"Hoje em dia os casamentos 'desiguais' não causam, por enquanto, demasiados problemas nas dinastias reinantes. Mas será que em determinado momento os seus 'súbditos' ou 'concidadãos' não se interrogarão sobre para que serve a monarquia se os soberanos são idênticos a eles? O futuro o dirá". Esta é uma das questões que serviu de mote e, de certa forma, de conclusão, para o mais recente livro de José de Bouza Serrano.

Em 'As Famílias Reais dos Nossos Dias', o diplomata e antigo chefe de Protocolo do Estado reflete sobre as monarquias ainda existentes e acerca da forma como estas acabaram por ser tornar em "realezas do coração", como o próprio as define.

O exemplo que de imediato nos vem à memória é o de Meghan Markle, que protagonizou um verdadeiro conto de fadas ao abandonar tudo para se casar com o grande amor da sua vida, o príncipe Harry. Contudo, esta é uma tendência que já se verifica há anos e sobre a qual Bouza Serrano refletiu também na conversa que se segue.

Qual o motivo que o levou a escrever este livro?

Estou na parte descendente da minha carreira, são 40 anos de diplomacia e é a altura de fazer contas. Quando olho para trás chego à conclusão interessante que só servi em embaixadas de monarquias, nunca estive em repúblicas. O meu último posto foi na Holanda e assisti a uma coisa inédita que foi a transmissão do trono de uma mãe para um filho sem morrer. Até estive no Vaticano, que é uma monarquia eletiva. Este foi o momento de fazer a síntese das pessoas reais que tinha conhecido.

E a que conclusão chegou nessa altura?

Cheguei à constatação que - olhando para aquela plateia magnífica em Amesterdão - estavam todos 'mal' casados [ri-se, enquanto fala isto], no sentido em que nenhum deles tinha casado pelo preceito antigo da igualdade. Escolheram os cônjuges fora da lista do Gotha. Ainda assim, tenho de concluir que não tem corrido mal. Há certas coisas que não são como eram, mas o saldo é positivo.

No livro, o José refere que no terceiro milénio os tronos destinaram-se à "Realeza do Coração", o que vai ao encontro ao que acabou de dizer, certo?

A monarquia é realmente uma elite, em que tudo é programado para que se mantenha o sangue real

Sim. Antes não casavam por amor, o qual podia surgir mais tarde ou não. Como se tratavam de casamentos arranjados, as histórias eram infelizes. A monarquia é realmente uma elite, em que tudo é programado para que se mantenha o sangue real. Portanto, isso leva a certas obrigações e sacrifícios. Hoje em dia, as pessoas não estão para sacrifícios.

Essa alteração do paradigma nas uniões trouxe mais benefícios ou prejuízos?

Até agora tem trazido benefícios porque se fizermos o conto destas 10 famílias reinantes, que estão no meu livro, os casais funcionaram. São exemplares, têm famílias felizes e a vida com os seus dramas, como qualquer família.

Faço-lhe a mesma pergunta que o José faz no seu livro: "Será que em determinado momento não se interrogarão sobre para que serve a monarquia e se os soberanos são idênticos a eles?"

Isso sim. O rei da Suécia, por exemplo, foi autor de um trono frágil porque estavam sempre a ser postos em causa. Carlos Gustavo da Suécia antecipou-se e reduziu drasticamente a família real.

E essa decisão foi uma questão de sobrevivência?

Têm de jogar com uma proximidade dos seus súbditos e sobretudo com uma normalidade

Foi. Têm de jogar com uma proximidade dos seus súbditos e sobretudo com uma normalidade. Atualmente é difícil as pessoas admitirem que alguém que não foi eleito possa viver dos rendimentos dos contribuintes. Portanto, há que haver uma justificação e, neste caso, era muita gente para justificar [no caso da realeza sueca]. Foram buscar os mais representativos e os que têm cargos na sucessão da coroa e os outros que são colaterais têm de se fazer à vida. Não só é uma questão de sobrevivência, como também de popularidade. Eles anteciparam-se. Trata-se de uma capacidade que a monarquia tem de se renovar e nisso o grande exemplo é a Casa de Windsor [realeza britânica].

