Os argumentos são sempre os mesmos. Já eram os da minha geração e presumo que das anteriores “sou o(a) único(a) na turma que não tem” e vale para telemóveis, saídas à noite e tudo aquilo que querem obter autorização dos pais, usando para isso a “chantagem emocional”.

Ora a resposta a esta pergunta é tudo menos simples pois depende de vários fatores:

  1. Em primeiro lugar, é necessário saber em que consiste um telemóvel? Estamos a falar do aparelho? Ou do cartão que permite fazer chamadas? Inclui ter redes como WhatsApp e Messenger? Permite a utilização de dados? Inclui ter perfil nas redes sociais? Ou estamos a falar apenas de um aparelho para jogos? Inclui uma câmara fotográfica com qualidade?
  2. Em segundo lugar, depende do dia a dia da criança, e se precisa ou não de ligar aos pais quando está fora da escola. A criança desloca-se sozinha para a escola ou para alguma atividade? Passa algum tempo fora da escola sem supervisão de um adulto?
  3. Por fim, depende do nível de maturidade e responsabilidade da criança, por isso ainda que possamos falar de algumas idades, são meras médias que devem ser ajustadas pelos pais conforme o conhecimento que possuem dos seus filhos.

Ou seja, se falarmos do pacote completo, então a idade será a mais elevada possível. A fasquia será entre o segundo ciclo e o início do terceiro. Entre os 10 e os 12 anos seria a idade em que a criança já começa a ter a maturidade para ter um telemóvel.

Antes de ter acesso a um pacote completo, podem e devem existir fases intermédias: uma criança entre os 6 e os 10 anos pode ter um telemóvel sem cartão que a criança usa em casa para jogar jogos de vez em quando. No segundo ciclo, pode dar inicialmente um telefone sem cartão só para que o(a) jovem não se sinta mal na escola, e assim pode andar com um no bolso de trás das calças, só para mostrar que também tem. Pode também começar por dar um telefone só para fazer chamadas mas sem dados. Quanto mais puder adiar a idade do primeiro telemóvel melhor, e se conseguir esperar pelos 12 anos dou-lhe os meus parabéns. Agora, dar a uma criança pequena todo o pacote, é demais para ela, exige disciplina e maturidade que ela pode ainda não ter.

Até aos 2 anos não deveriam tocar em nenhum ecrã, nem passar tempo entretidas com a baby sitter digital. Entre os 2 e os 6 também não existem muitas razões para precisarem de um telemóvel seu e é preferível usarem de vez em quando o dos pais, ou quando muito terem um super fraco, para jogos apenas, sem cartão, e com regras específicas de tempo máximo de utilização. Depois dos 6 podemos então começar a introduzir, aos poucos, as diversas funcionalidades, até que aos 12 anos já estivesse em condições de ter um pacote quase completo.

Por vezes os pais desculpam-se dizendo que é por uma questão de segurança. No entanto, uma criança que alguém leva e vai buscar a escola não tem necessidade de telemóvel a não ser como objeto de socialização. Aliás não se compreende a razão de os pais ligarem a meio do dia de aulas para os filhos sabendo que eles estão em aulas. Hoje, como dantes, no caso de uma emergência, a escola entra em contacto com os pais.

Por vezes os próprios pais desautorizam os adultos que estão com os seus filhos e têm necessidade de lhes falar diretamente. No outro dia relatava-me uma mãe que tinha convidado uns amigos do filho para irem lá para casa, e que os pais dos outros filhos ligavam para eles, em vez de ligarem para ela. Será que deixámos de confiar nos pais dos amigos dos nossos filhos? E claro que as crianças aproveitam para se sentirem, “adultas” e terem que atender chamadas, e poderem assim interromper qualquer atividade que esteja a decorrer.

Com a posse do telemóvel, a criança deve sentir que tem que cuidar do objeto de valor, e conhecer e praticar as suas regras de utilização. E os pais devem ir supervisionando o seu uso, e alargando o leque de funcionalidades aos poucos:

  • Nos jogos, convém saber que tipo de jogos são descarregados. Numa primeira fase deve ser o pai/mãe a descarregar os jogos e só depois dar acesso à descarga de jogos grátis. A compra de jogos pagos deve ser supervisionada pelos pais, até ao momento em que sinta confiança para dar livre acesso à compra pela própria criança. O tempo passado em jogos deve ser controlado sempre.
  • No caso da câmara fotográfica, os pais devem ensinar a criança que tipo de fotos pode tirar e quais podem ou não ser partilhadas nas redes sociais (evitar fotos com identificação da escola ou localização da casa, etc). Ter uma atenção específica para as fotos com conteúdo sexual, e mostrar como uma foto que hoje parece inofensiva pode ser espalhada pela escola toda (para eles é mais perigoso ser espalhada pela escola que ir parar a sites de pornografia infantil). Em termos da filmagem de situações, os pais devem alertar para terem cuidado com a reportagem de situações nas quais eles ou os colegas possam ficar desconfortáveis no futuro com a publicação desses filmes.
  • Relativamente às redes sociais, que hoje servem para partilhar tudo e mais alguma coisa, chamar a atenção para o que deve ou não ser partilhado sobre eles próprios, e também para o conteúdo e grupos a que eles acedem, nomeadamente grupos de bullying contra colegas. A criança/jovem deve ser sempre confrontada com a pergunta “Se fosses tu gostavas?” ou “Imagina que faziam isto ao(à) teu(tua) irmã(o)”

O telemóvel, em qualquer idade, deve ainda ter limites na sua utilização em termos temporais/espaciais, ou seja:

  • Deve ser proibido o uso na sala de aula como é óbvio, mas também deve ser evitado nos recreios. Caso contrário, mesmo que tente adiar a entrega do telemóvel à criança, ela pode não ter amigos com quem brincar no recreio pois estão todos agarrados aos telemóveis. Algumas escolas já proíbem, e bem, o seu uso em toda a escola.
  • Em casa, pode criar a regra de apenas se usarem os telemóveis em certas situações. Pode colocar uma taça na entrada da casa onde são depositados os telemóveis.
  • Devem ser evitados os telemóveis nas refeições em família, e completamente proibidos no quarto de modo a não estarem todo o tempo em estado de alerta à espera das mensagens dos amigos.

Ora para que esta atribuição faseada do telemóvel corra bem, os pais vão ser postos à prova, pois a melhor forma de educarem os seus filhos é darem o exemplo. Estas regras têm que se aplicar a toda a família. Ou, como se costuma dizer, os filhos vêm também para ensinarem os seus pais.

Podem assim os pais aproveitar para fazerem eles próprios um detox. Tire também o seu telemóvel do quarto (pode comprar um rádio despertador, que ainda existem), coloque também o seu telemóvel na taça na entrada, e não esteja todo o tempo em casa a olhar para o telemóvel enquanto faz outras coisas (cozinhar, ver televisão, etc). Se quer que eles sejam disciplinados na utilização do telemóvel, tem também que o ser.

Um artigo de opinião de Luísa Agante, professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil.

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