz alguma coisa, para me levarem para a esquadra. […] O que é que fiz para merecer isto? Fomos identificados e fomos embora sem nenhuma explicação. E aí eu já era adulto. […] Não se faz. E isto foi aqui, cá em Portugal”, partilhou.

"Adoro o meu pai. Amo os meus pais"

Licenciado em Animação Sociocultural, o trabalho na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa também foi tema de conversa. Além disso, os elogios ao pai também se destacaram.

“Adoro o meu pai, batalhador e lutou muito para que eu também pudesse estar aqui hoje, para que tivesse uma formação. Se conseguir ser metade daquilo que o meu pai foi, a minha missão está cumprida”, realçou. “Ele tinha uma função que era garantir que as coisas ficavam bem, pelo menos a parte económica, poder ter um teto, não faltar comida na mesa…”, acrescentou, frisando depois: “Eu amo os meus pais”.

"É difícil ao ponto de precisares de viver um processo de aceitação. E perceberes que não és menos"

Ainda durante a entrevista, questionado por Daniel Oliveira sobre “quando é que passou a sentir orgulho da sua cor”, Matay respondeu: “É difícil ao ponto de precisares de viver um processo de aceitação. E perceberes que não és menos. Não tens só uma luta exterior, também é interior. Não é só aquela coisa de ser o preto que venceu, é sentires que realmente estás a fazer uma coisa bem feita e valorizares-te por isso. E sentires que o facto de seres preto não te diminuiu em nada”.

“Felizmente tenho várias coisas que faço que me deixam orgulhoso. […] E estas pequenas vitórias ajudam-me a valorizar aquilo que sou, quer seja preto, branco ou amarelo. Depois há outro lado, que é o lado na comunidade. E aí é quase como uma missão minha também de tentar mostrar, primeiro eu não cheguei aqui por ser melhor que ninguém, sou como tu, temos a mesma cor. Se eu consegui, tu também consegues. […] Houve alguém que chegou à minha frente e me mostrou o caminho, agora eu sigo, mas vou abrir caminho para ti. É delicado quando tu tens que dizer que não és menos. Porque é que há um defeito por nascer, porque há esta conotação só por ser pessoa, por existir”, acrescentou.

"Podes escolher marcar a diferença pela positiva"

Em conversa com o apresentador da SIC, o cantor lembrou também uma história muito feliz que viveu com os filhos, Vicente e Santiago.

“Há dias estava a brincar com os meus filhos, que estavam a jogar à bola, e um senhor de 92 anos pediu a bola ao meu filho e ficou a jogar à bola com ele. E vias claramente brilho naquele olhar, coração bom. Isto também se vê. Agora perguntas-me, um senhor com 92 anos vem de um outro tempo, se calhar de um tempo em que esta questão da cor estava muito presente… Ele não mudou agora", disse.

"[É uma questão de educação] e não só, é uma escolha. Podes escolher marcar a diferença pela positiva. E aquele senhor, um querido, no final disse: próximo domingo estou cá e se vocês não vierem têm falta de comparência”, salientou, com um sorriso no rosto, reconhecendo depois que não há apenas olhares bons, mas também “de censura”.

"E nem vale a pena virem com a conversa de que ‘o melhor amigo é preto’"

“Não me digam que não. Esse olhar eu já o conheço. Eu treinei isso a vida toda. Porque grande parte das vezes era no olhar que tu sabias onde estava o perigo. […] E nem vale a pena virem com a conversa de que ‘o melhor amigo é preto’”, frisou. “As pessoas que têm essa forma de estar não estão muito disponíveis para conversar. Aquilo é quase como um posicionamento para a vida”, acrescentou.

“Queres que os teus filhos digam que o pai foi quem?”

Casado com Maria, os elogios à mulher também não foram poupados, assim como a resposta à pergunta: “Queres que os teus filhos digam que o pai foi quem?”

“Quero que eles digam que o pai foi boa pessoa. A música, eu quero deixar a minha marca, naturalmente, quero poder ligar o rádio e ouvir a minha voz, poder andar na rua e que as pessoas saibam que aquela música é minha. Mas que saibam que aquela música é minha porque encontraram espaço onde se identificaram com aquilo e porque aquela música ouve um dia que mudou também o dia naquela pessoa. É por esse motivo. E quer os meus pais, quer os meus filhos, quero que saibam que faço música com o coração. E é nesse sentido que quero ser lembrado”, disse.

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