E essa capacidade de renovação passa necessariamente por uma adaptação constante…

Sim. São vistos como um exemplo, a primeira família do reino. Aqueles para quem toda a gente olha e se inspira. Pelo menos devem ser, daí a dificuldade em manter os padrões elevados, é muito difícil…

Meghan Markle na realeza britânica, uma nova vida demasiado exigente

Para uma pessoa que entra neste círculo, como aconteceu com Meghan Markle, tem de contar com todas estas mudanças na sua vida portanto…

A Meghan Markle está a sentir o stress que sentia no fundo a Diana

É duríssimo. Ela sempre foi popular, mas agora há ali uma má vontade. As coisas não estão a correr tão bem quanto isso, porque ela está a sentir o stress, que sentia no fundo a princesa Diana. Nota-se uma grande pressão e ela está com problemas. Não consegue cumprir a agenda real que lhe impõem, porque, como toda a gente, tem a sua personalidade, mas há quem diga que tem um certo feitio. Vem de um meio completamente diferente. O príncipe Harry está-se a lembrar também da pressão que os meios de comunicação fizeram à mãe e, por isso, quer proteger o filho e a duquesa.

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Príncipe Harry e Meghan Markle no dia em que anunciaram ao mundo o seu noivado © Getty

Considera, portanto, que a história se está a repetir com Meghan…

Há um certo afastamento entre os irmãos William e Harry, não a partir deles, mas das cônjuges

Pois é. Depois ainda por cima tem aquela família que é inacreditável, que é mais um problema. A partir do momento em que vem de um meio muito diferente está muito exposta àquela chantagem dos irmãos e do pai, a mãe é que se tem portado com dignidade. Já para não falar do afastamento entre os irmãos William e Harry, não a partir deles, mas das cônjuges.

Pensa que algumas das críticas feitas pela imprensa britânica a Meghan Markle são justas ou distanciam-se da realidade?

É que é muito difícil uma pessoa ter de arrancar uma série de convicções, porque aderiu a uma força maior. Ela não mediu o difícil que iria ser este papel

É muito difícil para uma pessoa arrancar uma série de convicções, porque aderiu a uma força maior. Ela não mediu o difícil que iria ser este papel. Não percebeu que iria ser brutal. Não tem vida própria, tem uma agenda que não é estabelecida por ela. Depois há as fidelidades e obrigação à rainha que a transcendem. A pouco e pouco tem vindo a aperceber-se disso. Tem de fazer uma vida social e caritativa. Não se pode vestir da maneira que quer. Não pode expor ideias próprias sobre certas coisas.

E quanto a Harry, considera que tem agido bem perante esta situação até ao levar a tribunal alguns meios de comunicação?

Isso é o reflexo de um homem apaixonado, é normal. Ambos querem manter-se próximos do seu filho, mas não querem imprensa ao pé, mas geram curiosidade para onde quer que vão porque são muito populares. O preço da popularidade é que dá essas neuras, porque é um stress muito grande.

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Meghan Markle com o filho, Archie Harrison Mountbatten-Windsor, ao colo © Getty

Que conselhos lhes daria para caírem nas boas graças da imprensa?

Tem de se dar comida às feras para as acalmar

Podiam estabelecer algum limite com eles, porque tudo se negoceia. Podiam combinar uma sessão de fotografias de seis em seis meses, ou um encontro, por exemplo. Tem de se dar comida às feras para as acalmar, certas famílias reais conseguem isso. A popularidade que conseguiram ao dar-se bem com a rainha acabou por esfriar por quererem fazer as coisas à maneira deles, o que não podem.

