Angela Ponce, de 27 anos, que trabalha em Espanha numa ONG que defende jovens transgéneros, explica à Agência France-Presse a trajetória que a levou a este concurso.

O concurso Miss Universo, que completa 66 anos, teoricamente é aberto às pessoas transgénero desde 2012, mas até agora nenhuma tinha chegado a esta etapa do evento.

"Ter uma vagina não me transformou numa mulher", aponta Angela Ponce, ao explicar que nasceu homem e ao comentar os planos do presidente americano, Donald Trump, de definir o género pelo sexo de nascimento.

Trump, ex-proprietário do concurso Miss Universo, prevê também a obrigatoriedade do serviço militar para as pessoas transgénero, segundo um documento da Casa Branca divulgado em outubro.

Identidade de mulher

Angela Ponce of Spain competes in the swimsuit competition during the 2018 Miss Universe pageant in Bangkok on December 13, 2018. (Photo by Lillian SUWANRUMPHA / AFP)
créditos: Lillian SUWANRUMPHA / AFP

"Sou uma mulher mesmo antes de nascer, porque a minha identidade está aqui", diz Ponce, apontando para a própria cabeça.

Ser uma mulher é uma "identidade", explica. "Não importa se a pessoa é branca, negra, se tem uma vagina ou um pénis".

Em relação ao sentimento de ser uma mulher transgénero no concurso de Miss Universo, diz: "A responsabilidade que sinto é que não represento apenas a mulher espanhola".

"Represento uma diversidade de mulheres e de seres humanos, que se identificaram com a minha vida", acrescenta Ponce, que diz esperar que as sociedades modernas aceitem cada vez mais as pessoas transgénero.

A Miss Espanha afirma ter sofrido "preconceitos" e "assédio", mas mostra-se esperançosa com uma mudança de mentalidade.

"As crianças nascem sem preconceitos, e acredito que se falarmos com elas sobre a diversidade desde pequenas (...) poderemos educar uma nova geração de seres humanos muito mais tolerantes e respeitosos", diz.

Aparente tolerância

Angela Ponce of Spain competes in the evening gown competition during the 2018 Miss Universe pageant in Bangkok on December 13, 2018. (Photo by Lillian SUWANRUMPHA / AFP)
créditos: Lillian SUWANRUMPHA / AFP

A sul-africana Demi-Leigh Nel-Peters, Miss Universo 2017, entregará a coroa à sua sucessora durante a cerimónia em Banguecoque, transmitida ao vivo para 94 países.

A Tailândia, país anfitrião deste concurso, é conhecida pela sua tolerância em relação aos transgéneros e pelas suas operações de mudança de sexo. Por isso representa um claro contraste com os países vizinhos, de costumes mais conservadores, como Myanmar e Vietname.

Mas por trás desta aparente tolerância, a Tailândia continua a ser uma nação conservadora, e as pessoas transgénero têm dificuldades em encontrar um emprego estável fora da indústria do sexo e do espetáculo.

Até 2012, era considerada uma doença mental pelo exército. A mudança de género nem sempre é reconhecida legalmente, e nos passaportes fica registado o sexo de nascimento.

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