O poder e influência da rainha Isabel II

O jornal britânico Daily Mail escreveu um artigo onde afirmava que este estava a ser o novos “annus horribilis” para Isabel II, não só por causa de Meghan Markle, mas também por causa do escândalo com o príncipe André. Vai ser tudo ultrapassado?

Penso que vai ultrapassar porque o príncipe André realmente tinha essas más companhias. Ele próprio reconheceu que não devia ter ido a casa do outro [Jeffrey Epstein] quando ele já estava indiciado, porque também percebeu que as pessoas reais têm de dar o exemplo, de manter o seu estatuto. Hoje em dia com os meios de comunicação deve-se manter sempre um certo padrão de decência e de moral. Precisam de se divertir como qualquer súbdito, mas não é de qualquer maneira.

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O príncipe André acabou por se ver afastado dos compromissos públicos por causa do escândalo sexual© Reuters

Como é que ficará a monarquia inglesa quando Isabel II morrer?

Acho que vai mudar muito porque ela mantém um padrão muito alto. Está mais velhinha, mas continua ali todos os dias para o seu povo e para as suas obrigações. É uma coisa notável. É a primeira que está ali sempre e continua a ter rotinas fortíssimas, o que é extraordinário para a sua idade.

Há muitas pessoas que defendem que o príncipe Carlos deveria abdicar do trono em prol do William. Esta seria uma boa decisão?

Não, porque quebraria o laço dinástico. Isabel II veio daquela grande crise que obrigou o pai dela a ser rei, nem ela estava preparada, mas quando jurou, disse que era para a vida e está a cumprir. Agora o filho também não pode iludir a parte que lhe compete, porque está a preparar-se para ser rei. Pode ser um reinado longo ou curto, mas não irá de maneira nenhuma abdicar, segundo o que tenho acompanhado. É um bocado como 'mais vale ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida'.

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Príncipe Carlos acompanhado pela rainha Isabel II, sua mãe© Getty

O príncipe Carlos tem o mesmo nível de comprometimento que a mãe?

Comprometimento terá, mas vai ter que dar um toque pessoal, sobretudo sendo um homem que esperou tantos anos.

E os britânicos já se esqueceram do escândalo à volta da princesa Diana?

Já... a Camilla tem sido recuperada aos poucos. Ela nunca usou o título de princesa de Gales, é duquesa de Cornualha. Com o tempo tem conseguido conquistar as pessoas e no fundo até a própria rainha. Muita gente diz que ela será um dia rainha, mas não se sabe quanto tempo é que terá de esperar.

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Princesa Diana ao lado de Carlos, quando ainda eram casados© Getty

A realeza espanhola e os 'affairs' do rei Don Juan Carlos

Em relação à realeza espanhola, o futuro ficará bem entregue nas mãos da próxima geração, neste caso da princesa Leonor?

Penso que sim, estão a formá-la bem, já começou a falar em público, embora não saibamos muitas coisas dela e da irmã.

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Princesa Leonor ao lado do pai, o rei de Espanha, num ato público © Getty images

Qual é o maior desafio para a realeza espanhola?

É a esquerda ganhar, nacionalista e republicana, não lhes cheira nada bem a monarquia. Acho que o atual rei Felipe VI se tem saído bem. Em relação à Catalunha, há uma Constituição e ele tem de a seguir. Depois a natureza da rainha Letizia, que tem o seu próprio caráter.

Se bem que houve ocasiões em que a atual rainha não ficou bem vista como aquela situação em que queria impedir a sogra, Sofia de Espanha, de aparecer em fotos com as netas…

Não estava previsto, não era suposto acontecer assim. Ela não podia ter-se posto à frente da câmara para impedir que Sofia se chegasse à neta. Tudo aquilo foi muito tenso e ela devia ter moderado isso. Começaram a vê-la como mais calculista.

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Momento em que a rainha Letizia tentou impedir Sofia de Espanha de tirar fotos com as netas © Getty

Mas há uma coisa em relação a este casal [Letizia e Felipe VI]: não há negociatas, amantes, se não já se teria sabido. Eles têm esse lado exemplar. No caso da Letizia, o problema é o mau-feitio e a ambição. Tem muito a aprender no sentido em contactar com os espanhóis.

Ela olhou como se fosse um cão

Lembro-me de que na Holanda cumprimentei Felipe VI e ela estava ao lado, já tínhamos sido apresentados anteriormente e eu disse: ‘Sou embaixador de Portugal’. E ela olhou como se fosse um cão [afirma, enquanto se ri às gargalhadas]. Para ela não é natural, para ele é, sempre com aquele encanto e sorriso.

Falando em amantes, ao contrário do filho, o rei D. Juan Carlos sempre teve casos durante o casamento com Sofia...

As pessoas dizem que os Bourbon têm a cabeça da cintura para baixo e realmente se virmos os antepassados todos tiveram as suas fantasias

Antes, durante e depois. As pessoas dizem que os Bourbon têm a cabeça da cintura para baixo e realmente, se virmos os antepassados, todos tiveram as suas fantasias. A rainha Sofia sempre se portou muito bem e amargou muito. Ela nunca se queixou. Por isso é que as pessoas a defendem sempre.

Durante muitos anos o rei Don Juan Carlos teve muitas namoradas, mas ninguém falava nisso porque era a figura do monarca, o homem que tinha trazido a democracia para Espanha. Era a teoria dos 'dois corpos' do rei. Mas chegou-se a um momento em que com a alteração do mapa político espanhol, os novos partidos, uma esquerda republicana e anti-monárquica, foram traçadas linhas vermelhas que o rei ao passá-las ficou completamente desacreditado.

Algo que o levou a tomar atitudes mais sérias, neste caso, a abdicação?

A abdicação dele decorreu de uma mudança na maneira como a imprensa olhou para a vida do rei. Eu conto isso na história em que ele queria passar uns dias com a Corinna [Larsen, amante do rei durante uma década, sensivelmente] em Londres [havia muito nevoeiro em Inglaterra que atrasou o voo fazendo com que a leitura do discurso da Páscoa Militar a 6 de janeiro de 2014 fosse o "momento mais embaraçoso do seu reinado"]. Alguns estavam envergonhados, este rei não nos pode representar. Isso apressou a abdicação dele.

Uma monarquia em Portugal?

Em Portugal, se a História nos tivesse levado a outros termos, era possível termos uma monarquia?

Teria sido possível. Há algo que defendo sempre: dizemos mais aos nossos reis que aos nossos presidentes da república, até porque em quase oito séculos de história oito são de monarquia. D. Manuel era diferente do irmão, não tinha preparação e em dois anos foi aniquilado. Estando no exílio não se interessou muito porque pensou que era uma causa perdida.

O fascínio das monarquias

Para as pessoas que não apoiam o sistema monárquico como é que o defenderia?

Eu sou monárquico e penso que é uma forma fantástica de ter um país. Ter uma família real em que todas as gerações cria a referência de um chefe de Estado que acompanhou os nossos avós, por exemplo. Hoje em dia as monarquias são todas parlamentares e democráticas e são o símbolo da nação. É uma coisa que une as pessoas à volta de uma coroa ou rei. O sistema em si tem maneira de se superar. Para mim é uma maneira romântica e bonita pensar que há 500 anos havia um rei em Portugal que depois deixou a sua descendência. É fantástico fazer essa sucessão durante séculos seguidos. A coroa dá unidade.

Como é que imagina o futuro da monarquia. Acha que está ameaçada?

Está. Mas se os reis estiverem próximos dos seus povos, quem nasceu na monarquia não vai querer que ela cesse. A monarquia tem muito fascínio, pelo mistério e pela magia.

Qual o próximo projeto que podemos esperar do José?

Gostava de escrever um livro sobre os tronos vazios. Aqueles que pelas guerras mundiais ou convulsões internas deixaram de ter monarquias.

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